Tchékhov e a importância de falar sobre torta de frutas

* Em primeiro lugar, um agradecimento especial às três adolescentes que me encontraram anteontem no shopping, tiveram a coragem de se aproximar, perguntar se eu era mesmo Gustavo Chester – como se existisse outra possibilidade de eu ser eu sem ser eu mesmo – e, após se identificarem como leitoras assíduas deste blog e tirarem fotos minhas (o horror, o horror), terem contado que fizeram um trabalho escolar com base na postagem que escrevi sobre “O Jardim das Delícias”, do Hieronymus Bosch ( http://wp.me/p24M2p-kr ). Desculpem a falta de jeito, mas eu tinha certeza de que era uma pegadinha muito bem urdida. Sendo sincero, aliás, ainda tenho dúvidas. Além disso, não era minha intenção que este blog tivesse leitores, não de carne e osso. Às vezes eu realmente esqueço que vocês existem, e fico pensando que os comentários e visualizações das postagens são o WordPress querendo me fazer um agradinho. Bom, vocês existem mesmo – como se houvesse outra possibilidade de existir. Obrigado pela leitura, pessoal.

 

O encontro que descrevi acima acabou tendo uma consequência inesperada. Uma das moças disse que o mais interessante do meu blog era que eu não falava de nada da atualidade. No primeiro momento, minha reação foi de pasmo: como assim, não falo nada atual? Estarei sendo tão anacrônico e distante da realidade? Fui reler algumas postagens e percebi, à contragosto, que a moça tinha razão. O mundo está se despedaçando em guerras e terrorismo, o Brasil sendo goleado na Copa do Mundo, grandes escritores morrendo, o país sacudido por protestos, escândalos e políticas, e eu estou falando de pinturas, de livros, do conceito grego de democracia, de heroísmos, de robôs e de mais uma série de assuntos que não guardam relação com o que acontece ao redor do planeta.

Em alguns lugares, me chamam de alienado. Em outros, de selenita. Como podem ver, as pessoas me chamam de muitas coisas.

Para variar, acabei achando as respostas no meio dos mestres. Sendo mais exato, em um delicioso livro escrito por Máximo Górki, chamado de “Três russos e como me tornei um escritor”, em que ele descreve os seus encontros com Leonid Andrêiev, Liév Tolstói e Anton Tchékhov, trazendo observações do convívio com estes escritores. Bom, nem é muito prudente refletir sobre a quantidade absurda de talento literário reunido sob o mesmo teto e interagindo entre si, mas podemos desejar ser a mosca que presenciou o encontro destes monstros sagrados.

Aconteceu que, de certa feita, Tchékhov estava sentado na sua casa quando aconteceu esta cena, testemunhada por Górki:

 

“Um dia, recebeu a visita de três senhoras suntuosamente vestidas. Depois de terem enchido a sala com o ruído de suas saias de seda e com o odor de perfumes capitosos, sentaram-se com cerimônia em frente ao dono da casa, e, afetando grande interesse por assuntos políticos, passaram a fazer ‘perguntas inteligentes’:
 
– Anton Pavlovitch! Por qual modo terminará a guerra?
 
Anton Pavlovitch tossiu ligeiramente, refletiu e respondeu com doçura, em um tom sério e afável:
 
– Provavelmente pela paz …
 
– Naturalmente!… Mas quem será o vencedor? Os gregos ou os turcos?
 
– Parece-me que serão vencedores os mais fortes.
 
– E na sua opinião, quais são os mais fortes? – perguntavam com insistência as senhoras.
 
– Os mais bem nutridos e os mais instruídos.
 
– Oh, como é espirituoso! – exclamou uma das visitantes.
 
– E de quem gosta mais, dos gregos ou dos turcos? – perguntou uma das outras senhoras.
 
Anton Pavlovitch mirou-a gentilmente e respondeu com um amável e doce sorriso:
 
– Gosto de torta de frutas … a senhora gosta?
 
– Muito! –  exclamou vivamente a dama.
 
– Vem um perfume tão bom dessas tortas! – confirmou enfaticamente uma outra das visitantes.
 
E todas três se puseram a falar com animação, dando provas, nessa questão de torta de frutas, de uma admirável erudição e de um perfeito conhecimento do assunto. Estavam evidentemente encantadas por não terem mais de puxar pela inteligência e de fingir interesse por turcos e gregos, nos quais, até antes do encontro com Tchékhov, sem dúvida nunca haviam pensado. 
 
