“Meu amigo, o buraco negro”, conto publicado na antologia “É assim que o mundo acaba”, em 2012

Em 2012, era muito forte o boato de que se cumpriria uma profecia maia no final do ano (20/12/2012) e o mundo acabaria.

Acho que o mundo ainda existe, mas não tenho certeza.

A Editora Oito e Meio, do Rio de Janeiro, resolveu fazer uma antologia de contos com a temática do fim do mundo, sabiamente lançada no dia 17/12/2012 (antes da data fatídica, claro). Eu participei com um conto, “Meu amigo, o buraco negro”. Foi divertido escrever sobre um buraco negro amestrado, ainda que eu suspeite mesmo que estava falando era sobre relacionamentos e sobre solidão.

O livro é muito bom, tem contos de excelentes escritores que eu admiro muito, e pode ser adquirido no link da própria editora: www.oitoemeio.com.br/catalogo/page/3/

 

 

 

 

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Meu amigo, o buraco negro

                    Estava fazendo a barba quando percebi, refletido no espelho, um pequeno buraco em meio aos azulejos. Escuro. Não devia ser maior do que a ponta do polegar. Engraçado que eu nunca o tenha enxergado antes. Morando a seis meses de aluguel naquele apartamento, frequentando as aulas do curso de filosofia meio sem saber se queria acabar, trabalhando todo dia em uma empresa de informática, eu entrava no apartamento praticamente para dormir. Nos finais de semana, para compensar o cansaço da rotina, ficava jogado na frente da televisão, trocando de um canal para o outro sem nunca concluir um programa por completo. Não tinha criado vínculo suficiente com aquele apartamento para saber das portas tomadas por cupim, dos desníveis da parede, das marcas de umidade. Não espanta que nunca tenha visto o buraco. Perguntei-me por quanto tempo ele vigiava o que eu fazia no banheiro. O pensamento era desconfortável: senti-me como se tivesse descoberto uma câmara oculta.

Aproximei-me do buraco. Ele era feio, disforme. Representava uma mácula na perfeição dos azulejos beges. No entanto, existia algo fascinante nele. Era um olho aberto no meio do infinito. Coloquei o polegar para tapá-lo e a súbita sucção quase arrancou o meu dedo. Pulei para trás, imaginando que tinha tocado em alguma fiação desencapada. O dedo latejava e eu vi que por pouco não tinha quebrado o osso. Durante o resto do dia, a dor incomodou, em especial quando eu tentava escrever durante as aulas. Contudo, a lembrança do buraco na parede do banheiro era ainda mais perturbadora.

Cheguei em casa e imediatamente fui ao banheiro. O buraco continuava parado, fingindo inocência. Resolvi tapá-lo com papel higiênico. Eu morava sozinho em um apartamento alugado: por que iria me preocupar com aquele buraco a ponto de contratar um pedreiro ou comprar massa corrida para fechá-lo? Enrolei um pedaço de papel higiênico, molhei para que ele ficasse mais firme e o inseri no buraco.

Vutz. O papel foi engolido. Eu recuei. Ao mesmo tempo, o orifício pareceu ficar maior. Pouco maior, é verdade, mas diferente do anterior.

Tinha alguma coisa estranha acontecendo no banheiro de casa. E era um organismo vivo. Não sei como surgiu, e nem me interesso em saber se este tipo de coisa anda à solta pelo mundo. O fato é que eu era o proprietário de um buraquinho. E bem faminto, pelo visto.

Longe de ser inquietante, aquela ideia me comoveu. Não sei explicar direito o motivo. Mas, aquele buraco sem pai, sem mãe, sem amigos, sem namorada, condenado a passar o resto da vida na parede de um banheiro malcheiroso, deixou-me com vontade de chorar. Devo admitir que ele possuía um estranho charme, uma capacidade de atrair o olhar mesmo sem querer, uma postura misto de indiferença e interesse. Além disso, parecia me acompanhar com o seu olho negro e único, fazendo-me sentir a razão da sua existência.

