Ortega y Gasset e a vida como um magnífico repertório de possibilidades

Recebo uma foto do meu afilhado, do alto dos seus quatro meses de existência, e o seu olhar azul me dilacera.

Está tudo ali: curiosidade, encanto, ironia, tranquilidade, amor. Ele não conhece ainda os nomes dos sentimentos, mas já sabe senti-los. Na forma com que encara a câmera – e o mundo que lhe cerca – existe uma grande verdade: Arthur é um pequeno ser dotado de um amplo leque de possibilidades. Ele tem o infinito diante de si; não tem prisões, não tem amarras, não tem medos. Pode ser aquilo que quiser. No momento em que ainda conhece e se ambienta com a realidade, ele é uma tábua em branco esperando para escrever o seu próprio destino.

Existe algo mágico em ser uma criatura cheia de possibilidades. Acordar todo o dia e pensar que podemos mudar de rumo a qualquer momento, sem maiores dúvidas ou dores. Talvez consigamos distinguir isto com mais clareza nas crianças: a ideia estarrecedora de que elas podem ser o que quiserem, princesas ou vilãs, herois ou mentecaptos, vítimas ou agressores.

Pergunto-me se somente crianças tem esta capacidade de reinventarem seu destino a cada manhã. A sensação de que perdi o momento novamente é avassaladora, assim como a ideia de que as responsabilidades enrolaram seus tentáculos ao meu redor e me prenderam em um círculo vicioso, regrando a minha vida com normas desconhecidas diante das quais me submeto.

No entanto, lembro de Ortega y Gasset e me sinto melhor. Foi ele quem disse, em “A Rebelião das Massas”, que “a nossa vida, como um repertório de possibilidades, é magnífica, exuberante e superior a todas as outras vidas historicamente conhecidas. (…). É mais vida que todas as vidas, e por isso mesmo mais problemática. Não pode orientar-se no pretérito. Tem de inventar o seu próprio destino.”

Pessoas que se orientam pelo passado são incapazes de mudar o destino. Temos a ilusão de que a nossa vida deixou de ter possibilidades para adquirir certezas e prisões, mas nos iludimos: sempre existe a possibilidade de mudar. No jardim dos caminhos que se bifurcam, não podemos ser como o cavalo, que olha só a estrada na sua frente, e sim como o lince, dotado de visão periférica e análise rápida de situações.

Gosto muito da ideia de nossa vida ser maior do que todas as vidas. Quando olho a riqueza do meu dia a dia e os encantamentos que insistem em se suceder, percebo que minha vida é maior do que eu mesmo. Não é possível que tantos eventos e pensamentos caibam dentro da minha consciência, mas – e isto é incrível – cabem, ainda que transbordem para as vidas alheias. Ser uma criatura cheia de possibilidades implica em dizer que sempre podemos começar de novo, e talvez esta seja a parte mais repugnante da morte: não é somente um indivíduo que morre, mas sim todo o universo de possibilidades que ele continha. Já diz o Talmude que, quem salva uma vida, salva o mundo todo, e o mesmo pode ser dito da morte: quando alguém morre, todo um mundo morre com ele.

homens amarrados

Prossegue Ortega y Gasset: “Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. A circunstância – as possibilidades – é o que da nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não elege o seu mundo, mas viver é encontrar-se, imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. O nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra a nossa vida.”

No olhar límpido do meu afilhado, encontra-se a verdade incômoda que preferimos esquecer: somos os únicos senhores do nosso destino. Ninguém tem poder absoluto sobre a nossa vida. Podemos imaginar que o passado nos prende, ou então alguma sensação de lealdade, ou ainda filhos, empregos, dívidas, responsabilidades, mas só existe um motivo pelo qual não mudamos: a covardia. Mudar é algo que tem consequências, dores, angústias. Acreditamos viver em um local de fatalidade, onde cada decisão encaixa na outra como a peça de um dominó, mas estamos errados: o mundo é um local cheio de possibilidades para quem não possui receio de redesenhar os seus passos. Ou, como disse Nietzsche, “somos todos vulcões esperando a hora da erupção”.

