“Quem tem medo da literatura feminina?”, texto publicado no Literatortura em 22/08/2014

Escrevi um texto sobre a literatura feminina para o Literatortura (www.literatortura.com). Eu acredito que a divisão da literatura em gêneros é um dos assuntos mais ingratos para se escrever a respeito – é pedir para levar um tijolaço na orelha -, mas a literatura feminina merece uma reflexão à parte. Todas as opiniões que citei partiram de experiências vividas por colegas escritoras e que me deixaram particularmente chocado. Enquanto ficarem analisando livros tomando por base os autores e não a excelência, não existe chance da nossa literatura evoluir. Deveríamos tratar de ideias e de conceitos (e de como eles foram bem ou mal empregados), não entrar na areia movediça que é achar boa a obra cuja vida do autor nos é mais interessante.

 

Quem tem medo da literatura feminina?

 

mulher sem cabeça

É difícil escrever sobre literatura feminina, assim como é difícil refletir sobre qualquer um dos gêneros em que a literatura acabou se dividindo. Não tenho condições de retirar a condição masculina do que escrevo e, dessa maneira, qualquer palavra minha soará talvez condescendente, talvez minimizadora, talvez errônea. Qualquer consideração precisará ser analisada sob o filtro do que sou e, em consequência, a chance de estar errado é muito maior do que a de estar correto, pois eu não vivo a situação e não estou por dentro dos meandros invisíveis em que ela se desenvolve.
Mesmo com tais ressalvas, devo falar sobre literatura feminina. Nem tanto por aquela que existe, mas, em especial, pela literatura feminina que nunca teremos acesso, aquela que morre na discussão prévia do gênero, aquela que nunca vem ao mundo. É por causa destes livros que eu falarei: os silencioso. Os mortos.
O The Guardian publicou uma lista de 20 obras que mudaram o mundo e foram escritas por mulheres (neste link: http://www.theguardian.com/books/2014/jul/29/to-kill-a-mockingbird-life-changing-women-harper-lee). Pode-se questionar os critérios de escolha, mas não se pode questionar a existência de tal lista. Foi um tanto espantoso observar que, entre os 20 livros escolhidos, eu tinha lido 13. Jamais teria percebido tal detalhe se não tivesse sido compelido a observar o gênero do autor. Após uma breve análise dos meus livros, constatei que, apesar de existir muito mais autores, as mulheres não faziam feio, constituindo uma parcela significativa. Inclusive a lista do The Guardian não incluiu autoras que deveriam estar nela, demonstrando que 20 livros não são suficientes para conter a força da literatura feita por mulheres.
Entre os meus hábitos de leitura, o gênero não é um fator de inclusão ou exclusão. Provavelmente por eu não dar muita atenção para o autor, mantendo meu enfoque na obra. Um dos problemas para a aceitação da literatura feminina é a necessidade atual de toda crítica ser estabelecida em função de quem escreve. O esperado seria que a obra bastasse por si própria, e só depois se analisasse – acaso necessário – quem a escreveu. No entanto, em época de Caras e de exibicionismos estéreis, o autor é vendido em conjunto com aquilo que escreve, sua foto tem que ir junto, sua voz também, sua experiência de vida esmiuçada em contraste com a obra. Não é raro eu ler uma crítica ou resenha sobre determinado livro e a questão do gênero ou circunstâncias pessoais do autor serem abordadas logo no início, inclusive com maior destaque do que o próprio escrito.
Se analisarmos qualquer livro deixando de lado a figura do autor (não prego um afastamento completo, mas somente como uma maneira adicional de análise), a literatura feita por mulheres é inegavelmente superior. Ela se desenvolve na adversidade, o campo onde nasce a boa literatura. É uma transgressão que atravessa os tempos, um gesto de resistência, algo que, só por existir, já é um confronto. Para vir aos olhos do leitor e atraí-lo, ela precisa ser fortemente constituída, precisa ter sentido, direção e não pode fazer o leitor pensar – como já ouvi tantas vezes em tom pejorativo – que é “literatura de mulherzinha”. A literatura feminina precisa transcender a questão do gênero em cada frase e, como tal, necessita ser nada menos do que formidável. Uma luta de trincheiras a cada frase, tudo para encantar o leitor.
