Texto apresentado no Sarau “Escritores na Estrada” (22/07/2015): “Regras de comportamento em saraus”

Não sou muito adepto dos saraus. Poderia passar algumas longas (e provavelmente tediosas) horas explicando as minhas objeções ao formato atual destes eventos, fazendo um paralelo histórico com os saraus de antigamente e dizendo no que os atuais deixam a desejar. Inclusive tenho a teoria de que os escritores são os maiores responsáveis pelos problemas nos saraus, ideia que me faria ser lapidado em praça pública, então é melhor ficar quieto.

Mas, quando se é convidado de forma muito gentil para um sarau especialíssimo e por pessoas que muito prezo, então o comparecimento se torna um prazer.

Zero Hora no dia 22-07-15

 

O projeto “Escritores na Estrada”, formado pelas escritoras Ana Rüsche, Renata Corrêa, Tarsila Mercer de Souza e Jeanne Callegari, além do escritor Rafael Rocha Daud, foi financiado em 2015 pelo Catarse. A ideia deles era alugar uma van e passar por algumas cidades do Brasil, encontrando a cena literária destes locais para realizar mini-cursos e saraus. Fui um dos financiadores, e acompanhei o grande esforço que eles fizeram para reduzir custos a fim de incluir Porto Alegre no destino da van (além da capital gaúcha, passarão também por Florianópolis e Curitiba).

No dia 22 de julho, eu estava lá no Mondo Cane – melhor bar do mundo, quiçá do universo – para prestigiar as colegas escritoras. Ouvi os trabalhos delas – os quais desconhecia – e me impressionei com a altíssima qualidade. A Jeanne Callegari inclusive apresentou um poema feito em homenagem ao grupo que eu e José Francisco Botelho coordenamos no FB em honra ao Lovecraft, chamado de Sociedade Miskatônica dos Pampas. O mais correto seria dizer que foi inspirado pelo nosso grupo. Impressionante como a Jeanne consegue fazer poemas fortes e memoráveis e lê-los com tamanha sensibilidade. A Renata apresentou um texto intenso e repleto de nervosismo, de espelhos deslizando, de cacos de vidro trincando aos nossos pés. Os poemas da Ana Rüsche eram petardos escondidos por belas imagens poéticas. A Tarsila fez uma leitura intimista que nos levou para passear dentro da obra dela. O Rafael trouxe uma batida masculina para o seu texto, repleto de contundência, em um cenário bem urbano e cortante. Todos deram uma amostra dos seus potenciais. Vale a pena observá-los.

No melhor estilo do convidado inoportuno, eu não poderia ir a um sarau sem levar um texto. Acabei fazendo algo específico para as minhas amigas do “Escritores na Estrada”, de acordo com alguns dos meus princípios pessoais sobre como funcionaria um sarau, que seriam:

a palavra escrita é diferente da palavra falada, ou seja, para um texto lido, não se seguem estritamente as regras literárias; usa-se o público, o cenário e os acontecimentos do momento da leitura dentro do texto apresentado; respeita-se o tempo do ouvinte, não o do leitor; não estou ali para ser publicado, mas para ser escutado; o texto deve alternar tragédia e comédia para gerar a velha e boa catarse que nos acompanha desde os gregos.

Uma pena que o texto seguinte está escrito e não sendo escutado, pois alguns detalhes dele acabam se perdendo, como o copo que caiu na cozinha  justo quando ameacei realizar canibalismo dentro do bar (assim como a minha brincadeira, “ué, ficaram nervosos?”) ou o uníssono “oooooh….” quando mencionei que pessoas podiam se apaixonar em saraus. Mas o importante é a ideia.

Ah! Quando me propus a fazer este blog, prometi que, quando meus textos fossem publicados fora dos limites dele, ao trazê-los para cá, eu daria um “presente” para vocês, meus persistentes leitores, na forma de um detalhe inesperado, de um segredo que viria ao mundo só aqui, de uma espécie de “flagra” dos bastidores da criação.

Então, lá vai. No início do meu texto, eu realizo uma desconstrução intencional de grandes inícios da literatura: as primeiras frases de dois contos de Borges (aos interessados: “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” e “As ruínas circulares”), de “Orgulho e Preconceito” da Jane Austen (no momento em que o li, apontei para mim mesmo como o “homem solteiro de boa fortuna”, o que já gerou gargalhadas), de “Anna Karenina” do Tolstói, de “Cem Anos de Solidão”, do Garcia Márquez, até chegar onde queria – o início de “Um conto de duas cidades”, do Charles Dickens.

Qual a minha ideia? Tateando entre possíveis inícios, eu estava só me aquecendo e mostrando outros escritores renomados por realizarem leituras públicas dos seus trabalhos, meio que brincando que eles poderiam ter iniciado seus clássicos em um sarau.

