Quatro fragmentos sobre amor

I

Não sou a pessoa mais indicada para escrever sobre amor. É um clichê absoluto. Todos os amores felizes se parecem, mas cada amor infeliz tem a sua própria história. Irrita-me escrever sobre amor. Quando faço (o real, não este falso que se coloca nos livros), é para uma só pessoa. Tenho dezenas de textos de amor que nunca virão ao mundo e nunca chegarão ao seu destino.

Um livro, qualquer um, se sustenta sem amor? Não. Mesmo que falasse a língua dos homens e dos anjos, se o livro não tivesse amor, ele melhor seria se fosse transformado em cinzas, o que talvez explique os pensamentos funestos que tenho em relação aos meus contos recentes.

Em “A Gaivota”, de Tchekhóv, Nina reclama que a peça não tem personagens vivas, não tem ação. “São frases escritas somente para serem lidas. E uma peça precisa sempre incluir o amor…”. Se não existe amor no livro, não existe vida e, sem ela, para que servem personagens? Um livro é um aglomerado de frases unidas pelo amor. Sem ele, são só frases.

Amor não é a única coisa que arde sem se ver. Um livro também pode arder, e nem precisa de chamas. Queima na memória – e no silêncio daquilo que omitiu. No fantasma exorcizado. Uma pira fúnebre também é um ato amoroso. Livros moram na alma, na curva onde a memória encontra o conhecimento, e um livro sem amor é uma excrescência. Prenúncio de cinzas.

Se amar se aprende amando, nada me garante que não estou no meio da lição agora.

 

II

 

Não existe mais desespero, volúpia ou abandono. A hora disto passou. É o primeiro momento da saudade, a recordação que deve ser mantida, o desejo de que o beijo rompa a barreira entre mundos – comece na carne e resvale no espírito.

Ainda assim, há esperança no beijo. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. Os olhos femininos estão fechados, e talvez as pessoas fechem os olhos no momento do beijo para se regozijarem ao abri-los e ver que o outro ainda está vivo, que o beijo os salvou da morte, como um eterno recomeço. A mão acaricia o rosto do homem, sonhando com uma pele que já foi quente. Os lábios se entregam – levanta-te e anda. Levanta-te.

“Você tem bruxaria em seus lábios”, disse Shakespeare. O amor é uma espécie de bruxaria.

 

L'ultimo bacio

L’ultimo bacio

 

III

 

É possível amar uma nuvem, uma espuma, um suspiro? Verlaine diz que sim: criou a mulher feita de neblina e de sonho, que possui a voz de todas e de nenhuma. Pode-se amar alguém que ainda não existe? Sim. O amor pode ser uma espera, uma idealização, a perseguição da sombra que se esgueira por entre paredes.

Pode-se passar a vida toda esperando? O amor não conhece tempo.

A mulher perfeita de Verlaine é uma poesia.

 

O meu sonho habitual

Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.

Porque me entende, e o meu coração, transparente
Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema
Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,
Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.

Será morena, loira ou ruiva? — Ainda ignoro.
O seu nome? Recordo que é suave e sonoro
Como esses dos amantes que a vida exilou.

O olhar é semelhante ao olhar das estátuas
E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda
Inflexões de outras vozes que o tempo calou.

[tradução de Fernando Pinto do Amaral]

 

IV

Não respeita limites. Não tem medo de obstáculos. Pula muros, rouba beijos, desobedece deuses. Justifica-se por si só: aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal, diz Nietzsche.

A esposa é católica, o marido é protestante. Querem passar a Eternidade juntos e, se não for possível partilharem do mesmo terreno como sempre fizeram, basta um toque para saber que o outro está ali, atrás do intransponível muro. Um aperto de mãos e os dois sabem que estão juntos. Amar é um gesto transgressor. A ofensa extrema contra a vida que faz de tudo para exilar os amantes.

Não sou a pessoa mais indicada para escrever sobre amor. Irrita-me. Ainda assim, escrevo e, às vezes, como Pessoa, ouço passar o amor e, só de ouvi-lo passar, sei que vale a pena ter nascido.

 

Graves of a Catholic woman and her Protestant husband, who were not allowed to be buried togethe

 

2 Comentários

Arquivado em Amor, Generalidades

2 Respostas para “Quatro fragmentos sobre amor

  1. Se tivesse o seu email gostaria de lhe enviar uma imagem de uma estátua
    em pedra que muito gostaria de saber o seu autor e o título. É um homem
    nu com outro homem a agarrá-lo e outro mais abaixo. E há uma mulher
    com uma espada.
    Gosto do seu blogue.
    Bj.
    Irene Alves

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