Texto novo no Literatortura (08/05/2015): “A Literatura como um prisma inquieto e delirante”

Na semana passada, foi publicada a entrevista da Ruth Rocha e, subitamente, uma quantidade nada desprezível de pessoas começou a me perguntar o que eu achava das declarações dela. Nos tempos atuais, parece que as pessoas procuram chancela para os seus próprios pensamentos. Não sei direito o que esperam que eu diga ou faça, a não ser dar tapinhas nas costas e dizer que vai passar, vai passar.

Li a entrevista e as reações acaloradas e tensas que ela gerou, mas o assunto que me consternava era a questão de fundo que todos pareciam passar ao largo: o que é literatura? Defini-la é como  tentar segurar água corrente – pegamos um pouco do conteúdo, mas sempre algo imprescindível nos escapa por entre os dedos.

Resolvi expor as minhas dúvidas, talvez alguém tenha respostas satisfatórias. Mas – admito, pois sou fraco – também aproveitei para falar das musas, e é provável que o mundo nem desconfie que o texto inteiro se estrutura como um mero pretexto só para que eu imagine um diálogo idílico entre as três musas da Literatura às margens de um plácido regato… aposto que, em algum lugar, três risadinhas cristalinas ressoam com aquela pureza que só as nuvens possuem.

Ainda que não seja como estes gritalhões que vão incomodá-las com exortações e ordens (sim, vocês mesmos, Homero, Virgílio, Camões, Milton, tantos outros), eu também presto meu modesto tributo às Musas, mas sou mais sutil.

A Literatura como um prisma inquieto e delirante

Talon Abraxas 02

Uma semana atrás, a escritora Ruth Rocha falou que “Harry Potter não era literatura” ( http://literatortura.com/2015/04/ruth-rocha-faz-50-anos-de-carreira-e-diz-harry-potter-nao-e-literatura/ ). Uma declaração tão taxativa percorreu a internet, levantando um tsunami de raiva. Por mais que procure ficar afastado de discursos de ódio, em especial os que vicejam nas redes sociais, alguns respingos sempre acabam aparecendo. Li respostas de todos os tipos: pessoas que xingaram a Ruth Rocha de várias formas, outras que colocaram em dúvida a sua sanidade, algumas que a ameaçaram, este tipo de fúria ilógica que somente o anonimato das redes sociais proporciona. Entre os ataques mais “ponderados”, se é que podemos chamar assim, existiram uns que defenderam a J. K. Rowland aludindo ao fato de “Harry Potter” ser um fenômeno mundial, ou mencionando as suas vendas estratosféricas, e até mesmo aqueles que disseram que um livro lido por tantas pessoas precisava ser literatura, ao contrário do afirmado por Ruth Rocha.

No entanto, a questão primordial não foi abordada, talvez por que tenhamos medo de tratar de assunto tão inquietante. O que é literatura? O que transforma algo em literatura? Desde o início dos tempos, as pessoas se perguntam o mesmo, e ninguém chegou a um conceito definitivo. Por tal motivo, quando Ruth Rocha afirma categoricamente que uma obra não é literatura, o oportuno seria questionar, então, o que é? Ao contrário do que pode parecer, o aprofundamento desta discussão só traria questões saudáveis e até mesmo uma relação diferenciada do leitor com o livro que o espreita da prateleira da livraria. Sabendo definir uma ideia própria de literatura, a pessoa pode ficar mais confortável na hora de buscar obras que a confirmem – ou investir em livros que discordem e balancem com as suas certezas.

Na entrevista, Ruth Rocha apresenta a sua visão, “o que eu acho que é literatura é uma expressão do autor, da sua alma, das suas crenças, e cria uma coisa nova”. É necessário respeitar a visão de cada um, mas, no caso, o conceito de Ruth Rocha é insuficiente. Seguindo à risca a ideia de que literatura “cria uma coisa nova”, não existiria nenhuma obra literária no mundo. Todas as histórias não passam dos mesmos temas repetidos à exaustão e distorcidos pela experiência pessoal do autor. De acordo com o conceito de Ruth Rocha, “Ulysses” de Joyce não seria literatura, pois possui uma relação com a “Odisseia” de Homero. A ideia de que precisa existir algo novo exclui a própria noção de intertextualidade, sem a qual não existe literatura, este prisma inquieto movido por mãos humanas por onde as histórias deslizam, se misturam e se repudiam.

