“O que fazer com escritores babacas”, texto publicado no Literatortura em 02/07/2014

Texto novo meu que foi publicado no Literatortura (www.literatortura.com). Uma dúvida recorrente: como separar o autor da obra?

 

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Meus amigos costumam mandar reportagens sobre assuntos literários e, nesta semana, enviaram um texto curto, mas com uma proposta interessante, chamado “When your favorite writer is an asshole” (http://observationdeck.io9.com/when-your-favorite-writer-is-an-asshole-1597540312), que, em uma tradução livre, poderia ser “Quando o seu escritor favorito é um babaca”. Ainda que não tenha sido assinado, e apesar de possuir conclusões simplistas demais, é um assunto que merece alguma reflexão. Como lidar com o fato de que alguns dos escritores que admiramos tenham sido ou sejam pessoas desprezíveis é uma das dúvidas mais recorrentes dos amantes da leitura.

Um dos escritores que mais respeito é Charles Dickens. Sua obra sempre me soou como o ideal mais próximo da perfeição literária. No entanto, alguns anos atrás, quando escutei em um Congresso de Letras a história de vida dele (nunca tinha me interessado em saber antes), tive vontade de sair correndo da sala ou de fechar os ouvidos. Não acreditava que o autor que tanto admirava, um homem capaz de pintar as emoções humanas com a maior clareza possível, fosse também uma criatura tão pérfida com a própria esposa. Como poderiam coexistir dentro da mesma pessoa duas naturezas tão distintas?

A partir deste momento, a caixa de Pandora se abriu e destilou horrores sobre alguns dos meus autores favoritos. Lovecraft era racista. Diziam que Lewis Carroll era um pedófilo. Hemingway, um apreciador inveterado de touradas e um machista. Tolstói, um fanático religioso. Também acabei descobrindo boas pessoas onde menos esperava, mas a grande maioria eram seres repletos de falhas de caráter, fracos e de moral corrompida. Homens e mulheres que, apesar da sua podridão, fraqueza e questionamentos internos, tinham trazido para o mundo obras de ampla beleza.

Foi uma época em que mergulhei fundo nas biografias dos autores e deixei de lado as suas obras. Cada descoberta, cada suposição, cada detalhe escabroso que vinha à tona fazia a lembrança da obra empalidecer e até sumir. Constatei ser impossível ter a mesma leitura inocente de antes. A vida privada dos autores estava atrapalhando o legado que eles tinham deixado. Comecei a achar toda a literatura como um exercício de cinismo, em que pessoas desqualificadas moralmente tentavam mostrar para os outros toda a beleza que não possuíam. E não era uma característica da literatura. Espalhava-se também por outras formas de arte, pela música, pela dança, pela pintura, pela escultura. Chegou um momento em que acreditei que toda arte digna de valor só podia nascer de um espírito conturbado ou de uma moral distorcida.

No meio da mais profunda decepção, entendi que analisava da forma errada. A figura do autor nunca deve se equiparar ou suplantar a da sua obra. Colocar o ser humano na frente da sua criação era pedir uma análise redutora, pois o objetivo de toda arte era transcender e transgredir os limites que a consciência do artista tinha gerado. A obra se desgarrava do seu autor e possuía vida própria.

Com o passar do tempo, aprendi que existia inclusive toda uma vertente de crítica literária que pregava “a morte do autor”, com as ideias do Roland Barthes de que “a escrita é a destruição de toda a voz, de toda a origem”. Ele dizia que procurar o homem por trás do texto era um reflexo do positivismo e, como tal, visava justamente enaltecer a pessoa por meio da sua produção intelectual. O autor não devia ser a chave de decifração de qualquer texto literário. Barthes chegou a criar a figura do Scriptor, o ser que nasce com o texto e morre assim que ele entra em circulação, uma figura sem passado, sem futuro e sem motivações ideológicas, um ente desvinculado do autor, o qual seria somente o instrumento por meio do qual o Scriptor falaria ao mundo.

A “morte do autor” é uma teoria que teve seu apogeu, mas, nos tempos atuais, encontra-se mais relativizada. Ao contrário do pensado, não se pode abstrair por completo da figura humana em um texto literário, senão acabaremos deixando a literatura nas mãos de robôs. Contudo, no momento em que vejo escritores indo para os jornais ou para a televisão falar das suas vidas ao invés das suas obras, pergunto-me se não seria bom retomar partes desta teoria. Foi criado um estranho círculo vicioso: para vender livros, não basta mais escrever material de excelente qualidade, é necessário vender igualmente a figura do autor como um produto.

Um dos mais antigos assuntos da Literatura é a formação da verossimilhança interna: o autor pode fazer qualquer absurdo no seu texto, desde que, nos seus limites, ele faça sentido. Creio que a mais ancestral das perguntas seja “você viveu o que está na história?”. Todos os autores passam por isto, cedo ou tarde: familiares que pensam terem sido retratados, companheiras(os) que possuem ciúmes de personagens, leitores que imaginam estar lendo uma confissão ao invés de uma ficção. Reflexo de que a verossimilhança do texto funcionou tão bem que, para o leitor, ele é verdadeiro. Por outro lado, é uma prova de que as pessoas confundem o texto com o seu autor, procurando ver nele elementos que deixam a história o mais próximo da realidade possível.

Não acho algo ruim. O que o leitor pensa ou os mecanismos que cada um utiliza para dar verossimilhança ao próprio texto não são objeto de controle. Realmente irritante é quando autores utilizam a própria vida para conceder maior consistência ao texto literário, tentando dar maior qualidade ao que escreveram vinculando às suas vivências. Isto é não confiar no próprio texto, é acreditar que, para caminhar nas livrarias e bibliotecas e ser lido, ele precisa de um anteparo no mundo físico. É transformar a literatura em uma grande “Ilha de Caras”.

Não quero entender o homem que fez a obra, prefiro ler o livro e tentar interpretá-lo de acordo com a minha vivência. Por isso, ao me deparar com a frase, “quando o seu escritor favorito é um babaca”, pergunto-me “e quem não é um pouco babaca?”. Em seguida, ingresso no livro e vejo o quanto a sua história me seduz. Pois eu leio o livro não por causa do autor, mas apesar dele existir. Sou o único autor das minhas leituras.

(Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2014/07/o-que-fazer-com-os-escritores-babacas/)

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1 comentário

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Uma resposta para ““O que fazer com escritores babacas”, texto publicado no Literatortura em 02/07/2014

  1. Pois é! Por conta de separar “criador da criatura”… continuei fã dos livros de Monteiro Lobato 🙂

    Gostei do texto!

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