As ninfas que moram no nosso interior

Desde que me conheço por gente, os outros dizem que tenho um “olhar diferente”, algo que distorce a realidade e vê sombras onde elas não existem, detalhes insuspeitos, amplitudes desconhecidas. Por muito tempo lutei contra isto, até o momento em que desisti e passei a amestrar os meus olhos, a ensiná-los a se comportarem, a distinguir o concreto do intangível. Acreditem ou não, é um aprendizado diário e cruel. Eu normalmente preciso silenciar sobre o que vejo; é uma caixa de Pandora que deve ser aberta aos poucos, nunca de supetão.

Muitos pesquisadores se debruçaram sobre a diferença entre o olhar do artista e o olhar dito “normal”. Alguns encontraram razões médicas: El Greco teria astigmatismo, o que explica as formas alongadas que costumava desenhar; Monet foi atormentado pela catarata nos últimos anos de vida, o que distorceu as cores do mundo; Van Gogh, além de doenças psiquiátricas, teria xantopsia, o que justifica a abundância do amarelo nos seus quadros.

Existiriam razões fisiológicas: um estudo feito na Universidade de Nevada através da monitoração da atividade cerebral de dois homens e mais o pintor Humphrey Ocean mostrou que, enquanto os dois homens expressavam uma paisagem usando a parte de trás do cérebro, que lida com imagens, o pintor utilizou mais a região frontal direita, que está ligada ao raciocínio. Ou seja, enquanto desenhava, ele incluía e misturava seus próprios pensamentos e visão de mundo com aquilo que era retratado.

Refleti sobre estas questões quando me deparei com uma frase de Pierre-Auguste Renoir:

“As pessoas dizem que uma árvore é somente uma combinação de elementos químicos. Prefiro crer que Deus a criou, e que ela é habitada por uma ninfa.”

Por mais absurda que possa ser a ideia da árvore virar a prisão de uma ninfa (uma hamadríade, para ser mais exato), o pintor impressionista quis dizer que todo objeto possui a própria magia, não explicada pela ciência. É algo que está além dela, e somente os artistas conseguem enxergar.

Nas suas primeiras obras, Renoir concentrou-se em paisagens. Não entendo muito de pintura, mas creio ser mais simples pensar um ambiente estático preso dentro dos limites do quadro. Ele não estava experimentando o seu estilo, e sim a sua visão de mundo:

"Paisagem de Grasse", Renoir

“Paisagem de Grasse”, Renoir

É possível ver a alma das árvores expressa nesta pintura, assim como o vento que movimenta os seus galhos. Para qualquer pessoa, seriam árvores, mas Renoir mostrou o espírito delas. Não bastando, revelou que o chão também se move incessantemente debaixo dos nossos pés, que o ar é corrosivo e irrequieto e que o mundo se ergue ao céu – enquanto ele tenta nos sufocar contra a terra. Vivemos sob a égide desta pressão invisível que se espalha ao nosso redor.

Dentro da realidade que qualquer pessoa consegue enxergar, existe um mundo em movimento, e fazer uma obra se mexer para fora dos seus limites é aquilo que o artista procura. Seja em uma pintura, seja em uma música, seja em um livro. No entanto, quem pensa que o artista tem um olhar quente e afetuoso sobre a realidade está enganado. É necessário ser frio e, ao mesmo tempo, passional. Eu digo que o Tempo da arte é diferente do Tempo humano; o artista precisa ter um olho lento e desassombrado. Thomas Mann fala sobre esta capacidade na literatura:

“O olhar que lançamos, enquanto artistas, para as coisas externas e internas é diferente daquele do homem comum: é, ao mesmo tempo, mais frio e mais passional. Enquanto homem, você pode ser bom, tolerante, afetivo, positivo, pode ter uma inclinação totalmente acrítica de achar tudo bom; enquanto artista, o demônio o obriga a ‘observar’, a perceber velozmente e com uma maldade dolorosa qualquer detalhe que possa ser característico no sentido literário, que possa ser típico e significativo, abra perspectivas, que designe raça, aspectos sociais e psicológicos, e a registrá-los como se você não tivesse nenhuma relação humana com o que viu – e na ‘obra’, tudo vem à tona. Considerando que se trate de um perfil, do uso artístico de uma realidade próxima, ressoa a queixa: ‘Foi assim que ele nos viu? Tão frio, irônico e hostil, com olhos tão vazios de amor?’.”

Retorno aos quadros iniciais de um Renoir ainda hesitante, ainda experimentando a visão:

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Alguém mais cético e com o olhar engessado pela realidade poderia dizer que as cores retratadas por Renoir nesta paisagem não existem. Contudo, se qualquer pessoa se concentrar por tempo suficiente em uma paisagem e tentar ir um pouco além do que a visão revela, entrar na essência da coisa, na ninfa que mora dentro de cada mínimo objeto, notará que estas são as cores verdadeiras do mundo, as quais foram envernizadas e diluídas pela sociedade. O artista só está revelando a verdade para um público cego.

Renoir fala o segredo do seu olhar em outra frase memorável:

“Não existe uma só pessoa ou paisagem ou assunto que não possua algum interesse, ainda que possa não ser evidente de imediato. Quando um pintor descobre este tesouro escondido, as outras pessoas ficam impressionadas com a beleza que lhes foi revelada.”

Todos os objetos do mundo possuem vida no seu interior. Cumpre ao artista libertá-la e desmascarar a verdade que esquecemos. Da mesma forma, não existe ser desinteressante ou que não possua algo de extremamente singular. Somos todos diamantes esperando a extração, somos todos ninfas à espera de um resgate.

6 Comentários

Arquivado em Impressões, Literatura, Olho, Pierre-Auguste Renoir, Pintura, Thomas Mann

6 Respostas para “As ninfas que moram no nosso interior

  1. Diogo Ferreira

    O diabo está nos detalhes🙂

  2. Helena Terra

    Como sempre, o autor do Homem despedaçado nos oferecer textos super inteiros🙂 Gostei muito. Pra mim, um dos aspectos da genialidade dos criadores do impressionismo foi exatamente a capacidade de dar forma a imagem que ainda está sendo decodificada pelo cérebro. Conseguir capturar esses segundos e revelar o quanto há de harmonia, intensidade, movimento, beleza neles não é pra qualquer um!
    beijosss

    • E eu recebi um comentário indestrutível da autora de “A condição indestrutível de ter sido”! Que, além de escritora, ainda é uma artista cheia de cores e de bípedes escapando do seu interior. Eu também gosto muito do movimento impressionista pela capacidade de se maravilhar e transformar o encantamento daquilo que sentiam em imagens poderosas. Beijossss, obrigado pela leitura, Lelena!🙂

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