“Nós não somos heróis”, texto publicado no Literatortura em 27/07/2014

Este texto foi publicado hoje no Literatortura (www.literatortura.com). Muitas são as pessoas que, quando sabem que escrevo, perguntam qual o posicionamento político que adoto. Nunca fiz esta pergunta aos meus textos, mas imagino que as respostas deles devem ser impropérios, risadas ou muxoxos de indiferença. Deixo eles livres para que as pessoas pensem o que quiserem, não faço nada com intenção de catequizar alguém. Ainda assim, vejo muitos colegas se jactando de pertencerem a um ou a outro tipo de corrente política… tem de tudo neste supermercado de Deus. Para eles escrevi este texto e, assim como Strauss, assumo que sou uma pessoa sem maiores aspirações. Deixo os meus textos se encarregarem delas.

 

Nós não somos heróis

homem com ziper

Na semana passada, a New Yorker abriu parte dos seus arquivos digitais para consulta pública, permitindo o acesso a dezenas de reportagens e de textos de escritores consagrados. Além de serem bem escritas e exaustivamente pesquisadas, do estilo que o jornalismo atual não tem mais produzido, as reportagens tratam de assuntos essenciais que a superficialidade do cotidiano impede a reflexão.
Entre eles, o artigo “Monument Man”, escrito por Alex Ross (http://www.newyorker.com/culture/cultural-comment/richard-strauss-and-the-american-army?utm_source=tny&utm_campaign=generalsocial&utm_medium=facebook&mbid=social_facebook) conta uma história tão fantástica que é difícil crer que foi real. No dia 30 de abril de 1945, mesma data em que Hitler se suicidou, um grupo de soldados americanos aproximou-se de uma casa em Garmisch-Partenkirchen, na Bavária, com a intenção de levar seus moradores para um centro de triagem. No interior dela, um homem de oitenta anos os esperava, cercado pela família. Ele se identificou como Richard Strauss, famoso compositor de música clássica, responsável por obras como “Salomé” e “Assim Falou Zaratustra”. Ao se deparar com a incredulidade dos recém-chegados, precisando provar quem era, Strauss sentou-se junto ao piano e tocou alguns trechos de “Rosenkavalier”. Reconhecido então, o compositor foi liberado e os soldados partiram.
Alex Ross trata este fato inusitado como a América encontrando a tradição secular da Europa no meio de uma situação de conflito, elogiando a educação dos soldados, capazes de reconhecer e respeitar um rompante de cultura no meio do horror. No entanto, relatando a conversa dos americanos com Strauss, um detalhe se destacou. Um dos soldados, Raymond Berger, confrontou Richard Strauss sobre o motivo pelo qual ele tinha colaborado com os nazistas. Depois de tentar justificar as suas ações, o compositor resignadamente afirmou: “Eu não sou um herói”.
A História não preservou o tom com que esta frase foi proferida, se foi uma constatação triste ou uma afirmativa arrogante. De qualquer forma, a sua verdade é incontestável. Existe uma grande tendência dos artistas de se encararem como heróis, como contestadores, como forjadores de uma nova ordem política e econômica. A realidade é cruel na sua singeleza: não somos heróis e nunca seremos. Somos seres humanos que fazem arte, e nosso único compromisso deveria ser com ela, não com a intenção de passar uma mensagem de luta, mudança ou rompimento de padrões. Quando atravessamos esta ponte, deixamos de ser artistas e viramos panfletos.
O soldado não tinha como saber, mas Strauss não respondeu somente a sua pergunta. O compositor ultrapassou as duas guerras mundiais no seu intervalo de vida, sempre na Alemanha, o centro nevrálgico dos conflitos. Se ainda estava vivo, era exatamente por não ser um herói. Strauss era um sobrevivente: o artista deve sobreviver aos tempos em que vive e às pessoas que lhe cercam, custe o que custar. Deve também resistir à progressiva insanidade que se esconde dentro de cada criação e corrói aos poucos seu desejo de viver, e são muitos que se rendem às drogas, ao álcool ou ao suicídio. Não suficiente, precisa sobreviver à dureza da realidade, que insiste em lhe contrariar e mostrar placas com limites e regras.
Muitas pessoas confundem ser artista com ser ativista. Nada impede que um artista seja ativista, que o diga Federico Garcia Lorca ou Dostoiévski. Qualquer pessoa pode ser ativista, se tiver uma causa em que acredite ou uma realidade que acredite ser capaz de modificar. No entanto, quando o artista entra no campo político para tentar mudar o mundo, sua obra deixa de refletir a sociedade e passa a ser uma paródia das próprias ideias. Jorge Luis Borges era um peronista convicto, mas raramente seus escritos revelam esta preferência ideológica. Julio Cortázar fez vários contos e ensaios apoiando a Revolução Cubana, e a crítica é unânime em considerá-los a parte mais fraca da sua produção artística. Jorge Amado era comunista, depois deixou de ser, e foi sempre lido sob este prisma limitador.
Não sou (tão) louco a ponto de ignorar Aristóteles, que disse que todo homem é um animal político. Fazer arte sem política é tirar o caráter humano dela; entretanto, fazer arte para política não é mais arte, é propaganda subliminar. Muitas pessoas cobram dos artistas a sua posição política ou analisam a obra através deste viés, se ele é conservador, radical ou comunista, ou qualquer outro rótulo. Existe uma cobrança social sobre os artistas, como se eles fossem agentes formadores de opinião, e muitos se encaixam neste papel em busca de aceitação.
Vejo muitas pessoas fazendo obras com intenção de se tornarem heróis, com a vontade utópica de mudarem a sociedade. Não é tendo esta intenção que conseguirão. Neste aspecto, filio-me a Thomas Mann, que buscava não a perfeição literária ou a mudança social através da literatura, e sim a ética da criação. Foi assim que ele disse: “tenho para mim que, via de regra, as grandes obras são resultado de intenções modestas. A ambição não deve estar no começo, não deve anteceder a obra; ela deve crescer com a obra, que pede para ser maior do que previa o artista; ela deve estar ligada à obra, não ao eu do artista”. Quando o artista vai produzir a obra, deve fazer como Henry Miller sugeria, e esquecer de si próprio. Em um mundo cada vez mais preocupado em aparecer e opinar, a maior das ousadias é deixar a arte falar por si própria, afastando os ideais do autor.
Quando Richard Strauss afirmou que não era um herói, ele foi de extrema coragem. Admitir a própria fraqueza é um ato de liberdade. O mundo está cheio de pessoas querendo ser heróis, e nem todo artista precisa ser um. Deve deixar que os heróis se inspirem com as suas obras e as usem da melhor forma que for conveniente. Seu único compromisso ético deve ser com aquilo que está produzindo, jamais consigo mesmo e, quanto mais desejar que a obra lhe sobreviva, mesmo que precise vender a alma para tanto, maior será a sua capacidade de encontrar pessoas capazes de mudar.
Os artistas não devem pensar em salvar o mundo. Seu objetivo é muito maior: devem mudar uma só pessoa, e permitir que ela seja a alavanca que modificará o eixo do planeta. Por este motivo, o artista não deve ser o herói, e sim a espada que o guerreiro carregará consigo.

(Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/?p=18790)

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Arquivado em Artigo, Literatortura, Política, Produção Literária, Richard Strauss, Temas de crítica literária

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