No entanto, esta ideia não veio da literatura, mas da música. Não sou só uma criatura intertextual, mas também uma besta interdisciplinar.

Quando assisti ao show do Deep Purple no Gigantinho em 2006, em Porto Alegre, observei que, em um determinado momento, o guitarrista Steve Morse pegava a guitarra e, no centro do palco, sozinho, começava uma série de notas e sequências musicais, como se estivesse perdido, procurando a música certa. No meio do caos sonoro, as notas se organizavam e ele tocava o início de clássicos, como “Satisfaction”, dos Rolling Stones, “Twist and Shout”, dos Beatles, “Sweet Child o’mine” do Guns and Roses, entre outras. De repente, Morse parecia se lembrar de algo e, então, iniciava a valer a música que desejava, outro clássico: “Smoke on the Water”, esta sim do Purple.  Era como se ele estivesse colocando o Deep Purple dentro de uma longa tradição musical e, ao mesmo tempo, fosse um menino aprendendo a tocar a primeira guitarra.

Colocarei um vídeo com outra versão desta música, com Steve Morse apresentando outros clássicos (aqui the Led Zeppelin, Clash, The Kinks, entre outros):

Um dos grandes segredos da literatura é que tudo é história, tudo é ficção. Quando se vai escrever, a gente deve lançar mão de todas as armas que estão ao nosso alcance. Eu planejei falsos inícios de textos clássicos dentro do meu próprio texto para que a transição da escrita para a fala fosse o mais suave possível, para que todos notassem que, no final das contas, somos só parte de uma longa e delirante história contada em um sarau único.

Espero que gostem.


 

Regras de comportamento em saraus

 

Deve-se à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia o surgimento das regras de comportamento em saraus. NÃO, meio clichê.

Todos os saraus felizes se parecem, os saraus infelizes são cada um infeliz à sua própria maneira. NÃO. Não vou vaticinar desgraças no início do texto!

É verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de boa fortuna deve estar procurando o sarau perfeito em que possa aparecer. NÃO. Não é bem isso.

Ninguém o viu desembarcar na unânime noite trazendo as regras de comportamento em saraus debaixo do braço. NÃO. Quase lá – quase assim, mas não desta forma, tão inverossímil.

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer um sarau e falou-lhe a respeito das regras de como se comportar. NÃO. Quem começa um texto já morrendo?

Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. Ah, agora SIM.

É oportuno lembrar-se de Charles Dickens e  da sua relação com saraus. Em 1843, Dickens tinha 31 anos. Estava deprimido e em vias de atingir a ruína financeira. Além disso, os jornais o ignoravam, preferindo outros autores com tramas mais saltitantes. Foi quando Dickens recebeu o convite para um sarau beneficente na cidade de Manchester. Dickens odiava saraus, odiava a exposição da sua arte literária, mostrar as vísceras do seu processo criativo, mas, mesmo assim, ele foi.

Após realizar a leitura, Dickens caminhou pelas ruas de Manchester e, provavelmente influenciado pelos doces eflúvios da literatura que acabara de presenciar, ele viu uma outra cidade: um local sujo e sórdido. Pessoas cansadas e desiludidas. Prédios sombrios e assustadores. Crianças dormindo nas calçadas.

Nunca saberemos o que exatamente Dickens pensou enquanto caminhava até o hotel, mas o fato das notas bibliográficas existentes recordarem deste sarau perdido no tempo é algo mágico. Isto por que o sarau de Manchester marcou o momento inicial que Dickens começou a escritura daquele que, seis semanas depois, viraria “Um conto de Natal”, provavelmente a história de Natal mais conhecida do mundo, que terminou com a sua depressão e afastou de vez a falência. Uma história que o inscreveu, em definitivo, no rol dos grandes escritores da Humanidade.

Não podemos negar que saraus são portas mágicas para outros mundos. Colocar tanta literatura e força criativa dentro de uma única sala é como ficar brincando com um isqueiro ao lado de um caminhão-tanque. Dickens passeou por uma Manchester antes de chegar ao sarau e, quando saiu, era outra cidade que estava o esperando. O seu olhar mudou: tocado pela poesia e pela literatura, ele viu a matrix criativa que cercava Manchester e foi capaz de se embebedar da verdadeira alma dela.

Por este motivo, esta possibilidade de nos levar para outros mundos e nos fazer conhecer outras realidades que moram ao lado da nossa, saraus são perigosos e, já na época de Dickens, existia uma Comissão destinada a regulá-los. As pessoas têm uma grande necessidade de colocarem regras e regulamentos e normas em tudo, e a existência de um território livre como o sarau é inaceitável. Nunca se soube as regras completas, mas algumas normas relativas ao comportamento que devemos ter e observar nos saraus chegaram ao nosso conhecimento.

Regra UM: ninguém morre em um sarau.

