Não existe inteligência na democracia

Muito tem se falado sobre democracia nesta época de eleições. Ainda que seja uma democracia estranha: quem vota no mesmo candidato meu é um gênio, quem escolhe o outro candidato é um imbecil. Não existe meio termo.

O que as pessoas parecem esquecer é que a democracia não foi criada para ser um sistema inteligente. Ela escuta o povo e pretende fazer com que todos participem do processo de escolha das mulheres e homens que decidirão o seu destino. No entanto, o povo é difuso, é contraditório e é formado por milhões de pessoas diferentes entre si e que não se notabilizam pela inteligência e espírito crítico. Ou seja: pode sair qualquer coisa da democracia brasileira, não se deve esperar nenhuma coerência.

Neste contexto, o adágio “Vox populi, vox dei” é mais uma esperança do que uma realidade.

Quem estudou a formação histórica da democracia sabe que ela é injusta e repleta de equívocos – assim como as pessoas. O maior dos erros da democracia aconteceu com ninguém menos do que Temístocles, o general responsável pela vitória de Atenas sobre os persas na Batalha de Salamina, um dos maiores prodígios estratégicos da História da Humanidade. Quando descobriram uma mina de prata próxima a Atenas, Temístocles lutou para que todos os rendimentos vindos dela fossem aplicados na construção de barcos. Imaginou a ameaça persa antes dela se concretizar. Após a espetacular vitória na Batalha de Salamina, com o uso de uma estratégia que fez a diminuta frota grega vencer a imensa quantidade de barcos persas, ele ajudou a formatar a economia ateniense de tal forma que esta se tornou a Cidade Estado mais forte da Grécia.

Qual o prêmio por estas conquistas? Pois Temístocles foi expulso de Atenas e forçado ao exílio. Por força do voto popular.

Na época, Atenas tinha a figura do ostracismo: os cidadãos votantes (não eram todos, as mulheres, os estrangeiros e os escravos estavam excluídos da democracia ateniense) podiam escrever, no interior de uma ostra, o nome de um cidadão que seria expulso de forma sumária da cidade. Após a leitura dos nomes, o mais votado era convidado a se retirar da cidade e nunca mais colocar os pés nela.

 

Themistocles2

O ostracismo de Temístocles.

 

Temístocles, o herói de Salamina e o responsável pelo crescimento econômico da cidade, foi expulso de Atenas. Os motivos foram os mais variados: alguns historiadores citam a inveja dos seus compatriotas, o receio de que ele estivesse ficando poderoso demais e até mesmo o fato dele ser um homem bonito, que atraía a atenção feminina (é possível que esta seja uma visão equivocada, pois Temístocles era considerado uma pessoa feia. Não como Sócrates, que diziam ser de uma feiura assustadora, mas bastante desprovido de atrativos físicos).

Sentenciado ao exílio, Temístocles acabou indo para a velha inimiga Pérsia, onde a sua fama era grande, mesmo sendo o general que lhes derrotara. Foi recebido com honras pela corte e, muitos anos depois,  dizem que cometeu suicídio quando soube que os persas tentariam um novo ataque contra Atenas, para ser impedido de ajudar a destruir a cidade que amava.

Se a democracia ateniense era capaz de expulsar da cidade os seus maiores herois e artistas (além de Temístocles, o escultor Fídias e Alcibíades, heroi da Guerra do Peloponeso, também foram condenados ao exílio através do ostracismo), o que podemos esperar deste sistema a não ser incompreensão, equívocos e vaidades humanas influenciando no bem coletivo?

A democracia está longe de ser perfeita, mas, ainda assim, melhor com ela do que sem. Disse o Churchill: “A democracia é a pior forma de governo, excetuando-se as demais”. Apesar dos problemas, a democracia ainda é ótima, mas nem tanto na política, e sim no arbítrio que cada pessoa possui ao seguir a própria consciência e tomar as decisões que, sob a sua ótica, sejam as mais acertadas. Não recrimino as posições políticas dos outros, pois entendo que, dentro de certas circunstâncias de vida, elas correspondem àquilo que a pessoa experimentou. Da mesma forma, penso que convencer os outros a terem o mesmo pensamento que eu seria muita presunção, pois minhas ideias pertencem ao que sou, não estão a soldo de convencimentos alheios.

Não acredito na inteligência da democracia. Não acredito que os melhores quadros sejam reconhecidos e aplaudidos pela voz do povo. Quando penso na democracia, imagino Temístocles na beira da praia na Pérsia, lembrando da cidade que lhe cuspira como se fosse uma fruta podre.  E penso na maior demonstração de crença na democracia que se pode ter: Temístocles não discutiu a vontade do povo que lhe repudiara. Ele acatou a decisão da maioria, mesmo sentindo dor e desespero. Mais importante do que o outro pensa, é deixar ileso o direito ao pensamento democrático – e respeitá-lo.

9 Comentários

Arquivado em Democracia, Eleições, Ostracismo

9 Respostas para “Não existe inteligência na democracia

  1. Grande mestre se superando! Gostei do texto!!!

  2. Helena Terra

    Quanto mais te leio, mais te admiro.
    Parabéns pela excelente e democrática reflexão!

  3. Parabéns pelo texto, ou melhor pela tua pessoa.!! Abraço Laura

  4. Paulo Tiaraju Aquino

    Nunca havia tido um visão tão próxima da realidade como a que tive ao ler este texto radiográfico, embora suponha que no Brasil a democracia se torna ainda mais pantanosa por causa da péssima qualidade dos políticos brasileiros de um modo geral.

  5. Rosângela Maria

    Gostei muito da sua reflexão a respeito da democracia. Sabendo da origem da democracia, que era excludente na medida em que somente um décimo da população participava do mundo político ateniense, o título do seu artigo “Não existe inteligência na democracia” é muito verdadeiro!

    • Muito obrigado, Rosângela. Em tempos em que todas as pessoas acham que podem dizer o que desejam e depois reclamar que estão sendo cerceadas no seu direito democrático, vale muito a pena pensar nas origens da democracia. Obrigado pela leitura!🙂

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