Diógenes e as pessoas que carregam privadas

Escrever é a arte de observar o mundo.

Sou uma pessoa que caminha muito. Alguns dizem que sou um flâneur na melhor tradição de Baudelaire, andando pelas cidades e me embebendo da alma oculta delas, mas me considero alguém que conceitua a vida como um esporte de contato – só é possível sentir correndo riscos e “colidindo” com os outros. Tentar entendê-los, mas sem perder a essência do pensamento particular. Em muitos momentos, devemos perdoar os outros, pois não sabem o que fazem. Em outros, admirar a glória um tanto patética do ser humano, como ajudar uma senhora idosa a atravessar a rua e, no meio do mesmo gesto nobre, xingar com um palavrão alguém que passou com a camisa de um partido político.

Não é ficando dentro de um carro ou tirando fotos de forma enlouquecida que as pessoas irão entender o mundo. O único jeito que eu conheço – e é uma maneira dolorosa, acreditem – é convivendo com os outros. Caminhando e observando. Intervindo. Sentindo-se a engrenagem de uma grande máquina que move tudo e todos, “a máquina do mundo” de Drummond, cujo poema recordo agora e tem muito a ver com a maneira com que vejo as coisas ao redor.

Há algum tempo que observo, em vários pontos da cidade, uma privada solitária junto a um poste ou perto de uma árvore. Percebi esta privada nos locais mais estranhos de Porto Alegre, desde as calçadas algo esnobes da Padre Chagas até a periferia sombria da vila Bom Jesus. A onipresença silenciosa e ostensiva deste objeto chamou minha atenção; é algo que quebra a monotonia da paisagem com um toque de fantástico.

A privada na Avenida Protásio Alves.

A privada na Avenida Protásio Alves.

 

Tal observação me levou a concluir que ou existe uma pessoa carregando uma privada por aí ou um grupo de carregadores anônimos de privadas planejando alguma intervenção. Qualquer uma das duas hipóteses é interessante e abre perspectivas novas sobre a realidade em que vivemos.

A visão desta privada fez-me recordar de Diógenes, o Cínico.

Nas ruas de Atenas, andava Diógenes, vestido com seus farrapos. Ele virou um mendigo, acreditando que somente a pobreza extrema revelaria alguma virtude de caráter. Mais do que tudo, Diógenes – inventor do cinismo como forma de pensamento – pregava uma vida natural, sem os confortos da civilização e sem instituições para regrar os seres humanos. A felicidade consistia em ser livre dos domínios civilizatórios e das instituições, assim como o ideal grego do auto-domínio e do controle das emoções. Ele acreditava que a virtude não devia ser abordada, mas praticada, e isto – na minha opinião – o coloca na frente de muitos filósofos antigos e até mesmo atuais.

Poderia falar muitas histórias sobre Diógenes, como o fato de ele acreditar que o ideal humano deveria ser observar os cachorros e se espelhar no exemplo deles (o filósofo tinha uma relação quase simbiótica com os cachorros, de onde inclusive acabou derivando o termo “cinismo”). Ou a anedota absolutamente maravilhosa do encontro dele com Alexandre, o Grande, um dos maiores generais de todos os tempos, e o pedido para que Alexandre parasse de fazer sombra ao sol com que se deliciava, “deixa-me ao meu sol!”.

No entanto, prefiro lembrar de que Diógenes andava por Atenas, inclusive durante o dia, carregando um lampião aceso. Quando lhe perguntavam o motivo, ele dizia estar procurando uma pessoa honesta.

"Diogenes", de Jules Bastien-Lepage (1873)

“Diogenes”, de Jules Bastien-Lepage (1873)

Não direi o óbvio, que um Duchamp chamaria a privada de arte e ganharia dinheiro com ela, mas prefiro pensar em Diógenes na sua busca eterna por um homem honesto, portando somente um lampião. Hoje alguém anda por aí carregando uma privada, e não sei se existe melhor metáfora da modernidade do que esta.

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Arquivado em Diógenes, Filosofia, Generalidades, Impressões, Privada, Produção Literária

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