Texto novo no Literatortura (07/03/2015): “O Dia Internacional do Homem (versão 2015)”

Saiu um texto meu no site do Literatortura (www.literatortura.com).

 

Na quarta feira desta semana, de repente, do nada, descobri-me misógino.

Um amigo perguntou-me se um texto que andava pelo Facebook, “O Dia Internacional do Homem”, me pertencia. Ao ler o texto, descobri que, sim, fui eu quem o escrevi, em 1999, numa disciplina da Faculdade de Letras. Exatamente, isto aconteceu 16 anos atrás. O meu original está desaparecido, só tenho a versão escaneada, e tenho uma boa ideia de quem fez isto tentando me constranger.

No entanto, não apontarei o dedo. Não irei ficar me lamuriando. Sinto como se tivessem tirado uma foto vergonhosa minha e espalhado pela internet, mas não adianta reclamar. O melhor a fazer é acabar com o meu texto do passado; enfrentar o Gustavo de 22 anos dentro do território dele, nas quatro linhas do papel. Desconstruir o meu próprio argumento.

O resultado foi o texto que publiquei no Literatportura. Uma reflexão sobre textos que não morrem, sobre a Literatura escolher a maldade ao invés da coisa certa, sobre resiliência e, mais do que tudo, sobre a capacidade de mudar uma ideia. De ser capaz de evoluir. E também é um forma de homenagear as mulheres _ vocês em especial também, leitoras deste blog – com um poema da Florbela Espanca que acho muito bonito e pungente.

Aqui está o link do texto: http://literatortura.com/?p=23017

O conteúdo integral foi este:

O Dia Internacional do Homem (versão 2015)

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Na semana passada, descobri que um escrito meu retornara à vida. A capacidade de resiliência dos textos não cansa de me espantar. Eles se recusam a morrer. Basta surgirem no mundo para encontrar caminhos escusos para sobreviver, alguns no underground literário, outros na forma de memória, e ainda aqueles que se escondem no fundo das gavetas. Textos nunca desistem e, se forem bons, eles encontrarão o seu lugar ao sol.

Não é o caso do texto meu que voltou ao mundo dos leitores. O momento do seu ressurgimento é péssimo: no meio de uma série de discussões sobre o papel da mulher e sobre a violência psicológica e física as quais elas são submetidas, aparece algo em que faço troça destas discussões. Aos que desejavam me constranger, não nego a autoria; nunca neguei meus textos, e não pretendo começar agora. Aos que pensavam ser capazes de me agredir com meu próprio trabalho, lamento, mas erraram o alvo. No máximo, me causou um bocejo. O título do texto é “O Dia Internacional do Homem” e, se alguém teve a infelicidade de lê-lo por aí, como aconteceu comigo, saiba que foi resultado de uma aula da disciplina de Escrita Criativa a qual assisti, em 1999, na Faculdade de Letras da UFRGS.

Não adianta dizer que o texto é lido fora do seu contexto de produção; eu era um aluno irônico (creio que ainda sou) e, quando escrevi tais linhas, estava ironizando não só as mulheres, mas a própria estrutura da aula. Existe toda uma linguagem cifrada por trás do texto questionando os métodos de ensino, mas não perderei tempo explicando as minhas reais intenções. O texto existe, e assim ele é lido, como se eu tivesse escrito ontem.

Também não vou reclamar da injustiça: dos mais de 20 textos que produzi na disciplina, repercute justamente o meu momento mais desprezível. É uma pena que a Dona Literatura, esta senhora caprichosa que caminha por entre bibliotecas sussurrando nomes perdidos, escolheu tal texto para sobreviver, ao invés daquele em que descrevi meu irmão com tamanha energia que metade das minhas colegas de aula queriam conhecê-lo (quem não gostaria de conhecer um ciborgue ruivo que foi abduzido por alienígenas em Tramandaí?), ou o texto em que provei a comunicação dos lagos mundiais, contando como o monstro do Lago Ness podia aparecer no lago próximo ao Campus do Vale da UFRGS, ou o texto em que expliquei como os alunos diplomados da UFRGS viravam os cachorros que assombravam o Restaurante Universitário. Nenhum destes permaneceu, mas o texto em que faço troça das mulheres voltou ao mundo, atestando uma das grandes questões do nosso tempo: para falar mal de alguém, sempre existe espaço. Agora, quando se faz algo interessante e inovador, o mundo não dá muita atenção.

