As histórias que caminham entre nós

Um dos maiores engodos que as pessoas acreditam é que literatura se faz com palavras, ou com livros, ou com criatividade. Nada disso importa muito. Para escrever, o essencial é estar atento. As histórias infestam o mundo; caminham impunes por aí, respiram o nosso ar, oferecem-se aos nossos olhos. São a argamassa que sustenta a realidade. Sem elas, o mundo seria um caótico parque de diversões, com pessoas sem sentido se esbarrando.

Escrever é como pescar: com a necessária dose de paciência e fé, a ponta da linha irá encontrar o peixe certo. O bom pescador é aquele que respeita seu oponente invisível, sabe que ele faz parte do seu ciclo de vida e que, um dia, as meadas das vidas que separam homem e peixe acabariam se cruzando em um anzol.

Tenho um grande respeito pelas histórias. Sei que, no momento correto, elas irão se revelar. Sairão dos lugares em que se escondem durante o dia ou das sombras de onde sussurram nas longas noites. É só esperar.

No restaurante em que almoço (assunto inclusive de outra postagem, aqui: http://wp.me/p24M2p-1J ), no passado existia uma galeria de quadros com dedicatórias deixadas em livros. Dedicatórias perdidas no tempo, trazendo sentimentos e boas recordações. O papel nunca esquece do que sentimos.

Ocorreu um incêndio no início de 2014. Boa parte do restaurante foi consumida pelas chamas, inclusive uma vasta prateleira de livros. Contudo, sobreviveram alguns exemplares, que continuam a adornar as paredes (talvez lembrando dos gritos quentes dos que morreram nas chamas, mas eles persistem em silêncio, só os livros sabem aquilo que assombra os seus sonhos). Também restaram alguns poucos quadros com dedicatórias, que debocham da Morte e do Tempo.

Entre eles, está a dedicatória abaixo. Desculpem a pouca nitidez da foto. Mesmo diante da câmera, a dedicatória insiste em se ocultar, esquivando-se de olhares intrusos.

 

Poema Marzana

 

Sei que está difícil ver e, por este motivo, transcrevi os termos da dedicatória, preservando o vocabulário do passado:


 

“Scena de um lar
(Leonel Alencar)

Meia-noite!… E Zezinho ainda fora!…
Como me amava e era pontual,
Quando christão! Porém, Senhor, que vale
Amor de esposa? Elle é atheu agora!…

– Assim falava a esposa de outr’ora
Honrado carvoeiro. E ao maternal
Regaço o filho aperta… Ó Deus, que mal?!…
E só… a dôr transborda; a triste chora!…

A um rude empurrão a porta cede
Entra o marido… E com turvo olhar
A esposa chorosa fixa e mede.

– Quem ousa, pois, aqui me censurar?!…
E a pobre mãe, num tom todo carinho:
– Este, senhor… e mostra-lhe o filhinho!

À Luiza
Com muita meiguice e carinho, offereço esta pálida lembrança

Tua Ercina.
3/8/925.”

 


Dentro do quadro, adornando a parede indiferente, encontra-se presa uma história. Assim como Excalibur dentro da rocha, ela espera o momento de libertar-se e correr pelo mundo.

Aproximem o olhar: vocês não conseguem ver as histórias, revoluteando como serpentes no meio das palavras? Estão inquietas.

Podemos começar pelo poema. Por qual motivo ele foi escolhido para adornar a frente de um livro? Pressupomos que uma dedicatória tem a dupla função de explicar a destinatária para si mesma e fazer com que ela lembre da emissora da mensagem. No entanto, o poema não parece ser muito animador. Uma mãe espera a chegada do marido atrasado. Apresenta uma intrincada alegoria religiosa, contrapondo a pontualidade de um cristão com o atraso de um ateísta. A esposa se culpa pelo atraso, abraça o filho, sente dor e tristeza. Quando o marido entra rudemente no poema, abrindo a porta com violência (ela “cede”), está sendo esperado pelos olhos turvos e chorosos da esposa. Tonitroante, pergunta “quem ousa lhe censurar?” – ele também se sente culpado e inverte a lógica da situação, agredindo a mulher antes de qualquer pergunta. No final do poema, a “pobre mãe” – não entendo o motivo deste “pobre”, pois não foi ela quem se atrasou – fala, plena de carinho, que era o filhinho quem estava a censurar o atraso do pai. O diminutivo de “filho” pretende ser calmante.

