Texto novo no Literatortura (08/08/2015): “O estranho mistério de um sabonete Phebo”

Hoje é o Dia dos Pais, e para quê serviria homenagear o meu pai sem que ele escutasse o que eu tenho a dizer, depois que fosse tarde demais? Não, vai ter homenagem, sim, e será pública.

O texto seguinte, que está na coluna no Literatortura, foi de testar os nervos. Eu estava em Passo Fundo, palestrando sobre a Literatura Inglesa Escrita por Mulheres. Somente no retorno para Porto Alegre, dentro do ônibus, que consegui escrevê-lo, o iPad sobre o colo, o ônibus sacolejando, o corretor ortográfico mudando caprichosamente as minhas palavras, eu lembrando os pais da Literatura sem poder conferir nenhuma fonte (confiando só na memória), a internet surgindo e desaparecendo no meio da viagem de 4 horas e 20 minutos… mas o sacrifício compensou, pois alguns leitores vieram me confessar que o texto os emocionou e os fez lembrar dos pais, então valeu a pena tanto desconforto (pois escrever um texto dá uma descarga de adrenalina que, no meu caso, demora um bom tempo para passar).

Espero que gostem.

 

O estranho mistério de um sabonete Phebo

 

atlas

Quando era criança, um dos maiores mistérios da minha existência acontecia no Dia dos Pais. Todos os anos, eu e meus irmãos presenteávamos meu pai com um sabonete; de acordo com as especificações do gosto dele, ou algum antigo ritual, precisava ser o sabonete Phebo preto, com odor de rosas. Na manhã do Dia dos Pais, minha mãe distribuía os sabonetes e dizia que ele jamais desconfiaria. Ao entregarmos o pacote, meu pai, normalmente uma pessoa comedida nos seus arroubos emocionais, transtornava-se. Gritava que era o melhor presente que já tinha recebido na vida. Abraçava cada sabonete Phebo como se fosse a mais preciosa joia, acariciando a embalagem. Cheirava o papel, antecipando a sua abertura e soltando uivos de alegria. Arrancava promessas nossas de que nunca tocaríamos no seu sabonete Phebo, que somente ele poderia tomar banho com o seu presente, que era só dele e de ninguém mais. Tínhamos a absoluta certeza de que era o melhor presente de todos os tempos, e que nós – por intermédio do dinheiro da minha mãe – tínhamos atingido o objetivo de presentear de forma épica o meu pai.
Por muitos anos, achei que o sabonete Phebo fosse mágico.
Não são muitos os livros que tratam da relação de um pai com os filhos. Talvez seja reflexo da cultura machista que impede um homem de declarar seus sentimentos por outro, talvez seja fruto da criação familiar que nos diz que homens não se emocionam ou talvez seja descaso mesmo. No entanto, é necessário dois para dançar este tango, e um filho não existe sem os dois pais. Ao contrário da mãe, cuja relação com os filhos é fartamente explorada por todas as formas artísticas (onde estava José enquanto Maria retirava o corpo do filho da cruz?), paira um silêncio incômodo sobre os pais. Um silêncio altivo: nós, pais, não precisamos ser lembrados. Ainda mais realçado por aqueles clichês que tanto dissemos a título de consolo, “pai não é quem faz, é quem cria” ou “mãe é só uma, pai pode ser qualquer um”. O pai é um detalhe, e o silêncio quase completo da literatura nos lembra disto.

Mas exceções escapam. Em “Quase memória”, do Carlos Heitor Cony, um filho reconstrói a figura paterna através de uma mala extraviada no passado que chega às suas mãos. O pai surge por pedaços de histórias e de memórias; nunca completamente formado, é uma figura etérea com laivos de concretismo, não raro surgindo através da brutalidade (pois, se um pai aparece na obra, algum fato violento acontecerá. O pai é o contraponto brutal da delicadeza da mãe). Em “Pais e filhos”, do Turgueniev, o filho retorna para casa e a sua descrença com tudo colide com força contra o rochedo das convicções morais e políticas do seu pai. E como esquecer do poema lancinante de Drummond, “Viagem na Família”, em que ele conversa e grita com a sombra silenciosa e cansada do próprio pai enquanto caminham “no deserto de Itabira”, com a frase final das estrofes reverberando o nada, “porém ele nada dizia”? Também podemos lembrar de Atticus Finch, de “To kill a mockinbird”, de Harper Lee, um pai delicado, mas rigoroso, terno, mas implacável.

