Conto publicado no livro “Festschrift para Assis Brasil” (2015)

O professor Luiz Antônio de Assis Brasil está completando 70 anos e, em sua homenagem, alguns dos alunos que passaram pela Oficina de Criação Literária da PUCRS (carinhosamente chamada de “Oficina do Assis Brasil”) resolveram lhe presentear com uma antologia de contos inéditos.

Participei com um conto e, ao contrário do que geralmente acontece, me diverti bastante enquanto o escrevia. Na realidade, a trama nasceu anos atrás, em Ouro Preto, quando estive na casa de Tomás Antonio Gonzaga e vi onde morava a famosa Marília, a musa do pastor árcade Dirceu. Meu primeiro pensamento foi: “mas que diabos, ele tinha que possuir olhos de águia para ver a Marília a tal distância!” O pensamento ficou anos surgindo e desaparecendo, assim como a sensação de incômodo, até virar este conto, em que o escritor deixa de ser um apaixonado e se torna um stalker, um perseguidor feroz da personagem/musa. Pode-se ler todos os poemas de Tomás Antônio Gonzaga como uma declaração de amor, mas também podemos ver como o lento desenrolar de um filme de terror do qual a personagem não consegue se libertar do assédio ameaçador e voraz de um homem que pretende consumir a sua existência. É pequena a diferença entre amar e ameaçar.

O título original era “Carta aberta ao meu carcereiro”, mas a minha amiga, a escritora Helena Terra, achou o título pequeno para as possibilidades da história. Mudei então para a primeira linha de um dos meus poemas preferidos de Tomás Antônio Gonzaga, a Lira XIX, “Enquanto pasta alegre o manso gado”. Quem decidir ler o poema antes do meu conto, perceberá que Dirceu, logo após sentar com a Marília e imaginar o futuro idílico de ambos, afastou-se e, ao deixá-la sozinha, Marília enfim falou o que pensava na forma de um desabafo. Tudo bem, é a voz negligenciada do feminino tendo a sua chance de réplica, mas não deixa de ser assustador imaginar uma personagem submetida às lascívias e incomodações do seu criador pelo resto dos tempos.

“Enquanto pasta alegre o manso gado” devia estar no meu próximo livro de contos, que estou em fase de finalização, mas decidiu desgarrar-se do conjunto a que fazia parte para passear na antologia. Tudo bem – perdoaremos tamanha traição. Não existe nada melhor do que lembrar a um escritor os riscos que existe em prender as suas musas. Ao mesmo tempo, o conto serve de um alerta: eis o que estou preparando. Eis uma pequena amostra do que estou trazendo ao mundo.

Bom, segue o conto.

Divirtam-se.

 

Um desenho de Marília.

Um desenho de Marília.

 

Enquanto pasta alegre o manso gado

 

 

Olá. Tu falas bastante comigo e não creio que tenhas me escutado. Mas hoje, após sentar ao meu lado e dizer o futuro ao qual estou destinada, cansei. Resolvi enviar-te uma missiva, algo que rompa o silêncio a que fui condenada, pois não aguento mais. Não conseguirei ser feliz enquanto me seguires com esta obsessão repleta de raiva e olhos vigilantes a cravarem sóis invisíveis nas minhas costas. Sinto-me sufocar. Escuto tua sombra farfalhando atrás de cada passo. Sinto o teu odor de homem atrás de cada árvore. Não consigo ver-te, mas a aura angustiante do teu amor me persegue, um cão do inferno. Antecipas cada atitude minha, inventas pretextos para que nossos pensamentos coincidam, sofres quando tento me afastar e ganhar vida própria. Sei que somos duas mulheres: eu, a que existe na tua idealização, prendeste nesta montanha infinita; a outra, a real, está caminhando por aí. Vejo-te olhando pela janela, enquanto a outra eu caminha no pátio distante. Suspiros estremecem o ar da sala, que ontem estava preenchido por segredos, conspirações e medos. Em seguida, tu voltas à mesa e teu corpo vira fúria e tinta; pegas o papel e descarrega a inconformidade, como se eu fosse capaz de dar alívio para a dor. Teu desespero só me deixa ainda mais nervosa. Tenho medo de que acabes me matando. Sei que já construíste a minha sepultura, imaginaste o sabor cinza dos meus lábios repletos de deserto, planejaste cada detalhe das minhas exéquias e o tom exato do discurso com que lamentarás a minha partida para outro mundo. Tens medo de me perder e, assim, pensas afastar a Morte me deixando longe dela, sob tua segurança constante. Eu não sou como a outra, que te percebe vigiando e acha sedutor. Matas todos os homens que tentam se aproximar; sei que tens ciúme dos bodes, dos outros pastores, da grama em que piso. Teu amor doentio está nos matando. Não suporto ser tua escrava e passar noites te agradando, lendo-te poesias (sequer gosto de poesia!), sempre com os meus olhos amorosos voltados para o teu ego imenso. Nunca me deixas sozinha, imerso nesta insegurança de homem ciumento, disfarçando o medo atrás de algo que chamas de amor, mas é uma forma de egoísmo. Tu não sabes o que é amar. Se realmente me amasse, pararia de me perseguir. Não posso escutar versos, não aguento mais as imagens e as palavras que usas. Não suporto esta sucessão de dias luminosos, repletos de pequenas maravilhas. Estou farta de árvores marcadas com os nossos nomes, de riachos sussurrantes, de poentes perfeitos. Quero um mundo instável, sentir dor, ter dúvidas e não te quero por perto. Desejo caminhar sozinha e tomar decisões, sem tuas mãos a me guiarem. Não sou a tua musa, sou uma mulher. Teu sonho de companheira perfeita é possuir uma escrava, alguém que passa os dias servindo as tuas vontades, e eu não sirvo para tanto. Imploro-te por liberdade. Ninguém nasce para ser subjugado por outro. Não sei o teu nome, nunca me disseste: preferes te esconder atrás de um ridículo nome de pastor, enquanto brincas com Glauceste e Alceu por entre as colinas de falsa alegria em que me prendeste. Esqueça de mim; vá perseguir outras mulheres, outros devaneios. Deixe-me ser sozinha ou me mate, pois viver assim é mentir, e eu não aguento tanta hipocrisia. Escute a súplica contida nesta missiva, implacável carcereiro da minha névoa, e me liberte deste inferno horrível que é ser obrigada a te amar. Mexa a pena e mate-me logo; não quero passar a eternidade sendo lembrada como um adereço teu, mais um desses bois alegres que infestam o cenário.

 

2 Comentários

Arquivado em Contos, Produção Literária

2 Respostas para “Conto publicado no livro “Festschrift para Assis Brasil” (2015)

  1. Gostei muito do enfoque. Sabe quem eu acho que concordaria com a Marília? A Beatriz, amor do Dante. De todas as torturas e martírios do inferno, o que mais me deixou apavorada foi a forma como Dante a idealizou.
    Beijos,

  2. Helena Terra

    Foi só um pitaco, Gustavo🙂 Mas que o segundo título ficou melhor, ficou. Parabéns pelo conto!

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