Às ruínas que um dia seremos

Há uma semana que penso em hipopótamos. A lembrança deles me persegue: em cada caminhada, em cada conversa, em cada responsabilidade que a vida coloca em meu caminho, os hipopótamos me espreitam com seus olhinhos maléficos e o corpo escondido pela água.

Eu sei que não devia assistir aos programas de canais de televisão como o NatGeo ou o Discovery Channel. São programas sombrios, onde até mesmo a redenção ou a vitória é enganadoramente cruel.

Mesmo assim, assisti a um documentário sobre hipopótamos. Anos atrás, li “Congo”, do Michael Crichton, no qual ele comenta que, dos animais que habitam o mundo selvagem, os hipopótamos são os mais perigosos. Eles atacam sem motivo, gostam de usar a noite para se aproximarem de barcos e os virarem na água e também possuem uma estranha predileção em usar sua bocarra para estraçalhar qualquer coisa que fique no seu caminho, inclusive carne humana. São velozes dentro da água e espantam pela velocidade fora dela; ninguém gostaria de ter pela frente um inimigo sedento por sangue e que tenha algumas toneladas de pura raiva e crueldade.

Neste programa, detalharam o ritual de acasalamento dos hipopótamos. Como vários animais, as fêmeas se agrupam ao redor de um macho dominante, seu dono e senhor absoluto. À medida em que envelhece, o chefe do clã é desafiado por outros machos interessados em tomar o seu lugar. Até o dia em que chega o macho que irá lhe derrotar.

Primeiro, eles brigam. Usam as bocas e os corpos para se agredirem. No caso do vídeo, a luta levou quase 40 minutos de cabeçadas, mordidas e empurrões. Começou na água e terminou na terra, e era um espetáculo de lama e de fúria à medida em que os dois animais se jogavam um contra o outro.

Mas o macho está envelhecido, e a hora da derrota chegou. Cansado, ele acaba caindo, reconhecendo que o outro hipopótamo triunfou. No entanto, a sua humilhação ainda não acabou. Ele precisa ser aniquilado, física e moralmente.

Por isto, o primeiro ato do hipopótamo vencedor é VIOLENTAR o macho derrotado. Sim, pois é. Sobe nele e o cavalga, e o vencido não tem forças para resistir à violação. Assistido pelas fêmeas, o outrora dono do harém tem a sua derrota publicamente reconhecida, ao mesmo tempo em que o novo macho da área manda uma mensagem de violência e força.

Ainda não acabou.

Após o estupro, o hipopótamo jovem DEFECA no vencido. E anda ao seu redor, defecando e girando o rabo para lhe acertar o máximo possível de dejetos. Só então se dá por satisfeito e a vitória está completa: depois que acabou com tudo o que era o passado e destruiu a imagem que o macho tinha diante do grupo de fêmeas.

hipopotamos-3

(Melhor sorte não assiste aos babuínos: além de serem derrotados pelo macho novo e de serem violentados, o vencido continua fazendo parte do grupo, mas vira uma espécie de babá dos filhotes recém nascidos, ficando a serviço das fêmeas que outrora subjugava).

Os hipopótamos estragaram a minha semana. Nem tanto por mostrarem toda esta maldade, mas por revelarem uma situação que também é humana: a necessidade de extermínio completo dos vencidos. A noção de que a simples vitória é insuficiente; a política deve ser sempre de “terra arrasada”, no melhor estilo das punições do passado – além de matarem a pessoa, matavam a sua família e os seus animais, apossavam-se das suas propriedades, queimavam a sua casa, derrubavam-na e colocavam sal em cima para que nada mais fosse capaz de crescer com vida no terreno. Além disto, faziam um enorme esforço para apagar o nome da pessoa em todos os registros, para que nem mesmo a sua memória perdurasse.

Ninguém mais lembrará do hipopótamo anterior. Rei morto, rei posto. Era preferível que tivesse morrido, pois passará o restante da vida vendo as graças que agora lhe são negadas. Mas a pior das punições é continuar vivo, acompanhando a sua derrocada em todas as etapas, até a Morte bendita vir colher a flor que mora no seu peito e levá-lo para o paraíso dos hipopótamos.

Tudo passa, até mesmo a nossa época de glória. O problema é que nunca sabemos quando estamos vivendo o apogeu, somente descobrimos quando ele passou. Por mais poderosos que hoje somos, o destino inescapável é a ruína, a queda, pois ninguém fica o tempo inteiro no auge. Tudo aquilo que imaginamos que as outras gerações irão reconhecer está fadado ao desaparecimento, assim como o nosso nome sumirá ao lado de tantos outros desaparecidos, tantos outros que se imaginaram eternos.

Tudo o que restará da nossa vida será uma estátua escondida no deserto, anunciando glórias perdidas e lembrando, com nostalgia, de como éramos grandes e, hoje, não passamos de sombras pálidas tendo que conviver com o ocaso. Assim disse Percy Bysse Shelley, em um dos meus poemas prediletos, “Ozymandias”, escrevendo sobre Ramsés II:

I met a traveller from an antique land
Who said:—Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter’d visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp’d on these lifeless things,
The hand that mock’d them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
“My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!”
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.”

(ou, em uma tradução literal que não está identificada na internet – eu nunca ousaria traduzir este poema, ele é único demais:

Eu encontrei um viajante de uma antiga terra
Que disse:—Duas imensas e destroncadas pernas de pedra
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia
Meio enterrada, jaz uma viseira despedaçada, cuja fronte
E lábio enrugado e sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor bem suas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.
E no pedestal aparecem estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem as minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio
As areias solitárias e planas espalham-se para longe.)

Com certeza, o hipopótamo não começou aquele dia sabendo que seria derrotado. Não sabia que, em breve, se tornaria uma ruína. Ele iniciou o dia como todos nós: achando-se invencível, único, todo-poderoso. Mas, no derrubar do sol, ele já tinha se tornado passado, um espectro risonho da sua própria arrogância.

Este foi o dia em que a idade chegou, em que o Tempo bateu na porta e cobrou os seus tributos. Foi o dia em que a vida dele acabou sendo dividida em dois, em que tudo mudou.

E é impossível não se perguntar: será este o meu dia? O seu? O dia em que nossas estátuas começarão a ser cobertas pela areia invencível do deserto?

Saberemos ao final, depois do nossos adversário ainda misterioso chafurdar sobre a nossa desgraça com a empáfia do vitorioso.

Fragmento de estátua de Ramsés II

Fragmento de estátua de Ramsés II

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