A beleza de ser formado por momentos

Hoje completamos 53 anos sem William Faulkner, um dos maiores escritores que já passou pela Terra. Apesar de frequentemente associado ao Sul dos Estados Unidos, existe na sua obra uma sutileza criativa que transcende fronteiras, uma capacidade única de desvendar as pequenezas e grandes misérias da condição de ser humano. A melhor forma de homenageá-lo é lembrar o seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura de 1950:

A parte final do discurso uso como um credo pessoal. Irei inclusive transcrevê-la:

“I believe that man will not merely endure: he will prevail. He is immortal, not because he alone among creatures has an inexhaustible voice, but because he has a soul, a spirit capable of compassion and sacrifice and endurance. The poet’s, the writer’s, duty is to write about these things. It is his privilege to help man endure by lifting his heart, by reminding him of the courage and honor and hope and pride and compassion and pity and sacrifice which have been the glory of his past. The poet’s voice need not merely be the record of man, it can be one of the props, the pillars to help him endure and prevail.”

O homem não vai somente durar; ele vai prevalecer. O dever do poeta, do escritor, é lembrar o homem de que a sua alma é imortal, de que ele não é o primeiro e nem o último ser que passará pelo planeta, e sim uma nota dissonante e – ainda assim – harmônica na grande experiência que é o universo.

Parece utópico, mas acredito nisto. Da mesma forma que Henry James, Faulkner considerava que um dos deveres da Arte era elevar o espírito humano, fazê-lo recordar do que veio antes e de todas as suas potencialidades. Às vezes, por causa das minhas postagens sobre literatura, pintura, escultura e música nas redes sociais, há quem me considere um alienado político/econômico/social, e talvez estejam certos. Ao contrário de todas as pessoas, que parecem se conhecer tão bem, eu não tenho a prerrogativa de me conhecer – ainda. Estou em construção. Não possuo sequer a pretensão de que alguém siga as minhas ideias. O fato de manter em silêncio a minha própria opinião política/econômica/social é justamente aquilo que me impede de seduzir, encantar, convencer, ludibriar os outros. Existe uma grande sabedoria em silenciar e não usar as palavras – e o discurso literário – de forma vã. Se não sei fazer como Faulkner, e usar as palavras de tal forma que seja impossível ver as cordas e os interesses que as sustentam, é melhor nem tentar.

Ao invés, almejo tocar questões mais amplas. Na tentativa de usar a Arte como forma de ascensão, busco não a efemeridade do momento, mas o que vai permanecer. O sopro que está na origem da consciência. O fantasma dentro do armário. O terremoto que espreita a segurança da terra. O devaneio único que uma pessoa sente quando sabe que se apaixonou de forma irreversível, incandescente. É o que busco: o impossível. Aquilo que não pode ser reduzido a uma questão binária, a um “sim ou não?”, mas a todas as possibilidades que moram dentro do “ou”.

Foi assim que tomei consciência do meu grande inimigo, o qual – presumo – também é o maior adversário de todos: a irrepetibilidade. A noção de que o momento vem e passa, e nunca mais será o mesmo, não interessa a rotina ou a sua repetição. Heráclito disse que ninguém atravessa o mesmo rio duas vezes. O momento vem e passa, e nunca mais será idêntico.

Interessante contar como estes pensamentos surgiram na minha cabeça. Em recente viagem a Bagé, RS, acabei visitando a Estância do Limoeiro. Deparei-me com este cenário:


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Imaginava que o vermelho das plantas fosse normal. No entanto, a proprietária da Estância comentou que, em toda a sua vida, nunca vira cores tão intensas e espalhadas de forma quase unânime pela parede da casa. Perguntei o motivo das flores terem revelado cores tão fortes, e ela deu de ombros. Disse que talvez fosse a combinação climática, pois, nos dias anteriores, tinha chovido, feito sol forte e muito frio, alternando-se as temperaturas de forma contrastante, imprevisível. Após a tentativa de colocar explicação em algo caótico por natureza, a senhora acrescentou, quase com displicência, “provavelmente nunca mais veremos esta cor de novo”.

