Os muitos amores

No meio desse mundo que se perde em intransigências e irrelevâncias, serei ousado e falarei do mais ingrato dos temas: o amor.

Inicio com duas cenas.

A primeira: no hotel em que estou em Florianópolis, todos os dias encontro no restaurante o mesmo casal. Aparentam se conhecerem há muitos anos. O homem guarda o lugar junto à mesa enquanto a mulher se serve. Quando ela se senta, ele levanta e pega dois pratos: em um deles, coloca um exíguo pão de centeio e algumas fatias de presunto. No outro, enche de pacotinhos de bolachas, de potes de margarina, de pãezinhos embalados, de sachês de açúcar e sal. O homem retorna para a mesa e come o pão com centeio. A mulher olha para os lados. Quando percebe que os garçons e funcionários do hotel estão distraídos, ela estica a bolsa para o homem, que descarrega dentro o conteúdo do prato. Não chegam a se comunicar, não trocam nenhum sorriso ou olhar. Terminado o café, os dois voltam para o quarto e, na manhã seguinte, repetirão os procedimentos no restaurante do hotel.

A segunda: no Congresso, uma mulher apresenta o trabalho e o seu marido vem prestigiá-la. Para não atrapalhar, ele senta no fundo, na última fileira. Durante a apresentação, a mulher gagueja, hesita e olha para o final da plateia. Algum código invisível é trocado entre o casal e ela volta a se energizar, e assim vai até concluir a sua apresentação. Atravessa a sala, ainda no meio dos aplausos, e concede um rápido beijo ao marido. Senta-se para assistir as demais apresentações. O marido levanta e sai da sala. Volta quase meia hora depois, tendo enfrentado uma fila, com um copo de café nas mãos. Coloca na frente da mulher e ela, distraída, sem sequer se virar, faz um gesto brusco , mostrando que não quer. O homem olha ao redor, perdido, vai até uma lixeira e solta ali o copo ainda cheio de café.

Duas formas de amor, duas maneiras de entender o sentimento inentendível. O casal que rouba alimentos no restaurante do hotel possui um amor repleto de transgressão e peraltice. Para estarem hospedados no hotel, posso presumir que possuem boas condições financeiras. No entanto, o roubo em conjunto e a cumplicidade é algo que somente duas pessoas que se amam podem realizar juntos. Se formos pegos, estaremos juntos, e esta é uma definição possível.

O homem que prestigia a companheira e lhe dá suporte emocional em uma difícil apresentação é o mesmo que recebe um agrado público como agradecimento. Em seguida, realiza um gesto de carinho e é abruptamente recusado. O momento de amar e ser amado passou tão rápido quanto uma nuvem. Amar é ir do céu do reconhecimento ao inferno da indiferença em questão de segundos, e esta é outra definição incômoda.

"Cafe lovers", de J. Lorusso

“Cafe lovers”, de J. Lorusso

“Somos joguetes do destino”, já dizia Shakespeare em “Romeu e Julieta”. Nada melhor do que o amor e suas infinitas variações para nos fazer recordar tal fato. Nunca sabemos a versão que o destino vai nos entregar, se será algo puro ou uma estranheza, se será mel ou se será chicote.Seja qual for, teremos que nos adaptar. Sobreviver ao sentimento.

Entre todas as definições do impossível, a de Agamben ainda é a mais adequada:

Ideia do amor

Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante e mesmo inaparente – tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal estar, dia após dia, não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

(Giorgio Agamben, Ideia da prosa. Editora Autêntica. 2012. Tradução de João Barrento).

Gosto da ideia de chegar próximo de alguém não para lhe conhecer até exaurir o sentimento, mas para cercá-la e protegê-la de tal forma que ela nem note que é a joia mais importante do universo. Tanto o casal que rouba comida do hotel quanto a dupla que une glória e desprezo nos mesmos gestos estão criando uma ilha e se isolando do resto do mundo. Somente eles entenderão o seu amor.

Recordo da mais incrível declaração de amor que conheço. Nos últimos dias, tenho lembrado dela de forma obsessiva. Muitas pessoas dizem que é uma carta de suicídio, mas eu acredito que foi uma forma de Virginia Woolf dizer para seu marido da intensidade do sentimento que os unia – e o fato dela preferir morrer a conspurcá-lo. Pouco importa a morte ou o fim; o que importa é deixar a consciência do amado tranquila, e se oferecer em sacrifício.

“Querido, Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los.
Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que depositei em você toda minha felicidade.
Você sempre foi paciente comigo e realmente bom. Eu queria dizer isto – todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais.

Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.

VIRGINIA WOOLF.

A morte como única forma de preservar o amor também é uma possibilidade inquietante. Estes dias comentei que o importante sempre é preservar os bons momentos de qualquer relação, os pequenos pecados, as gulodices inesperadas, as bobagens proferidas com pressa, o silêncio e o conforto de uma companhia. Talvez amar seja isso: uma sucessão de irrelevâncias colocadas a orbitar em torno de uma pessoa, a única que consegue dar sentido para tudo.

Volto para Shakespeare e reproduzo a exasperação de Julieta: “Ó, Romeu, Romeu, por que és Romeu?”. A única pergunta que não tem resposta neste mundo.

Anúncios

9 Comentários

Arquivado em Uncategorized

9 Respostas para “Os muitos amores

  1. Cris

    “Amar é ir do céu do reconhecimento ao inferno da indiferença em questão de segundos, e esta é outra definição incômoda…” Y también

    “Tal vez amar seja isso: uma sucessão de irrelevâncias colocadas a orbitar em torno de uma pessoa, a única que consegue dar sentido para tudo.” …Maravilloso, Gustavo!!! qué acertadas aproximaciones a “lo incómodo”, interesantes! Un abrazo!

  2. Tirei todos os meus chapéus existentes e inexistentes! Um dia que eu ler algum texto ruim de sua autoria, pode crer que é o fim dos tempos! Abraços!

  3. Clarissa

    tu estás cada dia melhor. Parabéns!!!

  4. “Talvez amar seja isso: uma sucessão de irrelevâncias colocadas a orbitar em torno de uma pessoal, a única que consegue dar sentido para tudo”.
    Aos que já amaram a ilusão de encontrar em outros seus espelhos.
    Beijo,

    • Oi, Alexandra, obrigado pela tua leitura. Pegaste bem; no fundo, somos todos Narcisos, mexendo na água do rio para que ele fique cada vez mais parecido conosco mesmo.
      Beijo

  5. Clarissa

    Adorei maninho
    Se fosse o Rafael no hotel me fazia devolver os pacotinhos de geleia 😉
    (nota, acho que a mae comentou com meu nome ali em cima, pelo menos espero que seja ela e nao que alguem tenha roubado minha identidade)

    • Obrigado, Clarissa…
      Com certeza o Rafael te faria devolver. Não esperaria outra coisa dele. E a prova de amor é ele não chamar a polícia.
      Eu também espero que ninguém tenha roubado a tua identidade. O mundo é muito pequeno para duas Clarissas.
      Beijo, guria.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s