Por este motivo, decidi adotar o coitado. Alguns possuem animais de estimação, outros vasos de flores; eu teria um buraco. Não morava com ninguém no apartamento, não tinha namorada, passava o dia todo no trabalho e na faculdade. Seria legal ter um companheiro, alguém com quem pudesse dividir os pensamentos, um buraco que pudesse engolir os meus dramas e pequenas alegrias em silêncio. Todos os dias de manhã, eu tomava banho ao mesmo tempo em que conversava com o buraco. Fazia o café na cozinha e o levava até o banheiro, recostando-me na pia enquanto comentava as notícias do futebol, as frustrações amorosas, os problemas que enfrentava com alguns professores da faculdade. Ele era extremamente compreensivo; em alguns momentos, talvez por causa dos ângulos da luz, eu identificava compaixão no seu profundo, mas era uma impressão tão rápida que logo desaparecia. Eu sentia como se o buraco – e a imensidão negra que existia por trás dos seus limites tímidos – fosse capaz de absorver todo o meu desconforto, dar um sentido para o vazio absoluto que era a minha rotina.

O buraco podia manter-se quieto, mas não estava parado. Às vezes, o pó de azulejo no chão sugeria que ele tivesse comido algum pequeno pedaço da parede, crescendo um pouco. Com o polegar, eu já era incapaz de fechá-lo, necessitando talvez de uma mão espalmada. Contudo, a lembrança do ocorrido com o polegar ainda me impedia de cometer outro deslize.

Certo dia, estava conversando com o buraco quando vi uma barata entrar no banheiro. Não tinha nada que pudesse usar para matá-la e, por este motivo, fui até o quarto procurar o chinelo. Ao retornar, percebi que a barata escalava com lentidão a parede do banheiro, indo na direção do buraco. Nunca tinha visto tal cena: ele parecia lamber a barata com promessas lúgubres, atraindo-a com a sabedoria do pescador que enlaça um peixe impossível. Quando a barata chegou na beira do buraco, foi tragada com volúpia. A ausência de som foi aterradora. Contudo, o que me deixou mais impressionado só descobri algumas horas depois, durante uma aula sobre Habermas: a barata não questionara o seu destino. Ela simplesmente desistira. Era de se esperar que qualquer ser tentasse preservar a vida, não marchar para o desconhecido com passos resignados. Estar por perto da presença negativa do buraco drenava a vontade de viver.

Vendo que o buraco gostara de se alimentar, no dia seguinte eu trouxe um sanduíche para ele. Coloquei na sua proximidade e o sanduíche foi arrancado da minha mão, indo para a escuridão eterna que espreitava os cantos do meu banheiro. Continuei conversando com ele e era uma sensação boa. Nunca tinha desenvolvido muitas amizades. Sempre fui uma pessoa fechada ou, como as outras pessoas gostavam de dizer, um esquisito. Travar um relacionamento com o buraco me fizera notar o quanto eu sentia falta de conversar com outro ser, mesmo que fosse uma criatura sem alma que se alimentava de insetos e sanduíches. Eu era mais sozinho do que imaginava e, por mais paradoxal que possa parecer, o buraco preenchia um grande espaço na minha vida.

Não lembro quanto tempo levou, mas era evidente que, um dia, o buraco ia se cansar da dieta de sanduíches. Ele estava enorme, tinha engordado um pouco. Tomava o formato de um corpo humano; eu via a cabeça se desenhando, os braços destacando-se do tronco, a divisão instável das pernas. Não podia comentar com ninguém sobre aquele vazio que estava tomando forma na minha casa, mas tinha curiosidade em imaginar como seria depois que ele se formasse. A nossa amizade continuaria? Viraríamos estranhos? A expectativa era imensa. Talvez a distração com que eu caminhasse por aqueles dias fez com que, ao retornar do armazém, só visse o gato da vizinha quando ele estava no meio da sala. Sem mover um centímetro para o lado, os passos mansos o levavam para o banheiro. Gostaria de dizer que antevi o que ia acontecer, mas permaneci estático, vendo o gato caminhar até o buraco, deter-se na frente e, do nada, ser puxado com força para o seu interior.

