Sobre amor e sermos formados por coincidências 

Acontece de vez em quando: da força estupenda de um pensamento ser tão violenta que nos dá a sensação de sufocamento. De seguirmos a via inocente de uma suposição e acabarmos passando por veredas sombrias, por placas escritas com aviso urgentes que não conseguimos entender, por um pântano em que avançamos lentamente, ao mesmo tempo em que afundamos de forma implacável.

Hoje acordei pensando na série de eventos extraordinários que levaram ao meu nascimento. Não, ele não estava escrito em algum antigo pergaminho e nem sequer foi previsto pelas estrelas, que possuem assuntos mais importantes com os quais se preocuparem. Não fizeram rituais ou missas negras me louvando, ou assim penso. Também não sou tão ansioso para pensar na única corrida que ganhei de forma retumbante, protagonizada contra milhares de espermatozoides. 

Penso mesmo na gênese, naquilo que veio antes. No encontro improvável de um homem com uma mulher, nas centenas de fatos que poderiam ter mudado o curso da História (não falo na História humana, falo na que me interessa mais, a minha).  Nos detalhes que foram esquecidos, nas inúmeras intromissões que podiam ter acontecido, desde o surgimento de outra pessoa a atrapalhar a relação dos meus pais ainda no início, quando tudo é trêmulo, até a intervenção inoportuna da vida, um emprego aceito, uma doença, um filme erradamente escolhido, um perfume desagradável. 

Aprofundar-me neste pensamento me fez notar o quanto sou fruto de uma série de acasos. Aconteceu do meu pai e da minha mãe estarem na mesma cidade ao mesmo tempo; aconteceu de eles se encontrarem no meio de tantas pessoas; aconteceu de eles conversarem; aconteceu de eles se entenderem; e, a maior de todas as variáveis, aconteceu de ambos se apaixonarem. A mínima alteração nestes elementos e eu, Gustavo Melo Czekster, tudo o que sei e sou, não existiria. 

Amplificando este pensamento perturbador para o mundo, constatei que somos quase oito bilhões de seres formados por uma quantidade infinita de coincidências.

Somos instabilidades e improbabilidades caminhando sobre a Terra.

Em qual momento o amor nasce? É difícil de descobrir o momento exato em que isto aconteceu. Um dia, simplesmente amamos, e a pessoa que até então era comum passa a ter um significado diferente, como se subitamente ela se tornasse imprescindível e o mundo inteiro não passasse de um pretexto para o seu sorriso. 

Lendo “Tônio Kroeger”, do Thomas Mann, deparo-me com esta linda descrição do dia em que alguém descobre o surgimento do amor:

“A loura Inge, Ingeborg Holm, filha do Dr. Holm, que morava na Praça do Mercado, lá onde se encontrava o poço em estilo gótico, alto e pontudo, era a ela que Tônio Kroeger amava quando tinha dezesseis anos.
Como aconteceu isso? Ele a vira mil vezes; porém, uma noite viu-a sob uma certa iluminação; viu como, em animada conversa com uma amiga, jogara a cabeça para o lado, e de um certo modo travesso levara a mão, não muito delgada nem especialmente fina e pequena mão de moça, à nuca, movimento este que fez a manga de gaze branca deslizar do seu cotovelo; ouviu-a acentuar uma palavra, uma palavra indiferente, de um certo modo, tendo sua voz um som quente; e um êxtase dominou seu coração, muito mais forte do que aquele que sentira outrora quando, uma vez por outra, observava Hans Hansen, naquele tempo, quando ainda era um pequeno menino bobo.”


Mais incrível ainda é imaginar que uma pessoa pode estar ao nosso lado e, certo dia, por causa de um ângulo da iluminação na rua, de um movimento de cabelo, de uma risada descontraída ou por causa de uma palavra dita em um determinado segundo, possa emergir o amor, triunfal e possessivo, debaixo da pedra em que estava escondido até então. Isso eleva a quantidade de coincidências que deram origem a cada pessoa na Terra a um número além do infinito.

  
Pensar em todas as coincidências que deram origem a cada pessoa me fez lembrar do início de “Ensaios de Amor”, escrito pelo Alain de Botton. Ao falar da vontade que temos de imaginar a existência de um desígnio divino nas relações amorosas, o desejo de que uma determinada pessoa esteja conectada ao nosso destino desde o início, ele diz que forçamos as nossas narrativas para que as histórias se encaixem.

Não temos como saber com precisão se as histórias de um casal se encaixam e se sobrepõem ou se estamos forçando a situação. Em todo o caso, temos a vontade de que exista uma história única sedimentando a relação, dando um sentido de inexorabilidade para ela. Depois de nos encontrarmos, e de vermos nossos pontos em comum, então tudo se torna questão de fazer o muro do sentimento, através de diálogos, de trocas de experiências, de intimidade. 

