A lápide vazia

Quando estive em Minas Gerais, a opulência do barroco chamou minha atenção, tanto que manifestei neste blog o fato de ter, às vezes, saudade dele (http://wp.me/p24M2p-13). Também falei, de forma breve, sobre as obras de Aleijadinho e a forte impressão que me causaram (http://wp.me/p24M2p-7G), em especial os olhares cheios de sentimento das estátuas. Olhares humanos presos na pedra.

Uma imagem ainda recorrente na minha memória é o Panteão dos Inconfidentes, localizado no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, MG.

É uma sala vazia, feita de pedra. No chão, estão dezesseis lápides, cada uma pertencendo ao inconfidente cujos restos mortais foram recuperados no estrangeiro – para onde eles foram expulsos – e trazidos de volta para o Brasil. Naquela sala, os dezesseis conspiradores de então continuam juntos, e só podemos imaginar as conversas que estão travando. Conversas cheias de esperança ou sussurros de medo? Não sabemos. Espero que não tenham desistido dos seus ideais republicanos, ainda mais depois de tudo que aconteceu na História do país. Espero que ainda tenham a mesma fé na liberdade do povo que tiveram no passado e pela qual perderam a vida e os seus mais estimados bens pessoais.

Ao entrar no Panteão da Inconfidência, tive uma sensação análoga àquela que experimentara quando entrei no subterrâneo da casa de Tomaz Antônio Gonzaga. Quantas palavras, quantos sonhos, quantos poemas estão presos naquele lugar, reverberando entre as paredes, anônimos e esquecidos! Na casa de Gonzaga, os inconfidentes se reuniam ao redor da ampla mesa, longe dos olhos inimigos, discutindo liberdade e um outro mundo; no mesmo local, nos momentos de solidão, o poeta Tomaz Antonio Gonzaga sonhava com Maria Dorotéia e a transformava em Marília nos poemas. Sempre considerei que a luta política e a luta pela conquista do coração de uma única mulher tem pouquíssima diferença.

Tudo perdido. Tudo em vão. Nem os inconfidentes ganharam, nem Tomaz conseguiu ficar com a mulher amada. No entanto, as consequências dos seus sonhos duram até hoje.

panteao

Um detalhe literário (talvez) delicioso é que, na sala ao lado do Panteão dos Inconfidentes, estão outras lápides, entre elas o cenotáfio de Barbara Heliodora, a esposa de Alvarenga Peixoto. Seus restos mortais nunca foram encontrados e, assim, só restou a possibilidade de construir um monumento em memória ao corpo ausente. Barbara foi considerada por Aureliano Leite como a “Heroína da Inconfidência”, pois estimulou ideais libertários no marido – inclusive quando ele fraquejou e quis desistir – e, depois de Alvarenga sofrer o degredo para Angola, permaneceu cuidando da casa e dos filhos. É considerada a única mulher inconfidente, e a História, esta injusta, acabou a excluindo do Panteão principal. Barbara Heliodora era também uma poetisa, mas não se sabe quase nada da sua obra, e o pouco que conhecemos é colocado em dúvida. Uma escritora cujos poemas desapareceram no tempo, foi afastada do homem que amava e declarada louca para que roubassem os seus bens – não sei se existiu maior castigo do que este.

Outro detalhe literário interessante é que, ao lado de Barbara Heliodora, encontra-se a lápide com os restos mortais de Maria Dorotéia Joaquina de Freitas, a qual entrou para a História como “Marília de Dirceu”. Nem na morte Tomaz Antônio de Gonzaga conseguiu o seu intento, e existe uma ironia cruel nisto. Continua separado de Marília, desta vez a uma sala de distância, sem o consolo de espiá-la de vez em quando ou de sentar-se junto à mesa e tentar capturar o amor sonhado através de palavras. Um amor que nasceu para nunca ser realizado – eis o pior e mais intenso dos sentimentos.

No entanto, a mais fascinante das lápides do Panteão dos Inconfidentes é a décima sétima: a dedicada aos inconfidentes anônimos, aqueles que morreram pela causa e cujos nomes foram apagados de todos os registros. Nesta lápide vazia, encontra-se inclusive Tiradentes,  destruído de tal forma que sequer sabemos como era o seu rosto.

Lápides sem nomes são muito simbólicas. Apesar de não possuírem nenhum corpo pelo qual possam clamar responsabilidade, também podem conter quem quisermos. Em momentos que é esporte reclamar do país ou considerar tudo como fruto da nossa bagagem cultural, minha mente vaga até entrar novamente no Panteão dos Inconfidentes, e a pergunta que faço é a mesma que me consternou na época: eu mereceria estar debaixo desta lápide, ao lado dos meus sonhos, ideais e projetos? Ou deveria ficar fora dela, no meio da multidão que prefere assistir ao invés de realizar?

Contudo, com o passar dos tempos, o que existe na minha memória não é mais o Panteão dos Inconfidentes, e sim o Panteão dos Gustavos que se foram e não vão voltar mais. Todos temos um local assim, mas poucos são os que se atrevem a visitá-lo. Lembrar também é uma forma de homenagear. Todos os dias, entro nesta Panteão mental e lembro de um outro Gustavo que morreu, às vezes com saudade, às vezes com tristeza, em muitas com ironia.

Apesar disso, a lápide vazia no centro deste Panteão interno me assusta, pois diz que outros Gustavos ainda virão. Até o dia em que o último – eu – escrever meu próprio nome no meio do silêncio da pedra.

1 comentário

Arquivado em Barbara Heliodora, Literatura, Lugares, Marília de Dirceu, Panteão dos Inconfidentes, Tiradentes, Tomaz Antônio Gonzaga

Uma resposta para “A lápide vazia

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