Diziam os romanos que as ruas são sábias. Se for uma realidade, chama minha atenção que a mesma frase foi duas vezes escrita em um muro de Porto Alegre, e duas vezes apagada. Ainda assim, ela insiste em reaparecer, como é o caso da sua terceira ressurreição. Qual verdade desagradável a frase esconde eu não sei, mas é inegável que existe algum órgão público que se preocupa ao ponto de mandar tapá-la duas vezes, enquanto deixa intocados os outros muros inscritos da cidade.

A frase sempre surge, tão gloriosa como se fosse a primeira vez, e lança a sua acusação para o mundo: “Atores sois vós”. Não eu, a frase, e muito menos quem escreveu, a única pessoa que se exclui desta realidade.

Vocês, nós, o resto do mundo, somos atores interpretando uma peça.

 

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Não é uma ideia nova. Shakespeare escreveu que “o mundo inteiro é um palco e todos os homens e mulheres não passam de meros atores, que entram e saem de cena, e a seu tempo cada um representa diversos papéis”. Chaplin falou que a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios e que termina sem aplausos. São visões melancólicas, e ambas se concentram na fugacidade da existência, na peça em que somos atores involuntários e necessários.

Prefiro pensar no otimismo da frase escrita no muro. Se sou um ator, se entrei no palco e devo participar da peça, é imprescindível fazer a melhor de todas as atuações. Ser tão convicente que vou acreditar na minha interpretação do mundo.

O que me faz lembrar de Walt Whitman. Um escritor terrífico: sempre que o leio, sinto-me esmagado, como se quase todos os meus escritos do passado e do futuro estivessem ali, escondidos, ansiosos para cravarem as suas unhas nas minhas palavras. Não me sinto nada especial após ler Whitman: se continuo escrevendo, é por que sei que viverei à sombra do que outro escritor pensou.

Pois Walt Whitman escreveu um poema, “Ó meu eu! Ó vida!”, que faz parte do “Folhas da Relva”, resumindo a sua fraqueza humana e chegando a uma dúvida inquietante:

“Ó meu eu! Ó vida! Das questões tão recorrentes,
Dos trens infinitos dos que não têm fé, das cidades cheias de tolos,
Ó eu mesmo para sempre censurando a mim mesmo (pois quem é mais tolo do que eu e quem é mais sem fé?)
De olhos que em vão suplicam pela luz, do meio dos objetos, das lutas sempre renovadas,
Dos pobres resultados de tudo, das laboriosas e sórdidas multidões que vejo em minha volta,
Dos vazios e inúteis anos dos demais, sendo que também faço parte dos demais,
A questão, ó meu eu, tão triste, tão recorrente — O que há de bom em meio a tudo isso? Ó meu eu, ó vida?”

Whitman pergunta-se o que há de bom em uma vida tão previsível, rodeado por multidões indiferentes a se esbarrarem nas suas próprias encenações, sofrendo dúvidas e autocensuras constantes, arrastando-se por um tempo que, na alegria, passa rápido e na infelicidade costuma se prolongar. Pode existir algo de bom neste cenário?

O próprio autor sente que, sem querer, esbarrou na grande questão: qual o sentido? Vale a pena? Tanto que o próximo poema do livro se intitula “Resposta”, uma tentativa de acalmar o espírito e ver que existe um propósito:

“Que tu estás aqui – que a vida existe

Que a poderosa peça continua e tu podes contribuir com um verso.”

Melhor do que imaginar que somos atores interpretando uma peça, talvez o mais importante seja pensarmos na qualidade da apresentação, se os versos que estamos falando e nossas atitudes são dignas. Um verso bem colocado tem o seu valor na grande engrenagem de qualquer peça de teatro. A vida não deve ser tão inconsequente para que possamos sair por aí desperdiçando falas. Whitman sempre defendeu a Arte acima de tudo, inclusive acima da Vida e de Deus: contribuir com um verso poderoso dentro da peça é melhor do que enchê-la de falas vazias.

Se existe uma mensagem construtiva que se pode ter no início deste 2015, e em todos os anos da nossa vida, está dentro da “Canção de mim mesmo”, poema que também faz parte do “Folhas da Relva”, e é um singelo verso:

“Deixe que a sua alma esteja tranquila e íntegra perante um milhão de universos.”

Um milhão de universos não parece uma quantia tão grande quando se tem uma alma tranquila. Basta contribuir com um único verso bom.

 

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4 comentários em “Perante um milhão de universos

  1. Boa tarde, Gustavo, feliz 2015, muita luz no seu caminho. Belo artigo para começar o ano. Através do meu trabalho como jornalista, faço (ou acredito que faço) o meu verso diário. Forte abraço, Ana.

    1. Obrigado pela leitura, Ana! Um feliz 2015 para ti também, e que sigamos tentando fazer bons versos em um mundo cheio de gente querendo falar ao mesmo tempo, ehhehe. Um forte abraço! 🙂

  2. Olá, Gustavo…
    Muito interessante seu artigo. Temos que dar voz a todos, as manifestações revolucionárias estão nas letras, na reflexão do povo sobre sua própria situação na sociedade. Um ótimo texto para iniciar meus trabalhos com meus alunos.
    Parabéns!
    Abraço

    1. Olá, Fernanda…
      Muito obrigado pela tua leitura. Temos realmente que dar voz a todas as nossas aspirações, pois somente assim será possível modificar qualquer situação.
      Um abraço! 🙂

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