Não escrevo isto para agradar qualquer pessoa. Faço com base no que leio. O maior escritor vivo do Brasil, para mim, é uma mulher (se evito dizer o nome é por saber que todas as pessoas tem as suas preferências particulares neste tema, não pretendo impor e nem expor a minha). Na lista secreta de autores que espero as obras em silêncio, acompanhando o seu desenvolvimento à distância, a grande maioria é formada por mulheres.
A auto-reflexão sobre minha leitura fez-me perceber que tenho uma grande preferência por literatura feminina. O motivo de nunca ter notado é que sempre considerei a Literatura acima das questões de gênero e, se existe algo que me atrai nos livros escritos por mulheres, é que eles são fortes e bem construídos. Não vou minimizar a questão dizendo que as mulheres possuem uma literatura sensível, bonita ou delicada, pois quem diz isto não entendeu nada. No entanto, sei que a literatura feminina não me deixa indiferente e, mesmo quando não me agrada por motivos próprios, possui uma força subterrânea, algo que fica entre a tinta e a folha de papel, algo que inquieta e espreita o leitor. Algo que tem a ver com a própria condição humana.
Assim chego ao problema principal: se a literatura feminina possui caracteres tão fortes, por qual motivo é tão pouco explorada, lida, comentada? Não foram poucas as vezes em que escutei histórias de que mulheres só podem escrever literatura infantil, ou que escrevem de forma sentimental, ou que escrevem sem a mesma “força” que um homem. São visões completamente equivocadas, típicas de quem analisa uma obra não pelo seu valor. Os métodos de análise da qualidade literária que partem do gênero do autor são os mais primários possíveis e, infelizmente, são adotados pelo mercado editorial (também existe o interessante filtro da “idade”, como se um autor jovem e com viço fosse alguém com mais assunto a dizer do que alguém mais experiente).
Observando a minha biblioteca, lembrei do famoso texto de Virginia Woolf sobre a irmã de Shakespeare e pensei em quantas mulheres tiveram que lutar para ter o seu valor literário reconhecido, em quantas usaram pseudônimos, em quantas foram escarnecidas e diminuídas pelo público da sua época. A lista é grande. Mais do que tudo, porém, pensei nas sombras das obras que nunca vieram a conhecer o mundo. Aquelas que morreram ainda na sua intenção, quando alguém, um marido, filho ou pai, disse para a autora parar com “aquelas bobagens”. Aquelas que um editor precipitado recusou-se a ler por vir de uma mulher e disse que “era ruim”. Aquelas que nunca lerei por que o gênero do autor foi mais importante do que a sua qualidade, quando o contrário deveria ser a regra.
Deveríamos mudar os métodos de análise literária e cuidar mais as críticas e as resenhas; ler os livros, parar de ler as pessoas. No título deste texto, fiz um paralelo com “Quem tem medo de Virginia Woolf?”, peça do Edward Albee. Não é completamente descabida a ideia de sentarmos todos em um grande palco e trocarmos ideias livremente sobre a literatura feita por mulheres, sem ranços de gênero, sem discussões inócuas. Acredito que a verdadeira pergunta iria mudar, não seria mais “Quem tem medo da literatura feminina?” e passaria a ser “Do que temos medo quando lemos a literatura feminina?”. Então, sim, teríamos um debate relevante.

 

(Texto original publicado em http://literatortura.com/2014/08/quem-tem-medo-da-literatura-feminina/)

1 comentário

Arquivado em Artigo, Literatortura, Literatura Feminina, Produção Literária, Temas de crítica literária

Uma resposta para ““Quem tem medo da literatura feminina?”, texto publicado no Literatortura em 22/08/2014

  1. Infelizmente, é quase um problema generalizado. Ser “mulher” implica, necessariamente, em não ser “homem”. As características de “força” e “racionalidade” são diretamente associadas ao gênero “macho” e é de uma vergonha de dar dó. Já fui barrada em uma aula de computação (introdução!) por ser mulher, nem me deixaram fazer a inscrição. Na literatura, vejo o mesmo. Uma vez publiquei um texto na pessoa masculina afirmando que era meu, logo disseram “está na cara que é de uma mulher mesmo”, quando publiquei sem informar quem era a pessoa que havia escrito, a reação foi de surpresa ao questionarem “quem escreveu esse texto?”. Vejo que alguns editais para publicação de livros pedem para que a pessoa envie o texto com pseudônimos, é uma maneira de ler a obra sem pensar no autor… Enfim, ainda há muito a aprender.

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