Amar os besouros, e não somente a rosa

 

Estou lendo um livro interessantíssimo, chamado “A malícia de Heródoto”, do Plutarco, tradução de Maria Aparecida de Oliveira Silva (vou colocar o link: http://www.edusp.com.br/detlivro.asp?ID=413667). Não entrarei em detalhes para não causar sono, mas Plutarco leu a “História” do Heródoto e, indignado com algumas decisões do “Pai da História”, resolveu escrever uma resposta, mostrando todas as omissões e preconceitos que tinham ficado subentendidas no texto original, em especial a mania de Heródoto de diminuir os lacedemônios por causa do seu apoio aos atenienses.

É um texto inteligente, irônico e que flui ao natural, pois Plutarco compara a versão de Heródoto com a realidade, sempre demonstrando como ele resumiu as partes que não interessavam para a sua tese e como amplificou outras em que os lacedemônios apareciam como vilões ou de forma pejorativa.

Impossível não concluir que a História é produzida não só pelos vencedores, mas também pelas pessoas que sabem escrever de forma hábil e insinuar-se dentro do texto.

Mas é no final, literalmente nos estertores do texto, que Plutarco “perdoa” Heródoto e demonstra grandeza de espírito, quando afirma:

“O que então? O homem é hábil escritor, seu discurso é agradável, há graça, engenho e elegância em suas narrativas. ‘Como o aedo ao mito com sabedoria’, não, profere com harmonia e sutileza. Sem dúvida, tais coisas seduzem a todos com tranquilidade e encanto, mas tal como entre rosas é preciso vigiar os besouros, também é sua difamação e seu maldizer, insinuados por meio de agradáveis e delicadas exposições, para que não nos escapem ao encontrarmos os absurdos e as mentiras sobre as cidades e os homens mais nobres e importantes da Grécia”.

No meio das rosas, que são o próprio livro “História”, existem besouros – as posições políticas de Heródoto ou, em última análise, o próprio autor – que não prejudicam a beleza do texto ou a sua importância. As pessoas podem ler o livro e ignorarem as partes “feias” ou podem se concentrar naquilo que não gostam e esquecer a porção “bela”. No entanto, para Plutarco, o ideal é saber que as rosas não existem sem os besouros, e a recíproca também é verdadeira.

Nos tempos atuais, as pessoas ou se encantam com as rosas ou insultam os besouros. Não existe mais o meio termo, achar que ambos podem coexistir dentro do mesmo objeto. Virou tudo ou nada, e é assustador perceber como as pessoas são capazes de ficarem cegas de forma intencional e desconhecerem que, mesmo dentro do belo, existem partes feias ou que um conjunto de partes feias também podem criar a beleza.

Eu não acredito no 100% de nada. Não acredito sequer que a realidade é 100% real. Da mesma forma, não creio que exista uma perfeição acima de qualquer dúvida, pois a perfeição é constituída também de pequenas imperfeições. Admitir que existem partes feias dentro da beleza absoluta não é tornar algo feio, muito pelo contrário: é deixá-lo ainda mais belo.

O que mais existe nos dias de hoje são textos repletos de argumentos. Em geral, eles tentam provar que um lado é melhor do que o outro. São cheios de ironias, de mordacidade, de palavras fortes, de imagens poéticas que tentam evocar sentimentos de repúdio ou de prazer. Ao mesmo tempo em que dizem que são as rosas mais lindas e puras do jardim, querem demonstrar que o outro lado são besouros fétidos que nunca tocaram nas fímbrias da beleza.

Quando leio reportagens em que homens ou mulheres afirmam o desejo de mudar a outra pessoa para encaixá-la nos seus padrões de beleza, recordo de uma palestra que dei recentemente para crianças, em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul. Estávamos falando sobre “O médico e o monstro”, do Stevenson, e a menina perguntou o que era melhor, ser o Dr. Jekyll, uma criatura beatífica e acima de qualquer impureza, ou o Mr. Hyde, um homem repleto de maldade e com os instintos à flor da pele? A minha resposta é (creio) aquela que o Stevenson gostaria de ouvir: o ideal é saber dosar o lado bom e o lado ruim, pois um é importante para que o outro exista.

O mesmo vale para os relacionamentos. As pessoas perdem muito tempo olhando rosas ou procurando besouros. O importante é saber que os dois coexistem na mesma pessoa e, se um for retirado, toda a essência do sentimento se perde. Deveríamos manter o enfoque nas virtudes, mas sem esquecer que também existem defeitos.

Plutarco passa quase 100 páginas desancando a obra de Heródoto e insistindo que as ideologias do autor contaminaram a sua isenção narrativa. No entanto, mesmo vendo tanto besouros, ele consegue ainda admirar a estrutura da rosa. Esta é a maior qualidade de um grande homem: saber que pode respeitar o opositor sem perder as suas próprias convicções. Amar a rosa não por ela ser rosa, mas sim por causa dos besouros.

rosa sombria

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Arquivado em Filosofia, Generalidades, Heródoto, Parasitas, Plutarco, Rosa

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