Ao invés de lamentar, pretendo refletir sobre as ideias do Gustavo de 16 anos atrás. Para matar um texto, somente outro; para deter uma força, somente outra equivalente em estado antagônico. Não vou cometer o erro de elencar os argumentos irônicos de então e confrontá-los com a minha opinião atual, pois estaria reafirmando o passado, e essa não é a minha intenção.

Causa certo desapontamento ver o quão pouco a visão da sociedade em relação à mulher mudou nestes últimos dezesseis anos. As mesmas ironias e piadas que então realizei continuam sendo feitas como se fossem originais, mas são acachapantes clichês. O jogo literário estabelecido, em que ironizei o aumento do poder das mulheres e levei às raias do exagero, revela-se uma agressão às avessas: buscando a risada fácil, tornei-me virulento, e isso não é nada diferente dos ditos comediantes atuais, que confundem ironia com violência. Sim, como diz o título, transformei o homem em vítima de um complô feminino. De forma intencional, inverti o ponto de vista e passei a considerar a mulher como opressora, passando por cima de todos os elementos em contrário, imerso na cegueira dos que desejam provar a sua ideia a qualquer custo. É desagradável ver como um rapaz de 22 anos consegue distorcer argumentos para criar algo aparentemente sólido. Somente o humor garantiu a permanência da obra; as risadas são constrangidas, mas reverberam das paredes do texto. O Gustavo de 16 anos atrás ainda morde, mas não é mais o mesmo.

Não mudamos tanto assim. Se um texto discriminatório de 16 anos de idade, escrito numa disciplina da faculdade, consegue encontrar leitores dispostos a espalhá-lo, ainda que ao arrepio do próprio autor, é de se perguntar o que existe de errado na nossa sociedade, que reedita argumentos de forma cíclica sem desejar uma mudança de paradigmas. Isso só demonstra uma coisa: homens não deveriam falar ou escrever sobre questões femininas. Simplesmente não temos como entender. Qualquer julgamento masculino, seja favorável ou desfavorável, está errado de antemão, pois o risco de minimizar algo é gigantesco. A única atitude que podemos tomar é permitir a livre expressão – e modificar as nossas atitudes. Tentar se colocar no lugar do outro. Parar de insistir em argumentos defasados que sobrevivem desde nossos antepassados e dar espaço para novas discussões. Ainda assim, é importante manter esperanças: se o Gustavo de 2015 conseguiu ver os erros do posicionamento do Gustavo de 1999, é possível mudar, sim. Mas será algo lento, com avanços e recuos, uma pessoa de cada vez.

Quis a coincidência que meu texto discriminatório de 16 anos atrás tenha ressuscitado de forma maliciosa há quinze dias, e outra coincidência diga que este texto em resposta a mim mesmo virá ao mundo na véspera do Dia Internacional da Mulher. Percebo que muitas mulheres são insatisfeitas com o estabelecimento de um dia em sua homenagem, e não insultarei ninguém falando palavras genéricas ou bonitas. Melhor do que falar é agir. As mulheres do meu círculo mais íntimo serão cumprimentadas, não pelo dia em si, mas por receberem sempre a minha admiração irrestrita. Enquanto isto, para cumprimentar as minhas leitoras e – em especial – as colegas do site Literatortura, que sempre foram tão agradáveis e gentis comigo mesmo quando eu sou, bom, eu mesmo, deixo uma poesia da Florbela Espanca que retrata as mulheres muito melhor do que qualquer outra pessoa conseguiria:

 

A mulher

I

Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimento cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!

Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta: sê em Vênus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão-de pisar-te!

Se à vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então vis: “Olhem, vejam
É aquela a infame!” e apedrejam
a pobrezita, a triste, a desgraçada!

II

Ó Mulher! Como é fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosas duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

 

Agora, por favor, deixem o Gustavo de 1999 no local em que ele estava: no passado. Somente eu tenho autorização para lidar com ele.

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