Artemísia Gentileschi ou a arte como instrumento de vingança

Nos últimos tempos, não foram poucas as pessoas que me mandaram a mesma imagem de uma camiseta ou de um cartaz, com os seguintes dizeres: “Tome cuidado ao namorar um(a) escritor(a). Se ele(a) não gostar de algo que você fez, irá puni-lo(a) na sua obra”. Existem muitas variações, mas a intenção geral da frase é esta mesmo – uma ameaça velada, apesar de possuir um certo humor.

Não acho bobagem tal receio. Existem muitos casos de escritores que desconsideraram a elegância e usaram a sua obra como um grande instrumento de vingança contra pessoas ou situações injustas. Não há agressão mais violenta ou carícia mais insidiosa do que a feita através de palavras. A literatura anda muito perto do ser humano que a produz, e é natural que a vida acabe se misturando com trechos da ficção e que exista um trânsito de pessoas para dentro da arte. Assim, a tentação de se vingar ou de encontrar alguma forma de justiça através da escrita é grande, e não condeno os escritores que seguiram por este caminho.

No entanto, para decepção (ou alívio) geral, não tenho por hábito fazer isto. Para ser bem sincero, acho enfadonho e simples demais. Quando escrevo, utilizo pessoas ou situações reais, mas faço uma fusão e uma distorção tão grande que somente eu sou capaz de ver a nascente do meu rio Nilo criativo, o ponto de onde se originou a história. Não se preocupem, vocês não estão sendo filmados ou vigiados comigo, e não tenho esta pretensão de me vingar por meio do que escrevo. Deixo a literatura para o que realmente importa, seja espelhos fragmentados, seja porcos que dilatam.

Apesar de tudo, dificilmente vai existir no mundo uma artista que usou melhor a arte para se vingar do que Artemísia Gentileschi (1593-1656). Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, é oportuno lembrar de uma mulher incrível que, apesar de uma série de dissabores e agressões, perpetrou a maior de todas as vinganças: transformar a sua ignomínia em algo eterno, para que ninguém nunca mais esqueça.

Artemísia Gentileschi possuía um talento natural para a pintura, e seu pai começou a lhe dar aulas. Não era costume que mulheres recebessem educação artística nesta época, mas o pai de Artemísia teve que ceder ao seu talento, que se destacava entre os demais filhos, apesar dela ser sistematicamente humilhada e sofrer coação psicológica.

Quando tinha 17 anos, Artemísia foi violentada pelo assistente do atelier, Agostino Tassi. Ocorreu ainda a participação nunca esclarecida de outro assistente do atelier, Cosimo Quorlis. Nesta época, Artemísia pintou o seu primeiro quadro famoso, “Susana e os anciões”, em que se vê uma mulher jovem sendo acossada por dois velhos sátiros:

Susanna_e_os_Anciões

Nesta pintura, é possível observar algumas das características marcantes da obra futura de Artemísia Gentileschi: as mulheres como ponto central do conflito transmitido no quadro, a sua vida representada como uma visão histórica ou bíblica de algum fato, a própria pintora colocando o seu semblante nas feições femininas.

Na época em que foi violentada, uma mulher precisava casar virgem como atestado de pureza. Iludida por Agostino Tassi, que prometeu casar-se com ela para, assim, “recuperar a sua honra”, Artemísia estabeleceu um relacionamento com ele durante nove meses.

Ao perceber que o homem estava mentindo, Artemísia tomou uma atitude inesperada: com o apoio do pai, resolveu processar o seu agressor. Se hoje a justiça já possui um viés masculino, só é possível imaginar o quão preconceituosa deveria ser na época. O processo levou oito meses. A honra da pintora foi enxovalhada perante toda a cidade, que passou a conhecê-la como uma mulher impura. Ela teve que se submeter a um exame ginecológico para provar que não era mais virgem e, não bastando, teve que concordar com ser torturada para ver se estava falando a verdade. Mesmo assim, Artemísia nunca esmoreceu. Ao final, Agostino Tassi foi condenado, não pelo estupro, e sim por estar conspirando para matar o pai de Artemísia e roubar seus quadros. Recebeu a pena de um ano de prisão, que não cumpriu sequer um dia.