É interessante a descrição que Alain de Botton faz sobre como o amor se espalhou pela sua vida depois de conhecer Chloe por acidente em uma viagem de avião, em especial se comparada ao que escreveu Thomas Mann, pois, depois da coincidência inicial do encontro, uma outra série de coincidências acabou agindo e firmando a relação:

“Até que se tenha morrido, é difícil considerar alguém como o amor de sua vida.  Mas, pouco depois de conhecê-la, não parecia de forma alguma um disparate pensar em Chloe nesses termos. No nosso retorno a Londres, Chloe e eu passamos a tarde juntos. Então, algumas semanas antes do Natal, jantamos num restaurante em West London, e, como se fosse ao mesmo tempo a coisa mais estranha e natural, terminamos a noite fazendo amor em seu apartamento. Ela passou o Natal com a sua família, eu fui à Escócia com amigos, mas quando nos demos conta estávamos ligando um para o outro todo dia, às vezes até cinco vezes ao dia, não para dizer alguma coisa em particular, mas apenas porque ambos sentimos que nunca havíamos falado assim com ninguém antes, que todo o resto havia sido compromisso e ilusão de nossa parte, que só agora éramos finalmente capazes de nos fazermos compreender – que a espera (de natureza messiânica) de fato havia acabado. Reconheci nela a mulher que havia procurado de modo desajeitado por toda a minha vida, cujo sorriso e cujos olhos, cujo senso de humor e gosto literário, cujas ansiedades e inteligência se encaixavam perfeitamente em meu ideal.”

Refletindo sobre a coincidência que o levara a conhecer a mulher pela qual se apaixonaria durante uma viagem de avião, Alain lista alguns eventos aleatórios que colocaram tanto ele quanto Chloe lado a lado no avião, e chega, em uma probabilidade modesta, de que existia uma chance de isto acontecer em 989.727. Todas as chances matemáticas estavam contra eles:

“E, no entanto, havia acontecido. O cálculo, longe de nos convencer dos argumentos racionais, só reforçava a interpretação mística de nossa paixão. Se as chances por trás de um evento são bastante remotas, mas o evento ocorre assim mesmo, não podemos ser perdoados por invocar uma explicação fatalista? Jogando uma moeda para o alto, uma probabilidade de um em dois me impede de virar para Deus e pedir cara ou coroa. Mas, quando se trata de uma questão com probabilidade tão pequena quanto a em que eu e Chloe estávamos implicados, uma probabilidade de 1 em 989.727, parecia impossível, pelo menos do ponto de vista do amor, que pudesse ter sido qualquer coisa senão o destino. Seria preciso uma mente inflexível para contemplar sem superstição a enorme improbabilidade de um encontro que havia acabado por alterar nossas vidas. Alguém (a 30.000 pés)  devia estar mexendo os pauzinhos no céu.”

Não sei se existe destino. Acredito que cada pessoa faz o seu. Ou, como Demócrito, penso que o caráter de uma pessoa é o que determina o seu destino. Por mais improvável que seja, o amor pode surgir do nada em um determinado momento e levar tudo de arrasto. Um dia, podemos deitar sem ninguém na cabeça; no seguinte, podemos deitar com a sombra e a recordação incômoda da outra espalhando-se em ondas de necessidade pelo sangue.

A improvável conjunção de coincidências que fizeram meu pai e minha mãe se juntarem nunca mais se repetirá. Bastava o mínimo grão de acaso, a mais leve hesitação, o menor dos fatores para que eu não existisse. Não agradeço aos outros espermatozoides por serem lentos ou aquelas anônimas pessoas que possibilitaram o primeiro ou os demais encontros dos meus pais, um de Santo Ângelo, a outra de Arroio dos Ratos, ambos se encontrando em Porto Alegre. Agradeço pelo que não sei – e talvez nem eles saibam. Agradeço minha mãe por ter virado a cabeça daquele jeito desconhecido em um certo dia; agradeço por estar chovendo quando se encontraram, ou pelo sol ter ofuscado o olhar de ambos por breves segundos; agradeço pelo meu pai ter sorrido daquela forma que nunca saberei. Agradeço por terem sido tímidos (ou arrojados), por nenhum deles ter dado um passo em falso e até mesmo por um deles ter dado o primeiro passo. Agradeço pelo vento ter passado e deixado ambos arrepiados, um achando que era por causa do outro. 

Não vejo esta conjunção de coincidências se articulando na minha vida em torno de alguém, mas agradeço que meus pais conseguiram ver os sinais invisíveis que estavam ao redor deles, e do qual eu seria o produto inesperado.

É impressionante imaginar que existem oito bilhões de seres formados de coincidências andando pelo planeta, mas quase inconcebível mesmo é pensar que existem oito bilhões de formas de amor caminhando por aí. 

(O fato que iniciou a escalada de pensamentos, de lembrança de livros e deste próprio texto é o aniversário de 41 anos do casamento dos meus pais, completado hoje. Participo desta história a 38 anos, e é provável que, nem nos seus maiores desvarios, meus pais imaginavam que as coincidências que os juntaram daria origem a mim, senão teriam pensado melhor antes de cometer esta temeridade que anda por aí e assina como Gustavo. Mas, sou produto de ambos, ou seja, somos todos culpados pelo que faço.  Se existe uma história que sintetiza os dois, foi em um dia desses, que meu pai disse ” sabe qual é o segredo de estarmos casados a 41 anos? É que resolvemos os nossos conflitos na porrada!”, e se finaram de rir da cara que fiz. Claro que a resposta é o bom humor. Duas pessoas assustadoras na sua singularidade, eis meus pais.)

2 Comentários

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2 Respostas para “Sobre amor e sermos formados por coincidências 

  1. Clarissa

    Como sempre, valeu por escrever um texto lindo!!!!

  2. Elizabeth

    Ah! Gustavo! Gustavo! Coincidencias ou nao, o que posso dizer foi que a juncao de dois corpos sedentos de amor formaram este ser maravilhoso que chamamos de Gustavo, unico, com suas peculiaridades, mas que escreve e descreve com muita propriedade os mais diversos sentimentos. Obrigada, meu filho.
    Espero, de todo o meu coracao, que encontres, por coincidencia ou destino alguem que te faca perceber os sinais invisiveis se articularem na tua vida.
    Um beijo grande.

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