Cecília Meireles e como virar uma eternidade

Existe algo de imenso em uma pessoa que consegue manter a calma no meio de um oceano bravio de acontecimentos. A pessoa que controla o seu centro e não deixa o mundo lhe destroçar com dentes raivosos que gotejam fúria. A pessoa que sobrevive aos ataques incessantes do dia a dia e consegue ver a inutilidade tanto de ser atacado quanto de se defender.

Alguém que consegue ser um rochedo que as ondas tentam despedaçar.

Com o passar dos anos, acostumei-me a ser uma pessoa sob frequente ataque. E não estou falando somente por causa dos meus textos neste blog ou outros textos críticos que realizei, os quais são xingados com relativa frequência: os ataques são em todas as áreas possíveis, inclusive as mais íntimas. Vivo em um mundo de constantes atritos e mal entendidos, deslizando por sombras de palavras ditas ou não-ditas e por medos alheios. Toda hora sou alvo de suspeitas e de maledicências (e de distorções, muitas pessoas distorcem o que faço) e, se falo aqui sobre este assunto, é por que estou realizando uma forte reflexão sobre aqueles que me rodeiam e vou amputar relações gangrenadas – cortar o mal pela raiz.

Não é algo ruim, é algo necessário. Para rever expectativas e perspectivas na vida, precisamos passar por constantes renovações. Reinventar a roda de vez em quando. Todos os dias, a vida acorda e tenta nos levar ao desespero, usando da vertigem e de um cotidiano feérico, impedindo-nos de refletir com calma sobre os fatos que nos rodeiam. Neste momento, lembro de uma opinião de Freud sobre Dostoiévski que tem assombrado minhas últimas semanas. Para Freud, Dostoiévski era um escritor imoral, pois a pessoa verdadeiramente moral é aquela que vê a tentação na sua frente e tem a força de espírito suficiente para evitá-la. No entanto, no caso de Dostoiévski, os personagens dele cediam à tentação e só depois buscavam a expiação da culpa e do remorso. Ceder à tentação é imoral. Na analogia de Freud, era como Ivan, o Terrível matando pessoas de forma indiscriminada e, depois, indo rezar para pedir desculpas. O verdadeiro teste da moralidade acontece antes de ceder à tentação.

Se eu não for capaz de refletir sobre a vida que me cerca, como saberei se não estou cedendo à tentação e me tornando uma pessoa imoral? Como saberei se não estou agindo errado ou sendo injusto? Momentos de revisão de relação sociais são muito importantes, justamente para higienizar a vida e evitar a repetição de erros antigos.

"Rochedo na beira do mar", Caspar David Friedrich

“Rochedo na beira do mar”, Caspar David Friedrich

No entanto, tenho um segredo. É um mantra, para ser exato. Não acredito em auto ajuda, mas confio nessa força de catarata da literatura. Quando sinto-me perdido no meio de mares nunca dantes navegados, ou quando, no meio da vida a jornada, encontro-me no meio de selva tenebrosa sem achar o caminho correto, vou para a poesia. Não tenho boa memória para versos; prefiro senti-los. Quando eles surgem, vêm misturados entre si, mas a sensação é sempre única. Às vezes, sinto-me formado por frases aleatórias de grandes autores e fragmentos de poesias que, certo dia, invadiram a minha memória, e não sei mais se sou uma pessoa de carne e pele e ossos e vontade, ou se não passo de um aglomerado de livros semoventes.

Nos momentos de confusão, quando não sei mais quem sou e o que devo fazer, eu preciso reencontrar o meu centro, e ele está dentro de uma poesia da Cecília Meireles:

 

Cântico II
Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens…
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.

 

Não sei explicar o que me encanta nesta poesia. Talvez seja a ideia de que todo homem é uma criatura formada por Tempo e por Espaço, e Cecília destroi esta certeza quando diz que estamos vivendo todos os tempos em simultâneo. Pode ser o contraste de uma existência única que se repete em várias vidas e mortes. Gosto muito de imaginar-me sem limites, de perder as amarras que me prendem em qualquer situação. Ou, ainda, pode ser a ideia de que não precisamos marcar a nossa passagem, e sim a passagem é que precisa deixar marcas.

No entanto, o que mais gosto é saber que tu – e, por consequência, eu – somos duas eternidades caminhando lado a lado, e isso ninguém pode tirar de qualquer pessoa: a capacidade de reencontrar o próprio caminho no meio da jornada.

2 Comentários

Arquivado em Calma, Caspar David Friedrich, Cecília Meireles, Freud, Literatura, Pintura

2 Respostas para “Cecília Meireles e como virar uma eternidade

  1. Excelente reflexão! Cecília sempre me encanta! É incrível como ela conseguia chegar com as palavras certas no ponto mais profundo e exato, de forma genial e atemporal, nos imergindo num universo sensível e delicado, mas dando-nos um conforto acerca das questões que nos afligem na vida.
    Abs.

    • Oi, Fernanda! Cecília é uma poetisa impressionante. Existe uma grande arte em usar palavras simples para construir uma poesia com tamanho poder, uma poesia que silencia a nossa alma conturbada. Gosto muito dos poemas dela, eles geralmente são um porto seguro nas atribulações do meu dia. Obrigado pela tua leitura! Um abraço.🙂

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