Os guarda-chuvas sempre morrem no final

Entre as dezenas de fatos irrelevantes que me fascinam, um deles é o comportamento dos guarda-chuvas.

Em geral eles andam pelas casas e gavetas, esquecidos, e só aparecem em dias de chuva. Também são facilmente esquecíveis, e gostaria muito de saber para onde vão todos os guarda-chuvas perdidos no mundo – imagino algo como um gigantesco Triângulo das Bermudas. Possuem formatos e cores diferentes, mas cada um tem personalidade própria, a julgar pela forma com que se deslocam nas ruas. Algumas hastes de ferro das sombrinhas alheias buscam, maliciosas, acertar os meus olhos, mas, na essência, guarda-chuvas são objetos benfazejos, a fronteira seca que nos separa da chuva.

Há uma semana que chove de forma quase ininterrupta em Porto Alegre e, caminhando pelas ruas, percebi uma grande quantidade de guarda-chuvas abandonados à própria sorte. Estilhaçados, destruídos, humilhados, eles se depositam nas esquinas, esperando que alguém os jogue no lixo. Assim que um desmorona diante da traição do vento ou da força dos pingos, a tendência do seu dono é simplesmente se livrar dele e, assim, guarda-chuvas mortos se espalham pelas ruas. Não existe objeto mais importante em um dia de chuva, mas, assim que ele quebra, é fácil descartá-lo e seguir adiante.

Não é uma boa época para ser guarda-chuva.

foto chuva

Este desfile de guarda-chuvas quebrados a assombrar as calçadas de Porto Alegre me fez lembrar Virgílio. No Canto I da Eneida, o herói Enéias enxerga, em um templo de Cartago, um mural retratando a Guerra de Troia, da qual fora um dos poucos sobreviventes. Chorando, ele declara: Sunt lacrimae rerum, et mentem mortalia tangunt (“Há lágrimas nas coisas, e os sofrimentos tocam nossa alma”).

Existe uma grande poesia em pensar que as coisas não são feitas de átomos, mas também de lágrimas. Não são poucos que desandam a chorar quando lembram de alguma coisa conseguida com grande custo emocional; eu sou capaz de dizer onde comprei cada livro da minha biblioteca, e todos possuem uma história singular. O que falta para os guarda-chuvas talvez seja esta capacidade de serem formados por lágrimas e sofrimentos humanos. Estão tão ocupados lutando contra as gotas de chuva que esquecem de formar vínculos com as pessoas , e quem não se torna importante para alguém tende a ser descartado ao primeiro sinal de problema.

No decorrer dos anos, observei que muitos relacionamentos se constroem tomando por base alguém que funciona como guarda-chuva. Alguém que evita as dificuldades, que suaviza os problemas, que permite o crescimento do outro às custas do seu próprio. Uma pessoa não formada por lágrimas e boas (ou más) recordações, e sim alguém que pode ser afastado sem maiores consequências e traumas. Alguém importante em uma chuvarada, mas que, quando chegam os dias de sol, é deixado de lado rapidamente.

Os guarda-chuvas abandonados trazem consigo muitas lições. Assim como eles, todas as pessoas são descartáveis, ainda mais quando a utilidade delas termina. Ninguém é insubstituível. Ninguém pode imaginar que a sua posição é firme, pois não existe segurança em um mundo instável. As relações mudam – o que era amizade vira algo a mais, o que era amor vira indiferença. Da mesma forma que um guarda-chuva, ninguém continua ileso para sempre; apara os problemas alheios, ajuda a resolvê-los, mantém a pessoa amada protegida e, ao menor sinal de fraqueza, é sumariamente jogado para longe. Isso sem contar as ocasiões em que somos esquecidos como se nunca tivéssemos existido.  Abandonados, esperamos que o nosso dono volte, sem lembrar que poucas são as pessoas que retomam a leitura de uma história para buscar as notas de rodapé esquecidas aos pés da trama principal.

Pensar na melancolia dos guarda-chuvas abandonados me faz lembrar de Drummond, e da sabedoria do primeiro segmento de “Nosso tempo”, que está em “O sentimento do mundo”:

I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

Gosto da imagem de palavras comprimidas (ou oprimidas) por tanto tempo que perderam o seu sentido e, agora, só querem explodir. Consigo entender uma pessoa que enfrenta tal dilema: o de não ser escutado e sentir-se na iminência de uma explosão de palavras raivosas.

Vivemos um tempo de homens partidos – e de guarda-chuvas mortos. Ou de esperanças destruídas; não podemos esquecer que, no intervalo das suas vidas, os guarda-chuvas também tem a ilusão de serem amados.

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Arquivado em Carlos Drummond de Andrade, Coisas, Generalidades, Guarda-chuvas, Literatura, Virgílio

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