“O leitor não tem direitos”, texto publicado no Literatortura em 23/06/2014

Tenho uma coluna no site do Literatortura (www.literatortura.com) e este texto foi originalmente publicado lá:

homens amarrados

 

O leitor não tem direitos

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, é muito fácil me irritar. Existe uma lista de assuntos que escondo cautelosamente, capazes de me transformar no mais irascível e rabugento dos seres humanos. Não brigo por política, por religião, por futebol, por nenhum destes temas que geram debates tão interessantes. No entanto, basta tocar em um dos meus calcanhares de Aquiles e sinto a raiva transbordar dos poros como um rio invencível.

Em um congresso de Letras recente, qual não foi a minha surpresa quando o palestrante cruzou as pernas e, com ar de absoluto domínio teórico, começou uma longa explicação sobre “os direitos do leitor” em oposição às possibilidades da Literatura, de como o autor deve observar “os direitos do leitor” antes de qualquer coisa. Juro que tentei me controlar, mas não consegui. Uma sequência de pergunta minha, resposta dele e réplica minha incendiou o clima. A coordenadora da mesa encerrou o debate justo quando eu estava esquentando as baterias.

Direitos do leitor? As pessoas estão realmente falando sério com esta expressão?

Antes que me acusem de pré-julgamento: sim, eu conheço estes tais de “direitos do leitor”. Comprei o livro do Daniel Pennac, “Como um romance”, e, sim, eu o li. Em um determinado momento, o autor esculpe os supostos “direitos”, dez regras que todo leitor teria quando se depara com um livro. Recuso-me a transcrevê-las por que, além de serem de uma obviedade constrangedora, ainda possuem defeitos lógicos em que uma regra consegue anular ou conter outra. Ele não é o primeiro ser que pensa que a complexidade humana pode ser sintetizada em algumas leis simples; ora, até Deus caiu neste clichê quando fez os Dez Mandamentos. Do alto da sua experiência como professor, Daniel Pennac sintetizou o motivo pelo qual alguns livros agradam e outros não, concedendo ao leitor a chave para o sucesso ou o fracasso de alguma obra.

O leitor não tem direito nenhum. E ainda bem! Acaso tal absurdo acontecesse, ainda estaríamos “lendo” desenhos nas paredes das cavernas. Fico imaginando um mundo em que o autor formatasse seus livros para seguir o desejo do público. Seriam livros completamente insípidos. Romeu e Julieta não poderiam morrer; Heitor sobreviveria ao combate com Aquiles e os gregos iriam embora; Werther jamais se suicidaria e seria considerado um rapaz extravagante, percorrendo as ruas com suas roupas estranhas; Riobaldo descobriria o mistério de Diadorim e, por amor, largaria a travessia do Sertão para morar em alguma fazenda. Se aceitarmos que o leitor possui o direito de se acomodar na leitura e seguir seus gostos, ou que pode pular frases, páginas e capítulos (sim, até parece que, quando um autor escreve, ele coloca algumas frases sem sentido para o leitor desistir ou cansar do livro, tudo que está ali tm um motivo), também teríamos que aceitar que a Literatura não é uma forma artística que gera desconforto e reflexão, mas sim uma gostosa maneira de iludir os outros e ganhar um dinheirinho por meio de truques.

O leitor não sabe o que quer. Se soubesse, não estaria procurando nos livros. Para mim, existem poucas imagens melhores para a leitura do que “A biblioteca de Babel”, do Borges: um local onde estão todos os livros escritos e por serem escritos, em que cada livro corresponde a uma pessoa. Quando entramos em livrarias e bibliotecas, inconscientemente procuramos este livro em específico que tem a nossa história, aquela que não conseguimos contar com palavras. O drama é que, mesmo se a encontrarmos, continuaremos procurando outro livro na biblioteca infinita, achando que a história perfeita pode estar sempre no próximo, ou no próximo ainda. Como os leitores farão esta descoberta se tiverem o direito de desistir a qualquer momento ou de intervir na leitura? Nem sempre as histórias são agradáveis ou confortáveis; às vezes, precisamos atravessar um deserto de dores por 40 anos, com a promessa da Terra Prometida que nunca chega e está sempre no horizonte, zombeteira. Às vezes a história desejada não existe, e a busca por uma miragem é melhor do que a realidade.