Isto aqui não é livro da Agatha Christie, em que pessoas precisam morrer e alguém precisa achar o assassino, ainda que, às vezes, a qualidade do material apresentado induza fortes tendências suicidas. Nos estreitos limites do local onde ocorrem o sarau, somos todos imortais e divinos. Em um sarau, a morte não se senta nas cadeiras para espreitar os seres humanos. Prefere ficar na rua, assustando gatos e namorando mariposas. No entanto, como toda frase taxativa comporta também a exceção destruidora, existiu um único caso de morte documentada em um sarau, e aconteceu – como não podia deixar de ser – em Bagé.  No entanto, pairam tantas dúvidas e mistérios sobre esta morte que não se sabe sequer se ela ocorreu ou se foi parte de um engenhoso plano para chamar a atenção do público. Não se sabe se foi uma morte real, um suicídio planejado, um grande azar ou uma representação que fracassou no campo da ficção e entrou na dureza cruel da realidade. O sonho de todo artista é morrer em cima do palco, no meio de um aplauso consagrador, e, no caso ocorrido em Bagé, quando a morte no sarau envolveu um terneiro, um pote de maionese estragada, um artista mambembe com delírios megalomaníacos e um poema (plagiado, sem os créditos) de Jorge Luis Borges, existem tantas circunstâncias estranhas a rondar tal evento que podemos, inclusive, questionar se algum escritor não o inventou como explicação definitiva para evitar saraus.

Regra DOIS: não é permitido canibalismo em saraus.

Por mais estranha que pareça esta regra, não são poucos os que acreditam que a troca de energias criativas em um sarau conduziria a um enfraquecimento das barreiras que nos transformam em humanos e, em conseqüência, poderia causar o desejo de se amalgamar, de virarmos um só, e isto só pode acontecer de duas formas, ou uma suruba ou através do canibalismo. Ainda assim, proíbe-se somente o canibalismo, mas não a suruba, o que não deixa de ser uma opção interessante.

O canibalismo não é uma opção elegante para um sarau. Demandaria a escolha de uma pessoa para ser degustada, e isto implicaria em muitas discussões. No entanto, a antropofagia é um substituto para o desejo indecente de nos devorarmos. Ao contrário do canibalismo, a antropofagia pode ser feita através de textos, com um devorando o outro, com um poema se sucedendo ao outro, com uma voz galopando o murmúrio de copos irrequietos. Prova do bom-mocismo da antropofagia é aquele grande sarau que se convencionou chamar de Semana de Arte Moderna de 1922, quando todo mundo se comeu e ninguém morreu.

Regra TRÊS: a bebida é aconselhável em saraus.

Todo ajuntamento humano pede bebida. Não conseguimos nos suportar debaixo do manto da sobriedade, não existe nada mais intragável que pessoas sóbrias. A bebida ajeita e azeita o mundo. Com saraus, não seria diferente: enquanto bebemos, as inibições acabam e a coragem aflora. Textos ruins continuam sendo ruins, mas a bebida os distorce e os deixa agradáveis. Na pior das hipóteses, a bebida nos proporciona o bálsamo do esquecimento no dia seguinte.

Regra QUATRO: as pessoas podem se apaixonar em saraus.

Assim como podem se apaixonar em qualquer lugar. Não existem regras ou locais definidos sobre o momento em que o amor vai aparecer. Uma pessoa pode olhar determinada parede e imaginar que ela é formada por tijolos, cimento e argamassa, mas outra pessoa pode ver a mesma parede e pensar que ela foi feita por suor, por sonhos e por ilusões. Em um sarau, as fronteiras da imaginação e da verdade se desvanecem. O homem que lembra um Neruda encontra a outra que sonha com o Drummond e, no frigir da liberdade criativa, o amor pode surgir, entrelaçado no meio das palavras.

Existem muitas regras de como se comportar em saraus, poderíamos nos estender toda a noite tentando elencá-las, mas prefiro prestar um tributo ao primeiro sarau que a Humanidade já fez: quando homens e mulheres nus, com frio, com medo, ficavam escondidos dentro de cavernas no meio da noite úmida, escutando os mais variados sons a quebrarem o mundo e tendo, como única arma para esperar o nascer do dia, a capacidade de contar histórias e de sonhar outros tempos. Todos os saraus nasceram deste, e todos não passam de uma maneira de voltar a sermos irmãos nas nossas dores e alegrias. Estamos sempre juntos na caverna, amigos, e nossas palavras são a única luz capaz de nos guiar.

Talvez toda a Humanidade seja a história que contamos em um sarau.



 

Sabe-se Deus o que eu estava dizendo, mas aparenta ser sério.

Sabe-se Deus o que eu estava dizendo, mas aparenta ser sério.

 

 

Momento da performance.

Momento da performance.

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Arquivado em Deep Purple, Música, Sarau

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