Muitas pessoas dizem que literatura são os livros, e eis outro conceito limitado: nem tudo que é literário está contido em fronteiras físicas tão estreitas. Indomável, a literatura se espalha, repercute em obras desconhecidas, traça pontes e paralelos entre livros que não se conheciam, ridiculariza – sem querer – a visão estreita apresentada por outra obra, pretende destruir o tempo e o espaço, mas sabe que poucos são os que conseguirão sobreviver na memória alheia e na poeira da biblioteca universal. Um livro é uma pedra jogada não no lago, mas no oceano, e as ondas a varrem de lá para cá, forçando-a a encontrar outros livros e sonhos em um misto de delírio com imensidão.

Por seu turno, a literatura pode ser uma história contada em um bar, pode ser o último desejo de um moribundo, pode estar dentro um murmúrio de exasperação. O formato de um livro é irrelevante, e prova maior disto é que as contas inscritas em uma pedra por um fenício ou as reclamações de uma dona de casa egípcia materializada em hieróglifos são formas literárias tão concretas quanto o mais reluzente bestseller em uma livraria atual.

Outra ideia fixa de literatura é “tudo aquilo que está escrito”. Novamente uma visão limitada. Nem toda a literatura está escrita: existem milhares de textos preservados na via oral, passando de geração em geração. Da mesma forma, as primeiras expressões literárias foram desenhos feitos em cavernas e que contavam histórias ou relembravam momentos então vividos. Imaginar que somente o escrito é literatura acaba sentenciando inúmeras histórias ao ostracismo. Na Literatura Comparada, estudamos que toda expressão artística que emana ou reflete algo constante em uma obra também é literatura, ou seja, uma fotografia, um objeto, uma pintura, uma dança, tudo poderia ser literatura, desde que contivesse uma história ou uma intertextualidade adormecida no seu interior.

Às vezes, existem pessoas que me contam que escrevem, mas não fazem literatura por não terem sido publicados, escrevem “só para si mesmas”. É uma conceituação interessante, que divide o mundo entre dois tipos de autores: os que fazem literatura quando publicam livros e os outros, aqueles que escrevem. Mas, não estão todos escrevendo? Como faço questão de enfatizar, se a pessoa escreve, mesmo que seja para si própria, está fazendo literatura, queira ou não.

A circunstância de ser publicado é irrelevante; o importante é escrever. Ter um único leitor, às vezes, é mais complexo do que ter centenas de milhares de pessoas que compram livros somente para ilustrar suas prateleiras. Um livro não lido, mas ostentado, também é literatura? Eis outra indagação pertinente. Observei que muitas pessoas disseram que “Harry Potter” seria uma obra literária por ter milhões de leitores no mundo todo, mas a quantidade de leitores é o que determina uma obra como literária? Um livro com um único leitor – a mãe do autor, por exemplo – deixa de ser literário?

Para exemplificar a dificuldade de se chegar a um conceito único do que seja literatura, nunca é demais lembrar que, entre as nove Musas gregas, era a única expressão artística que não possuía uma musa específica, mas três: Erato, “a amável”, musa da poesia lírica; Melpômene, “a poetisa”, musa da tragédia e Tália, “a que faz brotar flores”, musa da comédia. Talvez por este motivo a entrevista de Ruth Rocha tenha despertado tamanha onda de raiva. No momento em que simplificou a questão e disse que um livro não era literatura – da forma com que falou, a escritora relegou boa parte do gênero da fantasia à ideia de que não era literatura, o que é outro grave problema conceitual, pois não existe hierarquia entre gêneros literários, em que alguns são “mais” literatura do que outros -, ela não estava falando somente de “Harry Potter”. Estava expondo uma ideia totalitária de literatura, em que se admitem exclusões e reduções – e preconceitos – de acordo com o gosto individual.

Sempre imaginei Erato, Melpômene e Tália sentadas ao lado de um plácido regato, molhando os pés enquanto discutem as obras dos seus protegidos e as dividem entre si, esta história vale uma comédia, aquela lá só funciona dentro de uma poesia, a outra vai dar uma linda tragédia!, e elas se abraçam, dançam e se divertem. Não gostaria de imaginar que as musas brigam pela supremacia, uma se achando melhor do que as outras, quando cada uma possui a sua própria beleza, assim como cada livro – por mais desconhecido ou mal escrito que seja – tem o seu próprio encanto e sedução.

Se não existe um conceito válido de literatura, ainda prefiro o meu: literatura é aquele espaço de liberdade delirante em que um homem é sonhado pela sua própria obra.

Texto originalmente publicado neste link: http://literatortura.com/2015/05/a-literatura-como-um-prisma-inquieto-e-delirante/

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