O nascimento de uma biblioteca

Ano passado, durante evento realizado na Feira do Livro de Porto Alegre, em uma mesa que realizei com Alberto Manguel, perguntei-lhe qual o tamanho da sua biblioteca. Afinal, existiam divergências entre todas as fontes que consultei sobre a real quantidade de livros que ele, um amante feroz da leitura, possuía. Manguel riu e começou a resposta desconversando: afirmou que os homens geralmente são fixados com o tamanho das coisas, tamanho do carro, tamanho da casa, tamanho do poder e outros tipos de tamanho. Perguntou-me se tinha algum problema com o assunto e eu respondi que não, óbvio. Homens com 1,89m – como é o meu caso – não se preocupam tanto assim com o tamanho, pois a proporção é uma das regras da natureza.

Em seguida, Manguel respondeu com mais seriedade. O tamanho de uma biblioteca é irrelevante, o importante é o uso que se faz dos livros. Ter uma biblioteca enorme e não usufruí-la é algo completamente inútil. Elas existem para serem lidas e aproveitadas, não como fonte de acumulação. Encerrou a sua fala dizendo que, para ele, a biblioteca mais importante do mundo tinha somente 08 exemplares, e era a Biblioteca Infantil de Auschwitz, que foi muito utilizada como fonte de esperança e sonho pelas crianças enviadas para o campo de concentração. Foi uma resposta muito emocionante; se me recordo bem, a plateia aplaudiu.

Não tira o mérito da resposta de Manguel o fato dele ter uma biblioteca estimada entre 30 e 40 mil exemplares. O importante é a mensagem. A criança que faz uma estante com seus livros preferidos e chama de biblioteca tem tanto valor quanto a biblioteca de um teórico da literatura formada por milhares de exemplares. Competir por quantidade de livros ou de leituras – conforme vejo tantas pessoas fazendo por aí – é algo que demonstra o prazer humano pela quantificação, e mais nada. Afinal, nem sempre quantidade é garantia de qualidade.

Escrevo isto por que, nesta semana, doei alguns livros meus para a biblioteca ainda nascitura de um instituto de educação. Foi doloroso livrar-me de livros, era como se estivesse os traindo. Ainda sinto olhos queimantes a me acompanharem das prateleiras de casa quando passo por elas.

biblioteca ifrs sapiranga  2015

Assim nasce uma biblioteca. 🙂

Boa parte dos livros doados eram exemplares que eu possuía em duplicata. Saber tal fato não simplificou muito a minha tarefa. Por exemplo, “Moby Dick”, de Melville: lembro quando comprei o livro, lembro de cada um dos dias em que o li, e sempre associei a sua capa amarela/azul à caça da baleia branca. No entanto, ganhei um exemplar novo, atualizado, com ensaios críticos e até mesmo os mapas da caçada insana do Capitão Ahab. Não havia mais necessidade de ter a minha surrada “Moby Dick” original. Era hora dela sair das minhas prateleiras para, quem sabe, encantar outra pessoa.

O mesmo digo de “A metamorfose”, de Kafka. Recordo até a banca de jornais em que o comprei (fica até hoje na Rua da República), recordo o nome do vendedor (o Patrick), recordo que gastei uma parte significativa da minha mesada para adquiri-lo e recordo o sentimento esdrúxulo de triunfo ao voltar para casa carregando um clássico da literatura que era só meu. Recordo das noites mal dormidas tentando digerir um conteúdo acima da minha compreensão de mundo, e o esforço que foi ler algo que estava ali, diante dos meus olhos, mas escapava de ser entendido como as escamas douradas de uma carpa ondulando em meio ao lago.

Recordo da primeira vez em que saí com uma moça, ainda no colégio, depois da aula, e ela cometeu o erro de perguntar o que eu estava lendo. Recordo da minha tentativa de explicar “A metamorfose” durante duas longas horas e lembro muito bem a minha consternação ao vê-la me evitando o resto do ano letivo. Até hoje não sei se o livro teve algo a ver ou se foi a minha tentativa de resumi-lo que acabou o estragando, mas, assim como K., subitamente virei um inseto para ela.

