Lightning in a bottle

No discurso de indução do Nirvana ao Rock and Roll Hall of Fame de 2014, Michael Stipe, vocalista do R.E.M., resolveu fazer uma fala diferente do habitual.  Ao invés de incensar o artista escolhido, Michael preferiu deter-se sobre o fazer artístico no campo musical, e o motivo pelo qual o Nirvana acabou sendo escutado em um mundo repleto de gritos e de sons buscando seu espaço.

Após mencionar a existência dessas vozes que PRECISAM ser escutadas em um determinado momento da História, justamente por sua fúria e necessidade de transmitir algo importante, ele falou sobre a verdade e de como qualquer obra musical (ou, se preferirmos, artística) depende dela para existir e ser disseminada ao redor do mundo. Estabeleceu que o mais importante é o artista ser verdadeiro consigo mesmo, não com a realidade que lhe cerca. Lições antigas, mas sempre boas de serem lembradas.

No entanto, a parte que mais chamou a atenção no discurso de Michael Stipe foi quando, aludindo a Kurt Cobain, ele disse que o cantor seria um “lightining in a bottle” (o raio dentro de uma garrafa). Falou em um interessante sentido duplo: inicialmente, quis dizer que Cobain era uma pessoa impossível e única nas suas características (aludindo à gênese da expressão, significando que alguma coisa é tão impossível quanto prender um raio dentro de uma garrafa). Em um segundo sentido, usando a definição do “Urban Dictionary” (http://pt.urbandictionary.com/define.php?term=lightning%20in%20a%20bottle), disse que Cobain prendeu o raio (a inspiração e a vontade de criar) dentro da garrafa (seu próprio corpo), gerando um momento intenso e único de criatividade e, por isso, não conseguiu resistir à pressão.

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Impossível não pensar nas possibilidades contidas nesta escolha. Ser um “lightining in a bottle” implica em admitir que o corpo é uma prisão finita, incapaz de segurar o jorro súbito da criação. Criar deixa as pessoas maiores do que os seus corpos, e o fato de um raio ficar raspando as paredes da pele por dentro explica o motivo pelo qual tantos artistas são considerados loucos ou excêntricos.

Li, assisti e escutei muitas entrevistas com artistas. Existe uma grande curiosidade em saber de qual lugar se origina a criação, se existe alguma espécie de controle sobre ela. Todas as respostas são insatisfatórias. Não raro, as pessoas tentam usar analogias ou metáforas, mas elas escorregam na incapacidade da definição (ou na pieguice absoluta). Talvez a resposta mais simples seja considerar que, como qualquer fenômeno natural, podemos explicar consequências e efeitos, mas não a sua origem. Existe por que existe. No entanto, admitir isto é esbarrar na ideia de que somente algumas pessoas são escolhidas para serem a garrafa que vai conter o raio. As demais serão bafejadas por ele, entenderão seus efeitos, mas não irão contê-lo.

Não creio que seja uma coincidência que os deuses mais poderosos da Antiguidade eram vinculados aos raios. Em “O Poderoso Chefão”, os italianos comentam que, quando um homem se apaixona por uma determinada mulher, ele é “atingido por um raio”, dando justamente a impressão de arrebatamento pro algo maior do que a razão. Raios possuem algo de rebeldia, de voluntariedade, de inexplicável, de poder concentrado. O raio escolhe quem vai acertar. Entre duas pessoas caminhando no campo em uma noite chuvosa, o raio acabará optando por uma delas, e o critério será somente dele.

Ninguém diz que ser o portador do raio não é uma situação dolorosa. Quando Michael Stipe afirma que Kurt Cobain morreu por causa disto, por não aguentar o raio que morava dentro do seu corpo, ele menciona algo que todo artista sente: a corrosão. Que a sua sanidade, coragem e vida estão sendo dragadas lentamente pela obra. Que existe um buraco negro consumindo a sua alma. Basta lembrar de quantos artistas não resistiram a tamanha pressão e acabaram se matando, enlouquecendo ou – o pior de todos os pecados – se acovardando diante da imensidão que espreitava de dentro do seu peito.

O preço de ser aquele que carrega um raio é o mesmo preço pago pelo guerreiro viking que portava a Bandeira do Corvo nas batalhas: ele morrerá, mas o seu exército vai vencer. A questão que fica – talvez a única questão realmente importante – é se vale a pena. Não temos como saber a intensidade do raio, se será uma fagulha rápida e dolorosa ou uma descarga longa e contínua, e sacrificar a vida diante de tamanha incerteza é algo que talvez não compense tamanho desgaste. No entanto, só saberemos a resposta quando o raio já estiver correndo por dentro do nosso corpo, ansioso para sair e explodir a Humanidade.

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