Desonrada e humilhada, a pintora saiu da cidade e seu pai arrumou-lhe um casamento com um pintor modesto. Em Florença, o talento de Artemísia Gentileschi foi reconhecido pela corte, permitindo-lhe pintar com mais liberdade. É nesta época que, aos 19 anos, pintou “Judith e Holofernes”, colocando-se novamente no quadro em que arranca a cabeça de um homem violento:

 

artemisia-gentileschi-judith-et-holopherne-16121

Em seguida, pintou a continuação do quadro, em que Judith e a serva carregam a cabeça de Holofernes:

 

artemisia-gentileschi-judith-et-la-servante-avec-la-tc3aate-dholopherne-1617-18

Foi nesta época que Artemísia Gentileschi, ao contrário da imensa maioria de pintores que faziam naturezas mortas ou cenas bíblicas, começou a pintar nus femininos, geralmente enfocando a si mesma. Também estabeleceu uma longa troca de cartas com Galileu Galilei, que a admirava, e, entre estas cartas, encontra-se uma bela declaração de liberdade: “Enquanto viver, eu vou ter controle sobre a minha existência” (“As long as I live, I will have control over my being”). Abaixo, no quadro “Danaë”, a pintora expõe o próprio corpo nu sem medo, em uma atitude aberta para os olhares dos espectadores:

 

artemisia-gentileschi-danac3a9-1612

Por causa do seu passado trágico, Artemísia questionava o sistema de opressão que se estabelecia sobre as mulheres, transferindo esta inconformidade para a arte. Mesmo possuindo um bom padrão de vida em Florença, mesmo sendo respeitada pela corte, mesmo sendo uma mulher sedutora e com muitos amantes e mecenas, quando lhe solicitaram um quadro da Virgem Maria com o Menino Jesus, ela não se submeteu ao bom senso da sociedade de então e fez uma obra de extrema rebeldia, “A Virgem amamentando o menino”:

 

artemisia-gentileschi-vierge-allaitant-1616-18

Uma das grandes virtudes do artista é a capacidade de se revoltar contra o status quo, e é necessário ter coragem para tomar tal atitude. Colocar a Virgem Maria em um contexto de amamentação foi algo que chocou a sociedade da época (o que demonstra que certas discussões de 500 anos atrás continuam repercutindo na sociedade atual), e Artemísia deixou Florença, indo para Roma e, a seguir, para Nápoles, onde passou seus últimos anos de vida. Ninguém sabe ao certo como ela morreu, mas o que se sabe era que a pintora foi uma negociante hábil das suas obras, uma mulher de negócios e que, ao mesmo tempo, ensinou as suas filhas a pintarem.

Ainda assim, nunca esqueceu a agressão de que fora vítima e nunca perdeu a oportunidade de lembrar da sua mágoa e da ofensa que lhe tinham cometido, como demonstra um de seus últimos quadros conhecidos, “Corisca e o sátiro”:

 

artemisia-gentileschi-la-nymphe-corisca-et-le-satyre-1635-40

Em uma de suas últimas cartas para um mecenas, Artemísia Gentileschi escreveu: “Você encontrará em mim a alma de um César dentro de um corpo de mulher”. A capacidade de transformar a dor e o sofrimento em arte, longe de ser uma vingança, é uma forma de expiação dos medos e de catarse. Pintando, Artemísia conseguia resignificar o seu mundo. Ao colocar mulheres fortes dentro dos seus quadros, a pintora italiana atingiu a vingança perfeita: passar para a História da Arte como a primeira mulher aceita na Academia de Belas Artes de Florença, ao lado de nomes como Michelangelo e Vasari, tornando-se ainda uma das mais importantes pintoras do período barroco.

A vingança, quando usada só para machucar, é vazia e fútil. Contudo, quando utilizada como combustível criativo, ela possui a capacidade de despertar a reflexão. Pessoas que usam caminhos artísticos para se vingarem ou humilharem outras pessoas não estão fazendo arte, e sim mostrando infantilidade. Nos momentos em que sinto raiva ou fúria se apossarem das minhas palavras, respiro fundo e lembro de Artemísia Gentileschi, uma mulher que teve problemas muito mais sérios do que os meus – e transformou a escória da Humanidade em algo memorável.

Muito melhor do que se vingar é tentar ser uma pessoa melhor.

Deixe um comentário

Arquivado em Artemísia Gentileschi, Impressões, Pintura, Produção Literária, Vingança

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s