Muitas lições saem desta “scena de um lar”. É um poema inegavelmente machista. Em alguns momentos, inclusive, aproxima-se da história de uma quase agressão. A mulher fragilizada e com uma criança no colo faz um grande contraste com a figura soturna do pai de família. Em tudo a mulher é submissa e chorosa; por sua vez, o homem tem razão mesmo quando está errado. A forma com que a mulher oferece o filho para acalmar a raiva implícita nas atitudes do marido lembra o sacrifício de Isaac por Abraão. Dentro de um lar, o importante é manter a unidade da família, por isso era “o filhinho” quem estava censurando o atraso do pai, jamais a mulher.

Não há amor ou redenção neste poema; é uma história de medo. Por qual motivo alguém dedicaria um poema deste tipo para outra pessoa? Sabendo que a destinatária é uma mulher, talvez seja uma forma de subjugar a sua vontade, dizer implicitamente que o marido sempre terá razão e somente o filho poderá servir-lhe de justificativa. Seguindo tal ideia, seria um aviso, uma antecipação do futuro. Pode ser uma ironia muito bem construída, sobre como lidar com os problemas de ter um marido. Pode ainda ser um alerta do que significa a vida de casado, sempre precisando de uma justificativa.

Os detalhes ficam mais interessantes quando, ao pesquisar, não encontro nenhuma referência deste poeta, LEONEL ALENCAR. Pressupondo-se que ele exista, o fato de ter justo este poema lembrado fica ainda mais singular. O poema é mal feito. Existem poucas rimas, dispostas de forma errática. Na época da sua produção (1925), o verso livre não era tão habitual, as pessoas ainda se prendiam às formas clássicas. O uso da pontuação é esdrúxulo, existe um abuso de reticências e de sinais de exclamação, indicando imperícia ao escrever. Falta coerência para a cena narrada, que se desvia para a dicotomia religião / ateísmo. O verdadeiro poeta sabe que escrever poesia não é só colocar palavras e sentimentos soltos na forma de versos. A conclusão é uma só: seja lá quem escreveu este poema, não era um poeta.

O poema está escondendo uma mensagem. A pessoa que o escreveu – e neste momento penso que foi a mesma pessoa quem fez a dedicatória – quis transmitir algo que mais ninguém entendesse, só a destinatária. Criou um poema, criou um escritor obscuro, criou algumas rimas e disfarçou dentro de uma dedicatória, sabendo que a outra mulher leria e entenderia. Uma mensagem oculta transmitida diante dos olhos de toda a sociedade. Truque de mágica usando palavras. E o cerne da lição – infelizmente perdido para sempre, pois somente as duas mulheres sabiam – encontra-se no ponto exato que não faz sentido na cena do poema, a estranha alusão a cristãos e ateístas. Existe aí um código misterioso, algo que nenhuma pessoa é capaz de penetrar. Um código perdido.

Todo poema, de uma forma ou de outra, trata de amor. Ou melhor : toda literatura. O poema de “Leonel Alencar” não apresenta justamente amor, e é na omissão que as verdades aparecem. Pois, na dedicatória final, na derradeira linha, na penúltima palavra, o amor acaba desabrochando na sua plenitude, quando a mulher escreve “TUA Ercina.” Três míseras letras, mas com uma gama gigantesca de significados e possibilidades, pois é o verdadeiro centro da dedicatória. Ercina criou um poema, criou um autor desconhecido, criou uma cena (mal escrita) em um lar, criou uma série de evasivas e segredos, tudo para acariciar Luíza com uma única palavra. Um TUA. Uma promessa. Algo que sempre faria Luíza lembrar e algo que Ercina jamais conseguiria esquecer.

Um sentimento inteiro dentro de uma ÚNICA palavra. Aí está a verdadeira poesia.

As histórias têm poder. Não existe fogo capaz de destruí-las, não existe voz capaz de silenciá-las. Há quase 90 anos, Ercina forjou uma inocente dedicatória e passou a mensagem desejada para Luíza. Não sei se era um amor escondido, uma amizade que pretendia se tornar algo a mais, uma espécie de aviso sobre o homem com quem Luíza ia se casar. Não sei nem ao menos se a história que percebo é verdadeira, mas isto importa? Não sabemos de nada, e aí mora a melhor parte da história – os seus silêncios.

Hoje, a dedicatória adorna a parede de um restaurante, esperando que outras pessoas extraiam uma das histórias que dormitam no seu interior. Esperando que eu a escutasse.

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5 Comentários

Arquivado em Artigo, Dedicatória, Generalidades, Impressões, Produção Literária

5 Respostas para “As histórias que caminham entre nós

  1. Honrado carvoeiro? acho que sim

  2. Manoela

    Gustavo, muito bem observado por você “Não sabemos de nada, e aí mora a melhor parte da história – os seus silêncios.” Adorei a leitura.

  3. Masé Santos

    Gustavo, também fico a imaginar o que estaria por trás de tantas histórias! Gostei da sua conclusão: não sabemos nada! Abraços

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