Apontamentos sobre “O som e a fúria”, de Faulkner

William Faulkner

William Faulkner

 

A mais difícil experiência no ato de escrever um livro é encontrar a voz da narrativa, aquela sensação de desconforto interno que leva uma pessoa a abandonar a vida cotidiana para se enfurnar nos campos da fantasia. William Faulkner necessitou ser recusado três vezes por editoras para se refugiar no silêncio da própria literatura e escrever “O som e a fúria”, lançado em 1929 e considerado por muitos críticos como o ponto alto da sua obra. Nas palavras dele, “Quando comecei o livro, não tinha nenhum plano. Eu nem sequer estava escrevendo um livro. De repente, parecia que uma porta se havia fechado, em silêncio e para sempre, entre mim e os endereços dos editores, e eu disse a mim mesmo: ‘Agora posso escrever. Agora posso simplesmente escrever”. Mesmo elogiado pela crítica, o livro passou despercebido pelos leitores até 1931, quando, após lançar o seu sexto romance, “Santuário”, o público enfim descobriu “O som e a fúria”.
O título do livro é uma citação de Macbeth, de Shakespeare: “[Life is] A tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing” (“[A vida é] uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum”). Curiosamente, em uma entrevista feita alguns anos depois, Faulkner confessou que o título saíra do seu inconsciente e que, embora recordasse que era uma expressão de Shakespeare, não lembrava o inteiro teor da frase, ficando impressionado em ver como ela fechou bem com o conteúdo do romance. “O som e a fúria” pode ser lido como uma alegoria da vida humana e do caos que rege as relações sociais, pois todos os seus personagens se deslocam como bolas em uma mesa de bilhar, escapando-se e batendo-se com violência, gerando novos confrontos.
Graças a este romance, Faulkner é considerado um dos criadores da técnica literária chamada de “fluxo de consciência”, sendo colocado ao lado de Dorothy Richardson. Por intermédio desta técnica, o autor ingressa nos pensamentos do narrador, deixando a consciência – e o seu caráter errático – assumirem as rédeas narrativas, permitindo-se digressões, irrelevâncias, distrações, becos que não levam a lugar algum e, no meio disto tudo, a maneira mais honesta de contar a história, trazendo o leitor para dentro daquilo que pensa o narrador. Ao contrário do monólogo interior, que possui uma forma mais organizada em frases e até mesmo parágrafos, o fluxo de consciência, por ser algo que tenta reprisar o pensamento humano em tempo real, quase não possui pontuação (vírgula, pontos, dois pontos, travessões). Ao expressar as vontades, desejos e visões de um personagem, o fluxo de consciência demanda uma leitura atenta e dificultosa, pois não se sabe se ele está vendo, sentindo ou imaginando aquilo que transmite para o leitor, em uma constante confusão entre a fronteira da realidade com a da fantasia.
Um escritor inábil com a palavra transformaria o fluxo de consciência em uma experiência torturante para o leitor mais cartesiano, acostumado a histórias com princípio, meio e fim, com frases que seguem uma ordem lógica dentro do espaço da narrativa e do seu tempo. No entanto, para dar conta daquilo que pretendia transmitir, Faulkner usa o fluxo de consciência para mostrar quatro visões de mundo sobre as mesmas situações, e cada uma delas revela um prisma diferente, em um movimento análogo ao de uma sinfonia, em que diferentes instrumentos musicais, com diferentes andamentos, conseguem não só se tornar audíveis como criarem pedaços de uma obra nova e poderosa. Individualmente considerados, os quatro capítulos mostram histórias quase comuns. No entanto, quando sobrepostos, eles se entrelaçam na memória do leitor, criando um livro que se faz não dentro das suas páginas, mas por meio da leitura. O esfacelamento moral da família revela-se com mais dor e intensidade através do fluxo de consciência, pois o leitor assiste, na primeira fila, as mentiras e podridões que se inserem no meio dos sentimentos familiares e os destroem de forma implacável. Ler “o som e a fúria” é mergulhar em um abismo do mais negro piche, onde os pontos de luz são estrelas falsas e a angústia aumenta a cada segundo. Não é um livro fácil, mas, quando se entende a sua linguagem, ele se torna incomparável.
Com o intuito de demonstrar a deterioração econômica e psicológica de uma família do Sul dos Estados Unidos, Faulkner erigiu uma tragédia de contornos épicos, utilizando uma estrutura entrecortada, repleta de desníveis de linguagem, contada por narradores inconfiáveis e com deslocamentos no tempo e no espaço. Quatro personagens principais destacam-se, todos membros da família Compson: Benjy, Caddy, Quentin e Jason.
Subvertendo os conceitos do leitor, o primeiro capítulo é narrado por Benjy, personagem que possui certo grau de autismo, o qual pontua a sua narrativa por um total desconhecimento do tempo e do espaço em que está inserido. É um início espinhoso, de percurso árduo para o leitor acostumado à verossimilhança gerada por um narrador, mas se revela proveitoso quando o leitor descobre que precisa deixar o racionalismo e partir para uma leitura sensorial, em uma experiência quase primitiva. São setenta páginas em que o leitor é convidado a abandonar a racionalidade e a mergulhar em um mundo sem regras. Algumas informações são apresentadas, mas de forma tão distorcida que quase não fazem sentido: Benjy tinha outro nome antes (Maury) e ele foi castrado por conta d eum mal entendido sexual. Ao mesmo tempo, Benjy recorda um dia em específico do passado e uma cena envolvendo Caddy, a personagem principal de “o som e a fúria” e a única que não será escutada, que, ao subir numa árvore, revela as suas roupas de baixo sujas de lama. Esta cena é desconstruída para o leitor e, ainda que não aparente ter sentido, ela é um dos centros em torno do qual a família Compson – da qual Benjy faz parte – irá se auto-destruir em raiva, dor e medo.