Também doei os meus exemplares do Perry Rhodan. Quando criança, não tinha muito dinheiro para comprar livros, então aproveitava o que me dessem. Um vizinho idoso tinha uma enorme coleção de literatura pulp, constituída por livros de faroeste (tipo “Tex”), terror e ficção, todos livrinhos de bolso, e costumava me dar os exemplares que não gostava. Foi assim que li alguns livros do Perry Rhodan. Eram histórias muito malucas, da mais absoluta fantasia. Elas me ensinaram a ver outros mundos, outras possibilidades.

Em alguns momentos da minha vida literária, acho que, no dia em que algum computador decompor os Perry Rhodan em palavras e reordená-las, irá acabar encontrando meu livro inteiro dentro dele. No entanto, esta época da minha vida passou. Perry Rhodan hoje mora dentro da minha escrita. Foi digerido, assimilado e transformado em outro estilo. Relendo alguns exemplares, não tive mais a mesma sensação inicial, pois li material bem melhor e impactante depois. É hora de Perry Rhodan seguir para outro inóspito e excitante planeta, que são as prateleiras de outra pessoa.

Cada exemplar que doei tinha a sua própria história, algumas muito engraçadas, mas talvez nenhuma me seja mais dolorosa e implacável do que a do meu próprio livro, “O homem despedaçado”, que doei junto. Levei três anos para escrevê-lo e mais cinco para publicá-lo. Não me reconheço como seu autor, não lembro mais qual Gustavo prendi dentro das suas páginas. No entanto, recordo de muitas noites escrevendo, recordo como cada história surgiu, recordo como cada maldita linha se aprumou dentro do texto. Recordo das festas que perdi enquanto estava escrevendo, recordo das dores nos dedos (que então começavam), recordo de como foi o primeiro dia em que vi uma mosca despegar-se do cadáver de um cachorro e pensei na ordem inversa da situação, recordo de como ri enquanto escrevia sobre homens tridimensionais (e o meu espanto ao saber que o conto foi recebido não como ironia, mas como tragédia).

Recordo também dos fantasmas, das palavras e frases eliminadas, das conclusões fáceis removidas, das histórias abortadas. Não foi à toa que, no trecho IV do meu conto “Divertissements sobre a dilatação dos porcos”, faço uma homenagem justamente à “Moby Dick” – oh, meus amigos, não existem pontas soltas em mim, e muito menos coincidências – e menciono esta questão dos “fantasmas de histórias que habitam os livros”:

“As histórias não são escritas somente com palavras, elas também são feitas de intenções, sonhos e fragmentos que aderem à sua essência como pedaços de carne dura entre os dentes. Tal circunstância conduz à idéia de que todo livro é infinito, pois em cada palavra há o espectro de outra, ou uma idéia nova que deixou de ser aproveitada por motivos escusos, ou um corte feito pelo autor na sua revisão final.”

Livros não são formados por histórias, eles também possuem histórias ao redor. A minha biblioteca não é somente formada por histórias no formato de livros, mas existem histórias adejando ao redor de cada volume, por mais simples que seja. A pessoa que tocar qualquer exemplar poderá receber uma informação completa de como ele foi adquirido, de como ele foi lido ou de como eu acabei o mencionando ou trazendo alguma lição para a minha vida.

No entanto, às vezes, o passado precisa sair das prateleiras de nossas vidas para formar os presentes e futuros de outras pessoas. Por isto, a doação de livros é, mais do que tudo, um ato de esperança. A ideia de que um livro pode encontrar uma mente fértil onde irá frutificar e gerar novos frutos. A fé irrestrita de que não interessa o seu tamanho, mas a biblioteca de alguém precisa começar por algum lugar, e o começo e fim de todas elas é exatamente um simples livro.

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1 comentário

Arquivado em A Metamorfose, Alberto Manguel, Biblioteca, Franz Kafka, Generalidades, Herman Melville, Livro

Uma resposta para “O nascimento de uma biblioteca

  1. Elizabeth

    Mais um texto lindo!
    Lembro quando compramos no “Círculo do Livro a coleção do Monteiro Lobato e tu começaste a ler, lembro da tua cadernetinha, assim, pequeninha, onde com a mais tenra idade já esboçavas este dom de escrever histórias. Lembro quando ficavas de castigo, sentado em uma cadeirinha e, quando dizia para saires do castigo dizias”agora não, gosto de ficar aqui” – hoje penso que já era maquinando alguma história para colocar na cadernetinha. Anos depois encontrei a cadernetinha povoada de pequenos textos que, acredito, tenham se tornado em lindos textos!

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