O próprio Ortega y Gasset reconhece o paradoxo de seremos pessoas livres, mas obrigadas a decidir a todo momento, quando diz “surpreendente condição a da nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem um só instante se deixa descansar a nossa atividade de decisão. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, e decidimos não decidir”.

Diante do olhar fixo e repleto de possibilidades de uma criança, não acredito que nenhuma discussão seja capaz de se sustentar. Em um mundo repleto de ferozes debates políticos, econômicos, acadêmicos, sociológicos e de todos os tipos, estamos esquecendo da maior de todas as belezas: que temos todas as possibilidades do mundo dentro de nossos corpos, inclusive a de mudar a qualquer momento. Que a vida é um amontoado incessante de maravilhas. Que podemos ter sempre o mesmo olhar de encanto sobre as coisas, não interessa quantas vezes elas ocorram, não interessa o quanto a rotina seja esmagadora e precisa. Só existe um fator que define cada pessoa, e é novamente Ortega y Gasset quem resolve a charada ao escrever “É, pois, falso dizer que na vida ‘decidem as circunstâncias’. Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide mesmo é o nosso caráter.”

Diante das circunstâncias que a vida nos apresenta, o importante é manter o caráter intacto, pois ele é o único elemento que permanecerá – e o único através do qual decidiremos. Em frente ao olhar inocente do meu (ainda) silencioso afilhado, anseio para que ele tenha a nobreza de pegar as possibilidades que eu somente antevejo e transformar em força motriz da sua vida. Anseio para que ele não se entregue e saiba que vai cair muitas vezes, mas nunca pode perder a maravilha e a surpresa que é acordar todo dia em um mundo novo. Espero que ele não seja uma pessoa que se perde em longas discussões tentando mudar os outros, e faça o mais difícil: mude a si mesmo, sem perder a serenidade. Quem muda a si mesmo, muda todo o mundo.

Lembro novamente Nietzsche, quando diz que “grande, no homem, é ele ser uma ponte e não um objetivo: o que pode ser amado, no homem, é ser ele uma passagem e um declínio.” O fator que define a grandeza do homem é ele ter todas as possibilidades dentro de si – é a sua maior decepção é imaginar que a vida já acabou e as possibilidades se perderam. Somos todos passagens e, por não termos verdades categóricas, estamos no meio do mundo das possibilidades. Quem diz isto não sou eu: é a tranquilidade do olhar do meu afilhado, com a sua certeza irônica de que a vida é um brinquedo do qual eu ainda não entendi as regras.

4 Comentários

Arquivado em Filosofia, Generalidades, Ortega y Gasset, Vida

4 Respostas para “Ortega y Gasset e a vida como um magnífico repertório de possibilidades

  1. que texto lindo, Gustavo, congratulations!!!!

    • Obrigado pela leitura, Laura!🙂

    • Vivian Balthazar

      Já te disse isso, … virei tua fã, belíssimo texto!!! Me identifiquei com o texto, minha afilhada têm 15 anos e hoje me entristeço ao ver ela se encantar com lugares e objetivos comuns da vida, eu que sempre defendi e apresentei para ela (como no teu texto), que ela pode ser o que ela quiser, … o mar de oportunidades que a vida oferta e que muitas vezes não enxergamos, …
      Sei que faz parte da etapa dela, é difícil para mim, … mas tenho que respeitar, acima de tudo por amor.

  2. Elizabeth

    Gustavo, cada dia, mais e mais me encanto por tuas palavras! Es um magico, entremeando realidade com figuras fascinantes da Literatura! Tenho certeza de que o Arthur vai saber usufruir de todas as possibilidades que a vida vai oferecer a ele. Sou tua fa~.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s