No momento em que um autor prioriza o prazer que o leitor deve retirar da leitura ou escreve com a intenção de deixar um livro palatável, toda a Literatura se esvai. Não se pode dar ao leitor o poder de dizer o que é bom de ler. Ele é somente uma das partes da equação literária, formada por autor, obra e público, e está longe de ser a mais importante, até por que pode ser facilmente iludido por quem deseja ganhar um dinheiro fácil usando as suas emoções. Quem diz isto não sou eu, é o Schopenhauer:

“Os honorários e a proibição da impressão são, na verdade, a perdição da literatura. Só produz o que é digno de ser escrito quem escreve unicamente em função do assunto tratado. Seria uma vantagem inestimável se, em todas as áreas da literatura, existissem apenas alguns poucos livros, mas obras excelentes. […]. A condição deplorável da literatura atual, dentro e fora da Alemanha, tem sua raiz no fato de os livros serem escritos para se ganhar dinheiro. Qualquer um que precise de dinheiro senta-se à escrivaninha e escreve um livro, e o público é tolo o bastante para comprá-lo. A consequência secundária disso é a deterioração da língua.”

Schopenhauer pensa que o problema é o escritor que, diante da necessidade de sustento, produz qualquer coisa para agradar ao seu público. É algo mais frequente do que se imagina: escritores que fazem sempre o mesmo livro mudando somente a ordem das palavras, confiantes de que o leitor não verá o engodo. Eis o perigo de se dar poder aos leitores: é acreditar que a lista dos mais vendidos concentra os melhores livros ou que a vox populi é dotada de sabedoria.

Nesses tempos em que o politicamente correto impera, é muito bonito dar direitos para o leitor e considerá-lo não só o destinatário maior de qualquer obra, mas a razão de ser da sua existência. Muito bonito, mas pouco prático. Não bastando não saber o que deseja, o leitor também é mal intencionado (com todo o respeito, leitores, mas saibam que também me incluo nesta constatação). Ele começa a leitura buscando o prazer e, como uma criança mimada, exige ser satisfeito até o final. Se o autor dá a história que ele deseja, o leitor fica e, se continuar seguindo a produção do autor, vai exigir mais histórias iguais. Outros mentirão que gostaram. O erro é acreditar que, se o leitor tem direitos, ele é um bom leitor. É muito difícil de acontecer, pois os leitores são seres humanos e, como tal, igualmente falíveis. Em uma carta, Tchekhóv dá a sua opinião sobre o público:

“Escrever para este contingente não vale a pena, assim como não vale a pena dar flores para quem está resfriado cheirar. Há momentos em que fico completamente desanimado. Para quem e para que escrevo? Para o público? Mas eu não o vejo e acredito nele menos que no domovói; não tem instrução, é mal-educado e seus melhores elementos não tem consciência e são hipócritas para conosco. Se sou ou não necessário a um público desses, eu não consigo entender. Buriénin diz que não sou e que me dedico a bobagens, mas a Academia me deu um prêmio – nem o diabo consegue entender.”

Ao contrário do Daniel Pennac, não só acredito que o leitor não tem direitos, como também penso que só existem deveres no fazer literário: o autor tem o dever de desafiar a Literatura em cada mínima frase, a obra tem o dever de corresponder à intensidade do desafio proposto e o leitor possui o dever inafastável de, por meio das palavras de outrem, tentar atingir o sublime que mora no seu interior. Se não existirem estas três vontades, seria um favor que o leitor nem perdesse o seu tempo argumentando direitos que, em última análise, não passam de preguiça e de desculpas para a sua própria incompetência como leitor.

 

Publicado no Literatortura (http://literatortura.com/?p=18077)

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1 comentário

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Uma resposta para ““O leitor não tem direitos”, texto publicado no Literatortura em 23/06/2014

  1. Silvana

    Concordo com você que os escritores não tem que escrever conforme seu público. Mas os “direitos do leitor” de Pennac não são a dessacralização da leitura? Não é tirar o peso da obrigação de ler um livro? Pelo menos para mim aqueles mandamentos foram libertadores. Na minha opinião, o leitor tem “direito” à preguiça também, afinal, ler é para ser um prazer, não uma tortura. De qualquer forma, é só minha opinião. Muito bom seu texto.

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