A angústia das naturezas mortas

Acredito que, a esta altura do campeonato, é de conhecimento público que gosto muito de ler e que considero a leitura não só como uma forma de criar novos pensamentos quanto de nos libertar de qualquer prisão em que estejamos recolhidos. A leitura liberta do medo, da angústia, da morte. Ela também nos salva da maior prisão de todas, que são os limites da própria vida, mas as implicações de tal ideia seriam tema para uma longa – e, no momento, inoportuna – digressão.
Consequência disto é que as pessoas olham a palavra “livro” escrita em algum lugar e lembram de mim; veem citações de livros dentro de algum filme e recordam deste Cavaleiro da Triste Figura; escutam músicas que fazem referências literárias e, voilá, eu surjo, tal como um djinn preso em uma lâmpada empoeirada. Onde duas ou mais pessoas estiverem e um livro aparecer, meu fantasma estará entre elas. Não é algo ruim: melhor ser lembrado assim do que por alguma outra circunstância funesta.
Na semana passada, três pessoas me enviaram a mesma música que trata de livros. Era uma música que eu conhecia, “Livro Aberto”, do Vitor Ramil, mas nunca tinha me detido na letra. Ao escutá-la, tudo o que veio na minha cabeça foi um quadro não tão conhecido que Kiesling fez em homenagem a Modigliani e um estilo de arte, a “vanitas”.
Em 2012, estive na exposição “Modigliani: Imagens de uma vida”, que trouxe os quadros de Amedeo Modigliani ao Brasil. Os quadros mais famosos na exposição eram certamente as mulheres longilíneas, de pescoços compridos, elegantes tanto trajando roupas quanto despidas. No entanto, as pinturas que mais me chamaram atenção eram as quase desconhecidas e, entre elas, estava um quadro de Moïse Kisling, com quem Modigliani dividiu um atelier durante algum tempo. De acordo com a descrição do quadro, era bem possível que os dois pintores tivessem o pintado em conjunto, tanto que Kisling fez uma homenagem ao amigo, colocando uma escultura de Modigliani entre os demais elementos do atelier. A obra se chamava “Atelier de Kisling com uma escultura de Modigliani” (1918), e encontra-se abaixo.
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O que mais gostei no quadro de Kisling, excluída a intertextualidade brejeira que colocou Modigliani para dentro dele, foi ver uma natureza morta com pincéis e com tintas. Não existiu a intenção de mostrar todas as particularidades do atelier, mas só a confluência momentânea de dois pintores em busca da materialização dos quadros que assombravam a sua imaginação. Observando a mesa retratada, é possível escutar as discussões de ambos por mais espaço, no meio da divisão quase fraterna das cores e dos pincéis que seguiriam rumos diferentes assim que tocassem as telas brancas.

É uma natureza morta – mas feita com vida. Tudo ali está morto, esperando a chegada (agora impossível) dos artistas que lhe dariam vida. As obras foram suspensas. Toda tela vazia é uma espera e, por isto mesmo, ela se reveste de angústia e de ambição. Os pincéis não serão usados. As tintas não se depositarão em um quadro. A arte morreu esperando os pintores.

Eu gosto muito dos conceitos que envolvem o “vanitas”, uma modalidade de arte simbólica muito em vigor entre os séculos XVI e XVII, em que os pintores colocavam uma série de elementos que visavam a recordar a vacuidade da vida, a passagem inexorável do tempo, a inevitabilidade da morte. Uma espécie de natureza morta com elementos simbólicos. Um exemplo é “Vanitas”, de Pieter Claesz:

 

 

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Tanto no quadro de Kiesling quanto no de Claesz existe a superposição de figuras remetendo a uma ausência, a alguém que não está ali. No caso de Kiesling, o atelier se ressente da falta dos pintores, as tintas urdindo vinganças no seu silêncio. Para Claesz, existe a falta de vida, a insuficiência do tempo, o cadáver antecipado que somos.

O que me traz de volta à música de Vitor Ramil, “Livro aberto”. Um cenário é construído pela letra: um quarto sem pessoas, mas com objetos carregados de poesia e de possibilidades. Um livro está aberto sobre a cama, e ele assume múltiplas imagens: uma alegoria (prenunciando o teor da letra), uma saída (todo livro é uma saída deste mundo), uma sangria (tanto os leitores quanto os autores sangram imaginação ao conviver com uma história), uma indecência (o livro está aberto e desprotegido aos olhos de quem quiser desfrutá-lo).

Toda a letra transmite uma espera. O quarto está intacto, aguardando os humanos que irão lhe dar sentido. Ao mesmo tempo,  é uma natureza morta esperando que a vida, como uma lufada de ar fresco, penetre no seu interior e traga um objetivo para tudo. É possível sentir a angústia do cenário, paralisado na sua espera. Também se percebe que alguma cena aconteceu naquele quarto, e que agora ele está esperando a resolução do conflito. O livro aberto sobre a cama sofre uma série de metamorfoses, mas a mais importante delas é só sugerida: alguma coisa interrompeu a leitura e levou embora a vida do quarto.

Talvez a vida seja uma longa espera. Assim como a natureza morta espera a vida, assim como o livro espera o seu leitor, estamos todos como Godot, aguardando algo que sequer sabemos se virá ou se já não passou. Ou talvez sejamos como John Marcher, o protagonista de um dos mais terríveis livros que já li, “A Fera na Selva”, de Henry James: a vida toda esperando por algo que estava diante dos seus olhos, só enxergando depois que perdeu.

Enquanto as pessoas decidem seus dramas, o livro indiferente dança sobre a cama, no meio do quarto à espera.

Livro aberto – Vitor Ramil

Essa cama imensa consumindo a noite
Esse livro aberto como alegoria
O abajur perdido em sua luz
Essa água quieta desejando a sede
O controle girando no ar
A TV remota em sua fantasia
Uma alegria que não vai passar
Se você vier

Esse teto frágil sustentando a lua
Esse livro aberto como uma saída
O tapete e seu plano de vôo
O lençol revolto antecipando o gozo
Essa velha casa de coral
Essa concha muda que o meu sonho habita
A paixão invicta que não vai passar
Se você vier

Esse rádio doido de olhos valvulados
Esse livro aberto como uma sangria
Esse poema novo sem papel
O papel que cabe aos meus sapatos rotos
O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier

Esse quarto agindo à minha revelia
Esse livro aberto como uma indecência
O desejo é um naco de pão
A ilusão exposta em tanto desalinho
Uma tecla insiste em bater
No relógio o tempo é uma saudade tensa
E essa cama imensa que não vai passar
Se você vier

2 Comentários

Arquivado em Amedeo Modigliani, Henry James, Moïse Kisling, Natureza morta, Pieter Claesz, Vitor Ramil

2 Respostas para “A angústia das naturezas mortas

  1. Valmir Oliveira

    Ola gosto das telas de Amedeo Modigliani, mas preciso de maiores informações dessa obra, veja descrição da pintura. Um homem com camisa vermelha e terno marrom, lendo um livro sentado em uma cadeira apoiando o braço na mesa, que esta forrada com toalha verde e com uma porcelana com duas maçãs, atrás dele um quadro com uma mulher pegando mais uma maçã sobre a mesma mesa, ele está nesse site
    http://www.kissmarta.com/gallery/muhelytitkok/a%20konyhaban2/

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