As palavras cansadas

* imagem de Hussein Zare

* fotografia de Hussein Zare

“Cansei de falar e de avisar ele, doutor. Sabe como é, as palavras também se cansam.”

Não, eu não sei como é. A cliente vai embora e me deixa com este problema: palavras se rendem ao desespero? Elas desistem de ter sentido e se tornam uma massa amorfa de sons ou sinais? Palavras cansam de ter esperança?

Sempre acreditei na força das palavras. Acredito que o mundo só pode mudar através delas. Acredito que uma palavra sempre tem algo a dizer, mesmo quando não queira dizer nada. Acredito que as guerras nascem por causa da sua capacidade de erigir fogueiras nas consciências humanas. Acredito que sentimentos iniciam e acabam com palavras. Acredito que, antes de tudo, veio o Verbo, e somente através dele o mundo conseguiu se articular.

Ainda assim, entendo que as palavras possam cansar. Todos os dias elas são vergastadas e abusadas em praça pública. O mundo inteiro fala demais e ao mesmo tempo. Ninguém procura a palavra exata, aquela que diz tudo sobre uma situação, acreditando que a enxurrada insana de termos acabará passando a ideia. Basta ler os textos que trafegam pelo nosso dia a dia ou prestar atenção na conversa das pessoas que ficará nítido que são utilizadas muitas palavras para passar uma ideia simples.

Para Gustave Flaubert, o ideal de qualquer escritor era buscar “le mot juste” (a palavra justa). A expressão exata que fecha com o pensamento. A palavra que precisa estar ali a qualquer custo e não pode ser substituída sem a perda irreparável do que deseja transmitir. Pena que, nos tempos atuais, as pessoas não procuram mais as palavras exatas, e sim buscam se comunicar bastante e com um certo frenesi. Somos criaturas cheias de palavras, se derramando impunentemente por aí.

Não surpreende que as palavras estejam cansadas. Elas não têm a mesma força que possuíam décadas atrás. Foram vulgarizadas até o extremo.  Procuram a ajuda de outros idiomas para se manterem respirando. Caminham pelas ruas e pelas casas atrás daqueles poucos que respeitarão a sua força, que tirarão o máximo de sentido da sua extensão e do seu som, que lhe darão novo oxigênio. Que lhe ressucitarão do mundo das palavras desperdiçadas.

A poesia é o último refúgio da palavra. Somente poetas sabem o valor que elas possuem, a capacidade de abrir portais no meio do deserto, a habilidade que mescla som e substância. Como neste poema da Alfonsina Storni, que trata exatamente da capacidade das palavras de cortarem as estrelas:

Dos palabras

Esta noche al oído me has dicho dos palabras
Comunes. Dos palabras cansadas
De ser dichas. Palabras
Que de viejas son nuevas.

Dos palabras tan dulces que la luna que andaba
Filtrando entre las ramas
Se detuvo en mi boca. Tan dulces dos palabras
Que una hormiga pasea por mi cuello y no intento
Moverme para echarla.

Tan dulces dos palabras
—Que digo sin quererlo— ¡oh, qué bella, la vida!—
Tan dulces y tan mansas
Que aceites olorosos sobre el cuerpo derraman.

Tan dulces y tan bellas
Que nerviosos, mis dedos,
Se mueven hacia el cielo imitando tijeras.
Oh, mis dedos quisieran
Cortar estrellas.”

Enquanto existirem poetas, as palavras nunca cansarão de sorrir.

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