Homenagem aos heróis desconhecidos

Há alguns anos a mesma história me assombra. Imaginei que fossem um ou dois anos, e descobri que já se passaram incríveis 11 anos. O fato de ainda recordar de tantos detalhes é um tributo para a permanência das verdadeiras sagas, um motivo pelo qual ainda falamos da “Ilíada”, da “Eneida”, do “Gilgamesh”, do “Vedas”, da “Mil e Uma Noites”.  Nós gostamos de heróis. Queríamos ser heróis – mas a grande, a imensa maioria, nunca será. Então, só nos resta admirar os verdadeiros.

A história que constantemente lembro é a de um menino de 14 anos, de nome Lucas Vezzaro. Pelas fotos, aparenta ser um rapaz normal, um pouco gordinho, com aquela expressão adolescente que não sabe se fica com a brejeirice da infância ou adota a circunspecção de um adulto. Pois Lucas Vezzaro entrou em um ônibus escolar como menino e, ao sair, era um herói. Ou melhor: seu corpo foi resgatado e, antes mesmo de sair da água onde se afogou, ele já tinha escrito o seu nome na galeria das pessoas inacreditáveis.

Não vou enfastiá-los usando truques literários para deixar os fatos mais épicos ou trágicos. A beleza da história está justamente na sua verdade, no evento puro: diante de uma decisão rápida entre vida ou morte, um menino optou por transcender os seus limites. Nunca saberemos o que pensou ou se teve um vislumbre do que poderia lhe acontecer; não saberemos se teve dúvidas ou se estava tão confiante que ignorou os riscos. Só sabemos as consequências do que Lucas fez. Aos que se interessarem, os dois links abaixo tratam bem do assunto.

http://veja.abril.com.br/290904/p_044.html

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/09/familias-de-criancas-mortas-em-tragedia-de-erechim-tentam-lidar-com-separacao-4603091.html

Na “Arte Poética”, Aristóteles define o herói trágico como um ser de origem nobre, que luta contra um destino pré-existente e sofre um castigo desproporcional como resultado de suas próprias ações, não em decorrência dos acontecimentos. Mesmo assim, o herói é a base de toda a peça, e é a sua conduta que determinará o surgimento da catarse e da epifania, quando o público identifica-se com os seus dilemas. As pessoas experimentam estes sentimentos por não serem heroicos o suficiente para lidar com eles na vida real. Usam a encenação como uma forma de expiar o pecado de ser humano e, por conseguinte, mesquinho e falível, o que transformaria o teatro (ou qualquer forma de encenação) em um jeito de evitarmos o fantasma das nossas próprias covardias, imaginando que somos heroicos.

Visto por este ângulo, há quem acredite que a encenação não passa de uma covardia e a melhor forma de garantir que nunca seremos heroicos, pois já temos toda a catarse necessária ao assistir os dramas alheios. Pode ser. O inegável é que todo mundo gosta de ser o herói na historinha da própria vida.

heroi

A palavra “herói” hoje está desgastada. Fornecem este epíteto para qualquer pessoa, desde o homem que, contra todas as possibilidades, chegou ao trabalho no horário correto quanto para a mulher que conseguiu uma promoção. As palavras, assim como os sentimentos, são enfraquecidas pelo seu uso constante, impensado. Uma pessoa que diz amar alguém a qualquer momento não sente mais o que está dizendo; alguém constantemente chamado de “herói” não pensa mais nas suas condutas.

O herói sempre foi um louco e, como tal, a morte acaba sendo o seu destino. Tem medo, mas a loucura do herói é  acreditar que a sua vida não é mais importante do que a do outro. Ele faz a atitude certa, e não se importa com as consequências. O que é a atitude certa? Ora, todo mundo sabe qual é – a mais difícil de ser tomada. O não virar as costas. O não silenciar. O não coadunar com o delito alheio. O ir contra a maré.

Se hoje recordo deste assunto, é graças a um fato que presenciei. Estava dentro da lotação. Na rua, uma senhora idosa caminhava com evidente dificuldade e, ao pisar em algum buraco na calçada, caiu. Na frente dela, estavam dois fiscais de trânsito, que não deram atenção para o tombo que aconteceu diante dos seus olhos, mais ocupados com os veículos que trafegavam na via. O motorista parou a lotação e, durante alguns segundos, pareceu esperar algum passageiro, mas, na verdade, estava em um conflito. Quando tomou a decisão, assemelhava-se a um homem enfurecido: desligou o motor, abriu a porta do veículo e saiu para a calçada, interrompendo o fluxo de veículos para ajudar a senhora a se levantar. Os fiscais de trânsito disseram algo e o homem respondeu com raiva, terminando de ajudar a senhora. Em seguida, a encaminhou gentilmente até a lotação, esperou que ela se sentasse e continuamos a viagem. No nosso caminho, estava o Hospital de Pronto Socorro, e foi lá que o motorista a deixou. Não cobrou nada pela viagem.

Os heróis estão por aí, nós é que não conseguimos enxergá-los, imersos no lodaçal de atitudes desprezíveis que constitui o cotidiano. Eles não esperam agradecimentos ou louvores, contentando-se em fazer a coisa certa. No momento em que Lucas Vezzaro saiu da água do rio e viu o ônibus afundando, no instante em que o motorista da lotação se debateu entre continuar a jornada ou auxiliar uma pessoa machucada, nestes segundos fatídicos uma vida inteira se passou, e eles tomaram a decisão certa. Foram contra o comodismo e contra a própria lógica dos fatos, tudo para aplacar a sua consciência. Isto por que um herói nunca dorme, pois não sabe de antemão o dia em que salvará o mundo de alguém.

O que traz à tona o ponto mais perturbador nestas histórias: uma pessoa saberá o momento em que será colocada à prova? E, quando chegar o momento de decidir pela coisa certa ou se transformar em um pusilânime, como irá reagir? A vida não passa de uma grande espera pelos poucos segundos em que nosso destino será traçado, se seremos heróis ou covardes. Espero sinceramente que vocês tomem a decisão mais apropriada – e depois sobrevivam às consequências.

2 Comentários

Arquivado em Aristóteles, David Bowie, Filosofia, Generalidades, Herói, Música

2 Respostas para “Homenagem aos heróis desconhecidos

  1. Posso dizer que… Chorei?????

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