O livro como espectro da loucura

Eu acredito que livros possam enlouquecer uma pessoa. Podem salvá-la ou explicá-la, mas também possuem o potencial de serem o empurrão que vai jogar alguém na insanidade ou, até mesmo, na morte.

Os livros andam muito próximos da loucura. Para escrever, uma pessoa não pode ser normal, pois pessoas normais vivem, não imaginam vidas alheias. Existem muitos casos de escritores que enlouqueceram, que se refugiaram em drogas, que tiveram comportamentos esdrúxulos. Quiroga, Maupassant, Hemingway, De Quincey… ser artista é flertar com a insanidade e, às vezes, ela é sedutora demais.

Também acredito que livros possuem almas próprias, distintas daquela que os criou. Se livros têm almas, eles podem assombrar alguém. Sempre achei que Hamlet não conversava com o fantasma do pai, mas com um livro. Bibliotecas são lugares cheios de almas a vagar.

Não se pode brincar com os livros. Nem os autores possuem este direito. O livro é uma força da Natureza; a história deve ser contada, independente do ser que escolheu como veículo. Ela precisa vir à tona, e pobre do homem ou da mulher que ficar no seu caminho.

Os fantasmas das histórias enlouquecem os seus autores. Os livros ainda não escritos, que ficam ricocheteando nas paredes da memória o dia inteiro. O corpo tem limites e a arte não, ela quer transcender o corpo do próprio artista.

O que me faz lembrar de Dante Gabriel Rossetti (1828-1882). Admiro artistas que, além de serem excelentes poetas ou escritores, conseguem se dar bem em outra forma de expressão artística, como – no caso de Dante – a pintura. Ser bom em uma expressão artística já demanda tanta dedicação que ser excepcional em duas, para mim, é algo mágico.

 

The Garland, by Dante Gabriel Rossetti - 1871

“The Garland”, Dante Gabriel Rossetti – 1871

 

Dante Gabriel Rossetti apaixonou-se por uma jovem, Elizabeth Siddal, apelidada de “Lizzie”. No início, ela era modelo de suas pinturas e, em seguida, acabou se transformando na sua esposa. Tamanho era o seu amor que Dante dedicou-lhe uma grande quantidade de poemas.

Infelizmente, após perder um filho, “Lizzie” cometeu suicídio. Como prova de amor extremo e da melancolia que lhe assaltou, Dante colocou, dentro do caixão da esposa falecida, o manuscrito contendo todos os seus poemas até então. Junto com a sua esposa, enterrou um livro.

No entanto, não se livrou dele. Consigo imaginar as noites de Dante Gabriel Rossetti lembrando do manuscrito que condenara à morte; os passos agoniados dentro da casa pensando nas rimas e nas imagens poéticas presas no caixão; os poemas sufocados gritando nos seus pesadelos. O fantasma do livro estava lhe assombrando. Penso em Dante caminhando pela rua, fustigado por poemas invisíveis que atormentavam cada um dos seus passos. Enquanto a lembrança de “Lizzie” desvanecia e o luto dava lugar à vida (o poeta não tardou a se apaixonar por Jane Burden, envolvendo-se em um intrincado triângulo amoroso com o marido dela, William Morris, para quem a tinha apresentado), o fantasma do livro insistia em lhe atormentar, querendo ser exibido ao mundo.
Em 1869, Dante Gabriel Rossetti não resistiu mais e ordenou que exumassem o manuscrito do túmulo da mulher falecida. Esta é a expressão exata que William Bell Scott colocou no seu “Autobiographical Notes”: o poeta inglês ordenou que exumassem o manuscrito e o trouxessem à vida, não o corpo de “Lizzie”. Um livro é um objeto dotado de vida, ainda mais para a pessoa que lhe criou.

No mesmo ano, publicou os poemas, e a sua vida nunca mais foi a mesma. William Bell Scott narra que Dante Gabriel Rossetti começou a ter visões do fantasma de “Lizzie”, que o observava de longe, sempre com um olhar punitivo, sabendo que o livro não mais lhe pertencia. Desde a retirada do manuscrito do túmulo de “Lizzie”, o fantasma dela passou a assombrar o poeta, causando-lhe crises de pânico, ataques paranoicos e depressão, que o conduziram a sucessivas internações em casas de repouso, a tentar cometer suicídio algumas vezes e a mudar todo o conteúdo da sua obra.

Dante Gabriel Rossetti teve o azar de enfrentar dois fantasmas: o de um livro e o de seu amor. Primeiro, o manuscrito enterrado incomodou a sua memória até ser “exumado” e publicado. Quando o escritor achou que estava livre, a sua falecida esposa veio lhe assombrar por causa do livro que lhe pertencia e lhe fora retirado. Na confluência de dois fantasmas poderosos, a Literatura e o Amor, a sanidade de Dante Gabriel Rossetti acabou se deteriorando. Nenhum ser conseguiria sobreviver incólume a tais forças.

Não tenho dúvidas de que um livro pode enlouquecer uma pessoa. Contudo, como o caso de Dante Gabriel Rossetti mostra, os livros também podem enlouquecer fantasmas.

Não é prudente brincar com livros, tanto autores quanto leitores. Nunca se sabe se a loucura não pode se esconder na próxima linha, no virar da página, no ponto final.

Escrever é um permissivo que a loucura encontrou para se espalhar impune pelo mundo.

 

P.S.: Não poderia encerrar a postagem sem uma foto da Família Rossetti, com o Dante Gabriel Rossetti no canto esquerdo. Detalhe nada insignificante: a fotografia foi tirada por outro monstro literário, Lewis Carroll, autor de “Alice no País das Maravilhas”. Sempre acho que fotografias tiradas por outros artistas são eventos de extrema singularidade, em que nada aparenta ser aquilo que está diante dos nossos olhos. O fundo desta fotografia e o destaque dado nas figuras humanas me encanta.

 

A Família Rossetti (Dante está no canto esquerdo da foto), em fotografia de Lewis Carroll

A Família Rossetti (Dante está no canto esquerdo da foto), em fotografia de Lewis Carroll

 

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1 comentário

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