Percy Bysshe Shelley e a inevitável decadência

Dia 04 de agosto celebramos 223 anos que Percy Bysshe Shelley chegou ao mundo, e o mínimo que se pode dizer de um cara que foi casado com Mary Godwin Wollstonecraft (sim, Mary Shelley) e foi amigo de Lord Byron e de John Keats é que sabia escolher muito bem as suas companhias.

Diga-me com quem andas e te direi quem és, mas Shelley não tinha problema algum em escolher os seus amigos, o que comprova uma das minhas máximas: os grandes seres humanos procuram naturalmente a companhia dos seus pares. Não têm muito tempo a perder com gente mesquinha ou de pensamentos pequenos.

shelley
Adoro o “Em defesa da poesia”. Poucos ensaios podem ser mais poéticos do que este, em que Shelley fala da função social do poeta, de como o poeta também é um profeta dos seus tempos, de que existe uma ética em fazer poesia (sim, existe – ao contrário do que pensam por aí, poesia não é só um monte de palavrinhas bonitas em um papel). Shelley defende ardorosamente a ideia de que a poesia é essencial para a formação do caráter do homem, “que ela é mais filosófica e rigorosa do que a história”, e daria para ficarmos por dias debatendo o ensaio, estou fazendo um resumo lamentável do seu brilhantismo.
Neste ensaio ainda, Shelley fala uma frase singela que, de tão bonita, infelizmente virou lugar comum: “As almas encontram-se nos lábios dos enamorados.” Isto sim é ser poeta: ver a beleza do mundo em qualquer lugar, por menor que seja.

 

Outra definição dele é também importante: “A poesia tudo conduz para o belo: exalta a beleza do que é mais belo e acrescenta beleza à mais deformada das coisas; casa o júbilo e o horror, a pena e o prazer, o eterno e o mutável; submete à união, sob o seu brando jugo, todas as coisas irreconciliáveis. Transmuta tudo quanto toca.” Shelley pertencia à classe de poetas que buscava o Belo, recapturando o ideal grego de que o Belo conduz necessariamente ao Bom e ao Justo. Não é uma visão muito aceita pela pós-modernidade, mas, como ideal estético a ser buscado, não considero como algo tão absurdo assim.
Serei clichê e ficarei com o poema dos poemas, uma das obras máximas de Shelley (sou mais “O Triunfo da Vida” ou “Ode to the west wind”, mas tudo bem, seguirei a multidão), o incomparável “Ozymandias”, a noção de que todas as nossas obras e desesperos e alegrias e conquistas um dia desaparecerão, pois somos somente uma passagem melancólica e fugaz – com rastros de insuperável beleza – pelo planeta:

 

“Eu encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse:—Duas gigantescas pernas de pedra sem torso
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão
E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando
Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida,
A mão que os zombava e o coração que os alimentava.
E no pedestal estas palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância.”

A decadência é algo inevitável. Achamo-nos tão grandes e indestrutíveis que esquecemos que muitos dos nossos antecessores pensavam o mesmo. Temos que colocar a nossa vida na perspectiva correta, e a leitura de “Ozymandias” é um lembrete amargo que ecoa muito uma poesia do Neruda, aquela em que ele afirma estarmos caminhando sobre bilhões de cadáveres de sonhos que outrora transitaram pelo nosso planeta.

A melhor maneira de degustar o poema é através da sua declamação, e a leitura do Bryan Cranston do original em inglês é simplesmente arrepiante:

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Arquivado em Decadência, Literatura, Percy Bysshe Shelley, Poesia

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