E ao partirem, prometeram com alegria a Anton Pavlovitch:
 
– Nós lhe mandaremos uma torta de frutas.
 
– Linda conversação!.. –  disse eu, quando partiram.
 
Anton Pavlovitch riu docemente e acrescentou:
 
– É necessário que cada um fale a sua língua…”

1torta de frutas

 

Com esta história, Górki desde o início – quando diz que as três senhoras começaram a falar de “assuntos inteligentes” com Tchékhov – mostra como o escritor se sentia quando confrontado com os problemas mundanos das outras pessoas. Tudo bem que a guerra é um problema sério, mas seremos nós as pessoas que irão mudá-lo? Ficar o dia inteiro pensando em guerra e refletindo sobre ela tem o poder de evitá-la? Seria muito mais apropriado falar de assuntos que realmente dominamos antes de sair por aí despejando opiniões sobre aquilo que não entendemos. Como Tchékhov mostra, falar de uma torta de frutas é uma das maneiras de mudar a realidade do mundo. Não é escapismo ou alienação, é dar a verdadeira importância para os assuntos que conhecemos – e imaginar que eles podem afetar os pensamentos sobre a guerra.

A habilidade com que Tchékhov desvia o assunto, indo para os detalhes da torta de frutas e escapando da guerra, permite entrever que ele sabia o que era importante na sua realidade. Fazer uma torta de frutas perfeita é muito mais intrincado do que saber táticas de guerra. E o fato de ganhar uma torta de presente é um golpe de mestre que somente pessoas muito sensíveis e hábeis são capazes de realizar. Toda a cena foi construída para que Tchékhov não se incomodasse discutindo um assunto enfadonho – e ainda ganhou um presente ao seu final.

De certa forma, é como penso. Tenho opinião formada sobre os assuntos do cotidiano e as agruras da sociedade contemporânea. É uma opção minha não apresentá-la nos textos, pois realmente acredito que é mais relevante falar do que sei ao invés de expor versões parciais daquilo que não entendo direito. Não quero que ninguém me siga (eu disse para as três moças que eu nem mesmo me leria, existem livros bem melhores para se ler por aí), e quero que venham me contar daquilo que sabem, não me apresentem uma enxurrada de informações enviesadas contendo opiniões de outras pessoas que não sabem também o que estão falando. Hoje o mundo virou um grande lugar de distribuição de informações, em que as pessoas xingam aquilo que discordam e mostram como trunfos os textos que apoiam seus pontos de vista.

Quero falar de tortas de frutas. E ganhar algumas também, se não for muito difícil.

Tchékhov e Górki.

Tchékhov e Górki.

Aliás, Tchékhov – eis um homem que sabia o que era importante. Ainda seguindo Górki, quando Tchékhov estava no seu leito de morte, em julho de 1904, ele se virou para o médico e disse calmamente em alemão, “Ich sterbe” (Estou morrendo). Recusou o oxigênio que queriam colocar sobre o seu nariz e apontou para uma garrafa de champanhe. Tomou uma taça e disse “faz muito tempo que não bebo champanhe”. A seguir, virou-se na cama e morreu em paz.

Eis um escritor capaz de encarar a morte no olho e DESVIAR o assunto, conseguindo uma última taça de champanhe antes de morrer. Não ficou tecendo loas ou maldições à morte, mas aproveitou o seu último momento na Terra para matar a saudade de uma taça de bom champanhe. E tenho certeza de que foi o champanhe mais delicioso de todos os tempos – assim como a torta de frutas que ele ganhou de presente deve ter sido única.

Chamem-me de alienado, mas ainda prefiro tomar uma taça de champanhe com a Morte ao invés de perder tempo falando sobre assuntos que não entendo.

1 comentário

Arquivado em Anton Tchekóv, Literatura, Máximo Górki

Uma resposta para “Tchékhov e a importância de falar sobre torta de frutas

  1. Gilberto Borges de Castro

    Acho que a atualidade vem na reflexão de seus textos. Recordo daquele que concluía sobre não existir inteligência na democracia. Foi super atual ao tratar da intolerância sobre a opinião política do outro com a qual não concordamos, no período pré-eleitoral. De qualquer maneira parabéns pelo texto, sempre lúcido.

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