Os pais também aparecem em contextos tristes, como figuras nada edificantes ou imersos em sofrimentos. Em uma lembrança mais triste, recordamos de Jean-Joachim Goriot, de “O pai Goriot”, do Balzac, traído pelas duas filhas e reduzido à miséria, em um claro eco do “Rei Lear” de Shakespeare. Particularmente, lembro de dois pais esquecidos pelos filhos: o protagonista de “Antes do baile verde”, de Lygia Fagundes Telles, e o narrador de “A morte de Ivan Ilitch”, de Tolstoi, em que os pais moribundos viram obstáculos para as vidas dos próprios filhos, impedindo-os de aproveitarem da juventude. Nesta situação, pai bom é pai que não dá trabalho.
No entanto, para mim, a relação que melhor expressa a paternidade não está na literatura, mas nos quadrinhos. Em Super-Homem, Jor-el tem uma chance de salvar a si da destruição de Krypton, mas prefere dar oportunidade para o filho recém-nascido, Kal-el. No filme homônimo, uma gravação deixada pelo pai, interpretado por Marlon Brando, sintetiza a trajetória de vida de um ser humano: “o filho vira o pai e o pai vira o filho”. É o ciclo da vida: cuidamos e seremos cuidados. Os pais formam os filhos para o mundo: eis o verdadeiro conceito de paternidade, e é uma pena que nem todos pensam assim.
Estou na fase de virar o pai do meu pai. Muitas vezes o recrimino por sua ingenuidade e bondade, e vejo ele sorrindo. Digo para não ser uma boa pessoa, que o mundo é cruel com gente boa, e ele solta uma risada. Meu pai acredita na bondade alheia e que o mundo não é um local tão ruim. E sabe que eu penso como ele, apesar de recriminá-lo pelo contrário. Hoje tenho a felicidade de não ter um pai, mas conviver com o meu melhor amigo.
Levei anos para descobrir a verdade sobre o Dia dos Pais. Não tínhamos uma boa condição financeira para comprar presentes caros, pois meus pais trabalhavam dia e noite para custear os nossos estudos, sacrificando a própria felicidade para que eu e meus irmãos tivéssemos a melhor chance possível. Então, eles criaram esta mitologia ao redor do sabonete Phebo. Compravam o sabonete (um item pequeno e fora da nossa realidade cotidiana) e, para meu pai não mostrar nenhuma decepção aos filhos, ele fazia todo este teatro para nos enganar. Acreditem, o meu pai é um excelente ator, nunca desconfiei que estivesse mentindo. Quando recebia o sabonete, era como se tivéssemos lhe dado o maná dos céus.
Hoje, compramos ainda o sabonete Phebo e presenteamos o nosso pai. Virou uma tradição de família. É oportuno lembrar das épocas ruins, e de que elas passaram; é igualmente oportuno lembrar que meus pais criaram três pessoas boas. Não as melhores, mas não foi por falta de vontade deles, estamos ainda em construção. É bom rir e lembrar do passado, do que ficou para trás. Que a época de trevas passou e que eu e meus irmãos correspondemos à confiança louca, maluca, linda, que nos foi concedida desde o início das nossas vidas.
E sabem o pior? O meu pai ainda vibra muito quando recebe o sabonete Phebo, talvez mais agora do que no passado. Faz um verdadeiro escândalo. Grita e comemora. Diz que é o melhor presente de todos que já recebeu.
Talvez o sabonete Phebo seja realmente mágico.

 

(Texto original no link http://literatortura.com/2015/08/a-estranha-magia-de-um-sabonete-phebo/ )

7 Comentários

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7 Respostas para “Texto novo no Literatortura (08/08/2015): “O estranho mistério de um sabonete Phebo”

  1. Belíssimo texto, querido Gustavo.
    Beijos,

  2. Um texto cheio de perfume sem fugir da” real leveza do ser”.

    • Obrigado pela leitura, Laura! Um texto leve sobre um assunto pesado ou, como a minha mãe disse ontem, “que interessante que tantas coisas possam existir dentro de um simples sabonete Phebo”. Grande abraço!🙂

  3. Ana Borges Reitberger

    Prezado Gustavo, parabéns por tudo: pelo texto, pelo seu pai, sua mãe, enfim, toda a sua família. Por outras razões, Phebo (o tradicional, preto, com cheiro de rosas), também faz parte da minha vida, desde a infância.
    Grande abraço desta leitora assídua e admiradora de seu blog.
    Ana.

    • Obrigado pela leitura, Ana! Interessante que tu és a quinta pessoa que vem me comentar o quanto o sabonete Phebo está ligado a alguma memória afetiva da família, e geralmente é o sabonete preto, com odor de rosas. Obrigado por prestigiar o meu blog, é por causa de leitoras como tu que eu me esforço em sempre manter a qualidade dos textos aqui. Grande abraço!🙂

  4. Jose Paulo

    Lindo texto meu sobrinho, cada vez eu fico mais orgulhoso do meu advogado e escritor favorito.

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