Texto novo no Literatortura (16/04/2015): “Sobre ser um estrangeiro dentro da realidade”

Saiu texto novo no Literatortura. Desta vez, eu trato dos artistas, esta raça que se esgueira pelo mundo e insiste em repudiá-lo, pois estar com outras pessoas machuca demais. Participações especiais do Tchekhov (com a pior descrição da mulher amada já feita) e do Cortázar, que grita a verdade – somente os livros dão algum sentido para a existência. Segundo ele, os gatos também, mas daí é questionável.

Espero que gostem.

 

Sobre ser um estrangeiro dentro da realidade

Labirinth 2, Marcel Chirnoaga

 

Eu realmente admiro as pessoas que conseguem viver no mundo real. Admiro a sua capacidade de se concentrarem nos fatos, de não verem possibilidades enlouquecedoras em cada mínimo voo de uma borboleta, de serem incapazes de deixar a mente vagar como cavalo selvagem em uma noite de inverno. É necessária muita perícia para não sucumbir ao devaneio. Todos os dias, a imaginação esmurra as portas da realidade para tentar dar o seu ponto de vista, e aqueles que conseguem manterem-se íntegros dentro dos confortáveis muros de concreto do cotidiano são pessoas admiráveis, os que levam o mundo nas costas.
Escrevo isto por que existe toda uma ideia de que artistas são pessoas felizes por serem criativas e enxergarem o mundo sem os grilhões enfadonhos da realidade. É um erro: não existe artista feliz. A história das artes pode dizer sobre pintores, escultores e escritores e a sua luta infinita em busca da felicidade, luta esta que termina com eles doentes, bêbados, deprimidos ou mortos. Pessoas contentes são incapazes de produzirem arte, pois ela nasce do desconforto com o universo, da angústia com o outro, do medo primitivo. Quem está feliz, é muito ocupado mantendo esta condição, e não tem tempo para expor seus receios em uma obra de arte. A infelicidade é uma condição artística essencial; somente os descontentes sabem o que faz falta no mundo.
Mas existe algo pior do que estar previamente sentenciado à infelicidade. É o constante sentimento de inadequação, de não ser parte deste mundo. A busca infrutífera por um isolamento dos outros e de si mesmo, a criação de espaços seguros onde possa desenvolver o trabalho em paz, os longos silêncios, todas são manifestações externas do fato de que, apesar de ansiarem pelo convívio com outros seres humanos, artistas farão de tudo para evitá-los. As tragédias e comédias humanas são parte indissolúvel do ato criativo, mas, de forma paradoxal, conhecer e interagir com as pessoas é algo que machuca. Cada história alheia escutada é um aguilhão de dor; cada necessidade de ser agradável ou simpático por causa de convenções sociais afasta-nos da perfeição da obra, a qual conseguimos visualizar com riqueza de detalhes. Está ali, ao alcance da mão, tão próxima e tão distante que chega a desesperar.
É quase impossível de explicar. O próprio Tchekhov,em carta enviada para a sua esposa Olga Knipper em 01º de setembro de 1902 teve dificuldades de explicar como era estar ao lado de alguém que amava sem estar presente de forma completa: “Você escreve que eu sou capaz de viver com você em silêncio completo, que só precisa agir com você como um ser humano e você se sente estranha comigo e é estranha para mim. Querida, você é minha esposa, quando você vai entender? Você é a pessoa que está mais próxima a mim, minha querida; Eu te amo infinitamente, mas eu te amo, e a descrevo como uma mulher agradável que se sente isolada e sozinha … Bem, é como você quer, se não há outro remédio.” Quando faltam palavras para Tchekhov explicar o turbilhão de emoções que se esconde nas suas atitudes, e para a mulher que amava, é por que o problema é mais sério do que imaginamos.

Olga Knipper reclamava que Tchekhov conseguia viver com ela em silêncio absoluto, que eles agiam entre si como se fossem estranhos. É algo compreensível; a cabeça de Tchekhov estava povoada por imagens, por personagens, por restos de diálogos, por palavras soltas. Sobrava muito pouco para se concentrar no cotidiano, mesmo que este fosse a mulher amada. A descrição dele para Olga, “a descrevo como uma mulher agradável que se sente isolada e sozinha”, é tão desprovida de sentimentos que até os personagens de papel do contista russo são mais pulsantes do que a mulher viva ao seu lado.
O escritor que melhor se deteve sobre esta sensação de ser um estrangeiro dentro da realidade foi Julio Cortázar que, em um ensaio curto chamado “Do sentimento de não estar totalmente”, falou sobre o estranhamento que sempre sentiu em relação ao resto do mundo: “Desde pequeno assumi com os dentes apertados essa condição que me afastava dos meus amigos e ao mesmo tempo os atraía para o estranho, o diferente, aquele que botava o dedo no ventilador. Eu não estava destituído de felicidade; a única condição era coincidir às vezes (o colega, o tio excêntrico, a velha maluca) com outro que também não coubesse direito nos próprios documentos, e evidentemente não era fácil; mas logo descobri os gatos, nos quais podia imaginar a minha própria condição, e os livros, onde a encontrava por inteiro.” Cortázar chama isso de “sentimento de não estar de todo”, e está na gênese da poesia, uma vez que o poeta não pode estar imerso no mesmo cotidiano das demais pessoas, precisando criar a sua própria esfera subjetiva da realidade, pois senão seria incapaz de fazer uma poesia. Quando alguém consegue se desviar e não se sentir mais parte da realidade, é possível criar uma nova versão dela.
Às vezes, as pessoas perguntam: de onde surgem as ideias? De qual lugar brota a inspiração? Existe uma certa curiosidade voyeurística aí, algo que vem dos nossos antepassados e a sua noção de que os artistas eram seres bafejados por espíritos superiores, as Musas. Os grandes livros da Humanidade nasceram com exortações iniciais pedindo o auxílio das Musas: a “Ilíada” e a “Odisseia”, de Homero, a “Eneida”, de Virgílio, “Os Lusíadas”, de Camões, para ficar em alguns. Hoje as Musas estão aposentadas, mas não são poucas as pessoas que insistem em tentar descobrir a nascente no Nilo, o local onde brota o primeiro veio da inspiração e da criatividade. É uma discussão fadada à inutilidade. Toda pessoa que devaneia é um artista em potencial, a diferença é que artistas colocam as suas obras em um meio físico. No entanto, o sentimento de inadequação e não-pertencimento ao mundo jamais desaparece, e esta é a agonia que separa os artistas das demais pessoas: são homens e mulheres que não conseguem se ajustar e, por isto, andam em constante sofrimento, deixando pedaços seus pelo mundo que os renega, trazendo beleza ao custo – pesado, mas, ainda assim, válido – da própria sanidade.

 

(Texto presente no link http://literatortura.com/?p=24185 )

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4 Comentários

Arquivado em Artigo, Literatortura, Produção Literária

4 Respostas para “Texto novo no Literatortura (16/04/2015): “Sobre ser um estrangeiro dentro da realidade”

  1. Realmente, artistas felizes é algo que não existe, se estão felizes não escrevem, não pintam, pois como você disse estaram preocupados em como manter a felicidade, um exemplo é Manuel Bandeira que durante anos conviveu com um doença e seus textos são belíssimos. Ótimo texto!

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