Uma agradável noite escrevendo na residência dos Brontë

Parênteses necessário: no final de semana passado, recebi três e-mails de seguidores do blog reclamando que só me seguem aqui e eu não coloco os textos produzidos no Facebook neste espaço. Vocês têm razão. Isto ocorre provavelmente por desconsiderar o Facebook como meio válido de publicação de textos e de ideias. Sempre pensei o FB um pouco como fast food, algo para ser rapidamente consumido e, em seguida, esquecido. Começarei a colocar os textos aqui também, mas, como a mídia é diferente, o texto será um pouco diferenciado – com óbvias vantagens para os seguidores do blog, que lerão versões mais amplas e ligeiramente  mais elaboradas, pois, quando escrevo no FB, em geral faço pelo celular, na rua, sem muita revisão e sem muita extensão.

 

Uma agradável noite escrevendo

 

Imaginem: uma mesa simples, de madeira, iluminada por velas. As chamas dançam nas paredes ligeiramente umedecidas. É noite, e mesmo a Lua se recusou a sair de trás do conforto das nuvens. Lá fora, o som do vento passeia pelos campos gelados, levantando uma neblina tão dolorosa que a relva parece se dissolver em espasmos de dor silenciosa. Na casa, a lareira crepita, convidativa, ameaçadora.

Ao redor da mesa, três mulheres escrevem. Estão em silêncio, e só conseguimos ouvir o som das penas sobre o papel, alternando-se com os soluçares da lareira. De vez em quando trocam ideias: ou é uma palavra que escapa da memória ou é uma situação em que não é possível ver o desenlace (às vezes, os personagens entram em enrascadas que deixam os autores tão perdidos quanto eles). Talvez alguma pergunte para as outras como se definiria em palavras o bigode de um determinado cavalariço, talvez outra tenha dúvidas se seria crível prender uma mulher louca dentro de uma casa.

Elas provavelmente tomavam chá e, com certeza, deveriam trocar espirros ocasionais, em uma antecipação daquilo que seria o seu fim. Eram mulheres tímidas, não muito acostumadas com os ritos sociais; só deviam se sentir bem entre si, entre irmãs, enquanto mundos fantásticos saíam das mãos ligeiras.

(Pergunto-me se alguma não brincou que elas seriam a representação perfeita das Três Moiras, mas é possível que a mais sombria das três respondesse que estavam mais para as Erínias, o que estragaria o chá – e os escritos).

Assim devia ser uma agradável noite na casa dos Brontë, com Charlotte, Emily e Anne escrevendo enquanto o mundo se contorcia ao redor da sala.

Sala principal da residência das Irmãs Brontë

Sala principal da residência das Irmãs Brontë

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Arquivado em Impressões, Irmãs Brontë, Literatura, Produção Literária

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