Flaubert e o desespero como estado natural

Poucos escritores se entregaram de forma tão intensa ao sofrimento de criar quanto Flaubert. Estou relendo “Cartas Exemplares de Gustave Flaubert”, publicado em 1993 pela Imago Editora, e deparo-me com um filme de terror descrito em detalhes quase milimétricos. Flaubert esmiuça a sua rotina. Descreve os hábitos, a busca pela palavra correta, o desenvolvimento agonizante de cada página de “Madame Bovary” e de outras obras.

Identifico-me com o seu constante sentimento de inadequação social. Flaubert sente dores musculares e constante vontade de vomitar. Em um misto de atração e asco, ele se aproxima diariamente da sua mesa de trabalho e sabe que somente a frustração o espera. Posso escutar seus passos pesados, repletos de cansaço. Hoje nós sabemos que ele estava realizando uma obra digna de entrar para o rol dos grandes escritos da Humanidade, mas o autor desconhece o alcance do seu livro na época em que o cria. Flaubert não sabe se está escrevendo bem ou mal. Elogios são tendenciosos. Críticas são violentas. O autor escreve a obra que gostaria de ler, mas está previamente sentenciado a nunca lê-la sem ver as suas incômodas engrenagens. É a sua maior agonia. Ele não sabe o valor do que escreveu – e, mesmo depois de publicado, nunca terá certeza absoluta.

O escritor é como Tântalo: está com água até o pescoço em um rio, mas, se tenta mergulhar, a água escoa e foge da garganta sedenta; ao alcance da sua mão, um galho cheio de frutos se oferece, tentador, mas os frutos deslizam entre os dedos sem conseguirem ser agarrados pelo homem faminto. A obra perfeita está ao alcance, mas insiste em se esconder e, mesmo que fosse agarrada, seus espinhos não dariam nenhum conforto ao autor.

Gustave-Flaubert2

Mas o pior são as dúvidas a respeito de si mesmo. A necessidade de se fechar dentro do próprio corpo e escutar aquilo que roça a alma, o desconforto que dá sentido ao mundo. Flaubert confessa o que mais teme: não saber se aquilo que coloca no papel é o seu ápice ou somente um amontoado de palavras estéreis.  Não saber o limite da própria capacidade de escrever.

Merece destaque trecho a carta enviada a Louise Colet, em 01 de fevereiro de 1852:

“Eu sou um homem-pena. Sinto através dela, por causa dela, em relação a ela e muito mais com ela. Você verá a partir do próximo inverno uma mudança aparente. Eu passarei três invernos usando alguns escarpins. Depois entrarei de novo na minha toca onde estourarei obscuro ou ilustre, manuscrito ou impresso. Há no entanto, no fundo, algo que me atormenta, é o não-conhecimento da minha medida. Este homem que se diz tão calmo está cheio de dúvidas sobre si próprio. Ele gostaria de saber até que altura ele pode subir e o poder exato de seus músculos. Mas pedir isto é ser muito ambicioso, pois o conhecimento preciso de sua forma não é senão o gênio.”

 

Apesar de tanto sofrimento no ato de escrever, Flaubert sabe que não tem a opção de desistir. Só lhe resta continuar, uma palavra de cada vez, mirando sempre o mais simples dos desejos: sentir-se satisfeito com aquilo que saiu da sua imaginação. No entanto, a satisfação é um sentimento ilusório. Ela se esconde e some, assemelhando-se à captura de uma névoa. Pelo menos é o que Flaubert descreve em carta enviada a Ernest Feydeau em 05 de agosto de 1897:

 

“Sim, a literatura me aborrece a um grau supremo! Mas não é por minha culpa; ela se tornou para mim uma sífilis constitutiva; não há como livrar-se. Estou embrutecido de arte e de estética e para mim é impossível viver um dia sem arranhar esta chaga incurável, que me devora.

Eu ainda não (se você quer saber minha opinião íntima e franca) escrevi nada que me satisfaça plenamente. Há em mim, e muito nítido, parece-me, um ideal (com o perdão da palavra), um ideal de estilo, cuja busca me faz arquejar sem trégua. Assim o desespero é meu estado normal. Preciso de uma violenta distração para sair dele.”

 

Nas cartas de Gustave Flaubert, é visível o seu desespero. O texto é a grande baleia branca que não consegue subjugar. Persegue o estilo sem tréguas, mas ele insiste em estar sempre inacessível, debochando dos seus esforços. Para alguém que considerava o estilo como algo que morava dentro das palavras, sendo a alma e a carne de qualquer obra, ser incapaz de encontrá-lo é como ser um fantasma à procura do próprio corpo.

Flaubert foi um homem imerso em dúvidas, que desconhecia os seus limites e vivia em constante desespero. Nestas circunstâncias, como poderia ter escrito uma obra tão sólida e consistente? É estranho imaginar que, de alguém tão fragilizado e instável, pudesse aflorar escritos que atravessam os tempos, mantendo a sua atualidade. Talvez quem tenha a melhor explicação seja Henry James, quando diz:

 

“Flaubert estava condenado, porque, de sua vocação, ele não sentia nada, exceto a dificuldade. Sentia-se imensamente responsável perante a tarefa e os triunfos em jogo, mas era o último a saber porquê… O que o sustenta é a raiva e o hábito do esforço; o mero amor pelas letras, sem falar no amor pela vida, parece tê-lo abandonado bem cedo. Algumas passagens, na sua correspondência, nos levam a indagar se não foi mesmo ódio aquilo que o sustentou, mais do que qualquer outra coisa.” 

 

O ódio como força motriz. Um ódio maior do que a própria vida e do que a vocação de escrever. Nem sempre a literatura nasce de sentimentos bonitos e da vontade de deixar um legado para o mundo. Às vezes, ela é feita de desespero, de dor e de muita raiva.

2 Comentários

Arquivado em Gustave Flaubert, Literatura, Madame Bovary

2 Respostas para “Flaubert e o desespero como estado natural

  1. Kelli Pedroso

    Como é bom começar a semana lendo um texto com qualidade, assim como esse. Eu também li o romance epistolar de Flaubert, e gostei. O último parágrafo que escreveste é o que muitas vezes sinto. Mas como é difícil colocar no papel…

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