No mesmo instante, pensei na esdrúxula combinação de elementos e fatores instáveis que tinham me conduzido, naquele dia em específico, naquela hora, com aquela gentilíssima companhia, até a Estância do Limoeiro. Pensei desde as conjunturas climáticas até as questões sociais, familiares, detalhes de amizades, sombras de relacionamentos que se construíram da noite para o dia, pensei na minha proverbial timidez, no receio que tenho de incomodar os outros invadindo as suas vidas, pensei nas centenas de fatores que construíram uma invisível teia com o objetivo de construir uma única recordação na minha vida.

A irrepetibilidade das sensações é um assunto que me fascina. Se as pessoas imaginassem que tudo que acontece em um único dia deve-se a uma série de elementos voláteis e instáveis combinados em um momento em específico, talvez valorizassem mais a sua vida. Veriam que  não são somente algo que surgiu do nada, mas o ponto no qual desembocou uma infinitude de implausibilidades que visam a construir uma história única. Não existe pessoa desinteressante; cada um de nós é formado por um sem-fim de maravilhas, desde o despertador que atrasa e nos faz perder o ônibus até o telefonema que nos tranca no escritório e nos faz perder a noção do tempo. No final do dia, tudo faz um implacável sentido, com o objetivo de construir um instante singular da nossa vida.

No “Teeteto”, de Platão, Sócrates lembra Protágoras e a sua noção de que a vida é formada por um produto do encontro momentâneo entre um dos nossos sentidos com algum elemento transitório no fluxo universal. Refutando esta ideia, diz que o fluxo universal é inconsistente, impossível de ser reduzido a algo único, afetando a própria noção de conhecimento. O que Sócrates considera desvantagem – a ideia de que os momentos são irrepetíveis, pois as sensações variam até o infinito – é justamente aquilo que acho o mais mágico de tudo: a noção de que não existe uma forma e, dentro do fluxo universal, nunca poderemos dizer que a vida é a mesma coisa, pois cada mínimo segundo é uma urdidura de momentos únicos.

Pensando nisto, recordei momentos únicos, destinados a morrerem um dia comigo. Eu já venci uma luta impossível de ganhar. Eu já perdi uma batalha que não podia ter perdido. Um dos três porres que tomei foi em um bar que não mais existe, só na minha recordação. Eu já fui bilheteiro do Conjunto de Câmara de Porto Alegre. Eu já tomei um mate com trabalhadores do campo no Uruguai, olhando um verde maior do que o mundo. Eu já tive a certeza de que ia morrer – e, ainda assim, não morri. Eu já escrevi uma carta de amor, e ajudei um adolescente a conquistar a moça que amava. Eu já ganhei – sem querer – uma partida de xadrez de um campeão nacional, até então invicto. Eu já fui expulso de um teatro por “comportamento violento”. Eu já senti um arrepio nascer na pele de uma mulher e terminar em mim. Eu já vi a morte de perto, inclusive conheci o cheiro dela. Eu já explodi um bolo. Eu já trabalhei um dia como bibliotecário sem ninguém desconfiar. Eu já ganhei flores de uma criança. Eu já escrevi um livro, que inclusive teve leitores, algo realmente impressionante.

Para algumas pessoas, pode soar deprimente a ideia de que cada momento que passa nunca mais voltará a se repetir. Algo que estamos vivendo e, ao mesmo tempo, extinguindo. Contudo, para mim, a sensação maior foi de agradecimento. Por ter vivido estes momentos – e por saber que, de uma forma ou de outra, eles fazem parte do que sou. Se existe algo de que realmente devemos nos arrepender, é de ter nos recusado a viver um momento único por simples covardia ou medo, pois ele pode não mais se repetir, não naquelas circunstâncias.

E assim retorno até Faulkner e a sua ideia de que a Arte existe para fazer o homem tornar-se alguém melhor. Não é só a Arte.  Reconhecer a beleza de instantes que constitui cada pessoa também é uma forma de glorificar o espírito e saber que ele vai prevalecer à passagem dos anos. Estamos construindo e destruindo momentos únicos ao mesmo tempo em que os vivenciamos, e esta é a nossa maior glória: saber que, assim como a Arte, somos feitos de momentos, e eles é quem são a nossa verdadeira alma, a nossa insubstituível beleza.

2 Comentários

Arquivado em Bagé, Filosofia, Generalidades, Irrepetibilidade, Literatura, Lugares, Momentos, Sócrates, William Faulkner

2 Respostas para “A beleza de ser formado por momentos

  1. Marcus O D

    Republicou isso em meandmarc.

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