Os grandes momentos que perdemos sem saber

Claro que tenho segredos, todo mundo tem. O mistério sobre os motivos que me fazem deixar um pouco de café no fundo da xícara, nunca secá-la por completo, já deu margem às mais divertidas suposições. A forma randômica com que me comporto em congressos, às vezes assistindo palestras que não se relacionam em nada com meus estudos, é outro assunto que desperta certa perplexidade e, por conseguinte, as mais variadas hipóteses. O fato de ser um abstêmio declarado e, em raríssimas ocasiões, dependendo da companhia e do momento, beber álcool, é considerado por algumas pessoas próximas como uma grande deferência que concedo, ainda que nunca expliquei qual o gatilho que me faz beber álcool em um momento e recusar peremptoriamente no outro. A esta altura da vida, todos sabem que tenho medo de galinhas, mas poucos conhecem da minha absoluta aversão e ojeriza ao som (e ao cheiro) de miliopã sendo triturado por dentes humanos. Sou alguém que preserva bem os seus segredos.

Um dos mais bem guardados – percebido, até hoje, por poucas pessoas – é que, mesmo não sendo fanático por doces ou sobremesas, toda vez que eu ver uma torta macron à venda, não interessa o lugar, será sempre meu pedido.

Não é o doce mais bonito do mundo: não sei se já vi duas tortas macron iguais, depende muito das noções estéticas do cozinheiro. A combinação do amarelo dos ovos com o branco do coco queimado e a escuridão das ameixas não é algo bonito de se apreciar. Da mesma forma, também não é a torta mais gostosa que existe, pois seu sabor é, ao mesmo tempo e de forma desigual, doce e amargo.

No entanto, ainda assim peço a torta macron, em um misto de esperança e desencanto. Pois estou procurando uma que não mais conseguirei achar.

 

 

Torta macron encontrada ontem, na Bella Gula.

 

Quando eu era criança, no dia do aniversário, era costume familiar que o aniversariante escolhesse as suas comidas favoritas para celebrar a data. Sempre pedi as mesmas, não gosto muito de inovações, sou fiel às minhas preferências: invariavelmente, pedia almôndegas, feijão mexido e, de sobremesa, uma torta macron – pois imaginava que somente a minha avó fosse capaz de fazer uma torta macron. Considerava um doce de extrema complexidade, algo que já possuía um mistério na sonoridade do nome, destinado para uma ocasião especial. Imaginava princípes e mercenários comendo tortas macron e tecendo conspirações,  pensava em um doce subversivo, para ser degustado em porões e cantos escuros, ou até mesmo algo cuja fórmula quase alquímica deslizava por entre as gerações, um segredo a ser mantido à custa de sangue.

Minha avó nunca explicou o motivo da torta macron ter este nome, e muito menos como aprendera a fazer. Sempre foi o doce que imaginei como meu, feito especialmente para me celebrar.

Depois que a minha avó morreu, a torta macron nunca mais teve o mesmo sabor. Algumas vezes, minha mãe ainda faz, lembrando deste meu gosto antigo, mas – ainda que seja boa – não é mais a mesma. É outra. Tem os mesmos ingredientes e carinho, mas o sabor se alterou.

Não lembro mais o gosto exato da torta macron da minha avó. A cada dia que passa, ele fica mais perdido em algum desvão da memória. Tinha um gosto de maravilha. Recordo, contudo, que possuía um traço único, algo que identifico – de forma estranha – com angústia, com as areias inquietas de uma ampulheta, com o som de um grito na madrugada. Com algo que não tem nome ainda.

Não era a melhor torta macron de todas; já comi algumas realmente espetaculares, encarei versões criativas e releituras da receita tradicional, degustei o trabalho de alguns chefs e suas receitas próprias sobre os mesmos ingredientes, estive diante de tortas feitas com amor e outras com desleixo quase criminoso, assim como coloquei na minha frente tortas que, de macron, só tinham o nome e mais nada.

No entanto, ainda não achei a torta que estou procurando. Aquela que, um dia, me pertenceu.

Também tenho a certeza dolorosa de que  não vou mais encontrá-la. De que devorei a perfeição por cinco ou seis vezes em uma vida inteira, e não sabia disso.

Se existe algo que a vida me ensinou, é a irrepetibilidade. Cada momento nunca mais se repetirá. Cada sensação nunca mais será experimentada. Cada sonho, nunca mais será encontrado. Achamos que tudo pode ser repetido, mas o instante já se foi. Em alguns casos, a perda pode ser cruel. Podemos perder uma alegria, um sorriso distraído da outra, um toque inesperado no braço, um amor – tudo por que acreditamos cegamente que ainda há tempo, que sempre há, quando, na realidade, o tempo passou. Só perdemos tempo na vida. Devemos prestar atenção nos momentos, aproveitá-los ao máximo antes que eles desapareçam – pois sumirão tão rapidamente quanto surgiram.

Deveria ter pedido mais tortas macron, não esperar somente o dia do meu aniversário. Deveria ter perguntado qual a receita usada. Deveria ter valorizado mais o momento que estava vivendo, não achar que ele seria eterno.

Deveria ter aproveitado mais a existência da minha avó.

O momento se foi e, hoje, só me resta pedir uma fatia de torta macron em algum restaurante anônimo e comê-la devagar, com a doce – e amarga – ilusão de que posso encontrar aquilo que perdi. Todos os momentos únicos que deixei passar.

6 Comentários

Arquivado em Generalidades, Impressões, Memória, Produção Literária, torta macron

6 Respostas para “Os grandes momentos que perdemos sem saber

  1. jizye

    A minha vó também fazia a melhor torta macron do mundo, e apesar de eu não gostar de coco em doces, aquela torta da minha vó deixou um vazio. Já comi algumas por aí a procura do que descreves, mas já desisti há muito tempo. Afinal, não gosto de coco….

  2. Elizabeth

    Meu filho, a perda da vovó foi irreparável em nossas vidas; mas, eu, na ingenuidade ou sensibilidade de mãe, tentei amenizar a falta da torta macron em tua vida e, sempre que possível, faço como um alento ao teu coração. Conseguiste com este texto, nos reportar àqueles velhos tempos onde a presença marcante da vovó era a nossa fortaleza. Obrigada por tuas palavras, doces, sinceras e carregadas de saudade!

  3. Clarissa

    fazer a mana chorar logo antes do happy hour….. checked!

    eu tb tenho a minha macron, mas é o feijão, e eu tenho sempre a audácia de tentar fazer igual o da vó… talvez quando eu for vó tenha acesso aos segredos alquímicos, te conto

  4. Ótimo texto, muito bom! Acredito que levamos tempo para que o momentos são únicos e não eternos, aproveitar cada segundo é o segredo. Gostei do texto, parabéns mais uma vez!

  5. CARINA

    SEMPRE MARAVILHOSO, COMO SEMPRE – REDUNDÂNCIA É BOM DE VEZ EM QUANDO, EHEH

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