Corri até o banheiro. Não havia mais nem vestígio do gato. O buraco parecia lamber os lábios escuros, com a satisfação de quem comeu uma bela refeição. Gritei com ele, não devia ter feito aquilo! A sombra que se espalhava por entre os azulejos me encarou em silêncio, soturna. Apesar de não emitir resposta, senti que não estava contente com a minha recriminação. Mais infeliz estava eu: não podia perder o buraco. Ele era o meu melhor amigo, a namorada que nunca tivera. E se ele sumisse do apartamento e fosse para outro local? A bronca acabou encerrada com trêmulos pedidos de desculpa.

Naquela noite, não consegui dormir. Estava tão agitado que acabei indo para o único local da casa que me acalmava: o banheiro. No meio da escuridão da noite, o buraco tinha uma negritude diferente, ele parecia ser mais escuro do que a própria inexistência de luz. O buraco era o vazio, era o nada. Ele se alimentava da escuridão da mesma forma com que comia baratas, sanduíches e gatos. Encostado na pia, eu o encarei fixamente e nunca me senti tão próximo do ser que estava do outro lado. Seria Deus? Uma dimensão paralela? Ou será que existia outro eu por trás daquele espelho distorcido? Com um gosto ruim na boca, lembrei das palavras de Nietzsche: quando você olha para dentro do abismo, ele olha para dentro de você. A questão é: o que o abismo estava vendo?

Na manhã seguinte, meu sono foi despertado pela vizinha. Ela estava procurando o gato. Parada na porta, a mulher de roupão lançava olhares longos para dentro do apartamento. Pensei em afastá-la, pensei em fechar a porta na sua cara, salvá-la, mas sabia que não era possível. O buraco estava com fome, e esta nunca mais ia acabar. E o que um amigo pode fazer para outro, a não ser ajudá-lo? Convidei a vizinha a entrar e fui buscar uma xícara de café. Da porta da cozinha, vi o banheiro cantar o seu cicio hipnótico. Com passos vagarosos, a vizinha dirigiu-se até o buraco. E eu não mais a enxerguei.

Ela foi a primeira pessoa que se abandonou ao abismo. Nos outros dias, mais pessoas começaram a surgir. No início, eram viciados em drogas, alcoólatras, fugitivos da polícia. O buraco chamava aqueles que estavam mais próximos dos seus limites. Ninguém sabia o que estava indo fazer no apartamento. O chamado vinha e era invencível.

Contudo, antes de entrar no banheiro, por uma questão de cortesia, os recém-chegados sentam na minha sala e contam as suas vidas. Eu sirvo chá, às vezes bolachas. A proximidade do fim faz com que eu ouça as piores confissões, pois não há mais nada a perder escondendo a verdade. Não forneço julgamentos ou opiniões; limito-me a escutar. Alguns esperam um perdão ou uma maldição que não cabe a mim conceder. Outros me dão dinheiro, com o qual mantenho a minha vida. Larguei a faculdade de filosofia; aprendi mais sobre o homem escutando as suas naturezas mesquinhas do que uma aula pode ensinar. Tendo dito os segredos que estavam engasgados há muito tempo, as pessoas vão até o banheiro e o buraco as faz contemplar a própria eternidade.

O movimento tem se tornado cada vez mais intenso. Está ficando difícil encontrar uma hora vaga para descansar. Os vizinhos que reclamavam da fila no prédio sumiram no buraco há muito tempo.

Hoje, dou muita risada quando vejo na televisão anúncios de que o mundo vai acabar por causa do aquecimento global, de uma guerra nuclear, da queda de um asteroide. O mundo já está acabando, um punhado de cada vez. O buraco está liquidando com a humanidade, um por um, até que não reste mais ninguém. Não se preocupe, amigo ou amiga: quando você vier na minha casa, terei o chá lhe esperando, os biscoitos no pote e os ouvidos prontos para escutar os seus pecados. Será o nosso pequeno encontro em Samarra.

Quando o buraco acabar de devorar com as pessoas, vai começar a engolir prédios, árvores, casas, oceanos. Por fim, quando não restar mais nada no mundo, talvez ele lembre do seu único amigo. Neste momento, virará para mim os seus olhos eternos e, talvez, eu então entenda que nunca existiu um buraco, que eu – e somente eu – sempre fui o buraco negro.

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