O segundo capítulo é narrado por Quentin e, apesar de ser dotado de mais clareza, revela-se igualmente árduo à medida que o personagem oscila entre a fantasia e a realidade, em um jogo que confunde e que atrai o leitor. Destinando para a irmã Caddy um amor incestuoso, ele precipita a tragédia da família, cometendo suicídio após o casamento da irmã com outro homem. A filha bastarda de Caddy recebe o nome de Quentin em sua homenagem, deixando entrever quem seria o verdadeiro pai, em uma suposição feita pelos personagens que serve como ponto de tensão quase insuportável para a trama. À exemplo do que acontece com Capitu e Bentinho em “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, não se tem certeza absoluta da traição de Caddy e se a filha dela realmente seria de Quentin ou se foi uma homenagem feita pela irmã saudosa. O personagem de Caddy transmite uma enorme ambiguidade de sentimentos e de atitudes, o que, combinado com a sua promiscuidade, gera uma série de divergências e de conflitos por conta da ausência de diálogo.
O terceiro capítulo apresenta um personagem amargo e cruel, Jason Compson, irmão também apaixonado por Caddy e furioso pelo suicídio de Quentin – em quem a família depositava suas esperanças financeiras de um futuro melhor -, passando a transferir todo esta gama de sentimentos danosos para Quentin, a filha de Caddy. A narrativa ganha aspereza, e a decadência da família se acentua; de tão ocupado com o ódio que queima a sua essência, Jason deixa a economia da família se deteriorar, imerso em uma vingança que nunca termina. É um dos capítulos mais intensos que já foi escrito: é possível sentir o ódio e a raiva muda de Jason espalhando-se como sombras por dentro do livro, no intuito de se vingar a qualquer custo, mesmo que perca a sanidade ou a própria vida. Por conta de suas maldades, seria cômodo considerar Jason um vilão, mas Faulkner nega esta possibilidade, considerando-o mais como o fruto de um sistema social combalido e o reflexo de uma moral desgastada. A construção realista deste capítulo e o foco narrativo concentrado na secura de sentimentos de Jason faz com que as suas maldades se tornem, não só naturais, mas também inevitáveis. O homem que acaricia pode ser o mesmo que soqueia, e até mesmo nos gestos de carinho existe um resíduo de violência inata à natureza humana, não tão distante dos animais como gosta de pensar.
O derradeiro capítulo é narrado por Dilsey, a escrava negra cuja retidão de valores estabelece um grande contraste com a deterioração moral da família para a qual entrega sua devoção irrestrita. É o único capítulo que não é narrado em primeira pessoa, o que demonstra que o seu narrador não faz parte do círculo de destruição que cerca a família Compson. A personagem se entristece pelo destino da família para quem trabalhava, vendo as consequências dos atos deles e pedindo piedade. É o capítulo mais centrado da trama, pois Dilsey acompanhou o declínio psicológico, financeiro e humano dos seus antigos patrões, tão preocupados em se destruírem que acabaram se esquecendo de viver.
Cada um dos quatro capítulos se passa em um determinado dia. É neste intervalo de tempo reduzido que um fato ocorre, e o mergulho nele faz com que os pensamentos do narrador escolhido como foco narrativo se descontrolem, alternando passado e presente. O fato vira uma caixa de Pandora, abrindo sucessivos horrores, culpas e recordações repletas de amargura. Faulkner mexe com as estruturas rígidas do Tempo, revelando que todos os tempos moram no presente. Ninguém é capaz de se esconder das escolhas que fez, que constantemente cobram o seu preço. As sombras do passado se refletem em cada passo atual e, por sermos incapazes de mudar aquilo que fizemos, precisamos aprender a viver com os erros que cometemos, ainda que eles continuem nos vergastando com as consequências dos erros que cometemos. É uma visão pessimista – não é à toa que muitos viram um caráter existencialista em “O som e a fúria”. Se não podemos mudar o passado e se ele afeta o presente, deturpando nossas escolhas, cada escolha do presente vai destruir o nosso futuro, inobstante a opção que se escolha. No caso da família Compson, bastou um único fato para definir todo o futuro e condená-los à danação em vida.
Os diferentes narradores compõem o mosaico da destruição psicológica de um grupo de seres humanos, desvelando a mesquinhez das suas condições. Da mesma forma que um rochedo esboroa acaso atingido por incessantes ondas, Faulkner destaca a fraqueza dos homens diante das rodas do Destino, assim como revela a beleza da condição humana, uma beleza cortante e singular, dotada da capacidade de criar os mais nobres sentimentos e, ao mesmo tempo, destruí-los com toda a sua força, com toda a sua fúria.

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3 Comentários

Arquivado em Artigo, Literatura, Produção Literária, William Faulkner

3 Respostas para “Apontamentos sobre “O som e a fúria”, de Faulkner

  1. É literatura, gosto de fuçar.
    Beleza!

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