Ontem morreu um poeta

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Ontem morreu um poeta.

Eu não o conhecia. Não pessoalmente, mas li seus versos, o que é ainda melhor do que conhecer alguém. Conversamos duas vezes, a primeira por motivos acadêmicos e, na segunda, ele mostrou as suas poesias. Eram boas. Fortes. Viscerais. Tinham que ser trabalhadas, mas o que não precisa ser? Assim como eu, ele admirava os sonetos. E calculava as sílabas poéticas, o que é um anacronismo nestes tempos de versos fáceis tão semelhantes a slogans publicitários.

Eu disse para ele prosseguir escrevendo. O poeta disse que precisava se encontrar. Não resistiu ao encontro.

Ontem morreu um poeta, mas todos os dias morrem poetas ao redor do mundo. Alguns tiveram a felicidade de encontrar a própria voz, outros consumiram a vida esperando que ela surgisse. Alguns foram publicados ou lidos, a grande maioria preferiu o silêncio. Existem aqueles que mataram a poesia antes que ela conseguisse sair e aqueles que preferem morrer como poetas silenciosos, anônimos.

Quando um poeta morre, para onde vão as poesias que estavam dentro dele? Prefiro pensar que se libertam pelo mundo, procurando pessoas sensíveis, o que implica em dizer que ainda respiramos as poesias de Shakespeare, de Camões, de Petrarca. Que, por sua vez, também respiraram outros poetas, e assim por diante, até chegarmos à misteriosa origem, o dia em que alguém sentiu algo maior crescer dentro de si e precisou libertar.

Não acredito que as poesias se percam para sempre. Não posso admitir que, quando um poeta morre, todo o universo que estava no seu interior desapareça junto. Imaginar isto é imaginar um mundo em que a poesia morre aos poucos, uma gota de cada vez.

As pessoas só morrem quando permitem que a morte se aproxima. A morte de um poeta não existe enquanto existir poesia. Lembro aqui do poema do Yeats, que gosto tanto:

Death

Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone –
Man has created death.

Um poema de Yeats em que a tradução do Péricles Eugênio da Silva Ramos faz plena justiça ao original:

Morte
Medo não tem, nem esperança,
Um animal a agonizar:
Aguarda um homem o seu fim,
Tudo a temer, tudo a esperar;
Já muitas vezes morreu ele,
As muitas vezes retornando.
Em seu orgulho, um grande homem,
Homens que matam enfrentando,
Sobre a substituição da vida
Atira um menosprezo forte;
Sabe ele a morte até os ossos
– Foi o homem quem criou a morte.
Se o homem criou a morte, cabe a ele também descriar. Por isto, ontem não morreu um poeta. Enquanto estivermos lendo, escrevendo e sentindo poesias por aí, ele estará entre nós. Uma dinastia de poetas fantasmas que dão sentido a este mundo onde impera o absurdo.

2 Comentários

Arquivado em Generalidades, Morte, Poesia, Yeats

2 Respostas para “Ontem morreu um poeta

  1. Que belo texto. Profundo. Vale ser lido, relido, re-relido.
    Não conhecia este poema de Yeats; gostei.
    Abraços. Avante.

  2. P.

    Texto magnífico. Nós, que conhecíamos o poeta, agradecemos.

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