Facas que não cortam

Objetos que não servem para o seu propósito sempre me deixam desconcertado. Cadeiras desconfortáveis que impedem que uma pessoa se sente de forma tranquila, livros falsos que não possuem páginas e são ocos, árvores e plantas de plástico, todos objetos distorcidos da sua utilidade, todos mentirosos.

Não espanta que, no restaurante do hotel, existam facas incapazes de cortar. Facas sem a mínima contundência capaz de abrir um singelo pão. Facas que só possuem o sonho de algum dia serem verdadeiras.

Por muitos anos, as facas que não cortam me deixaram intrigado. Não vejo sentido em colocar à disposição algo que não serve para nada. A melhor explicação que já me deram: os hotéis não disponibilizam facas capazes de cortar por que este seria um pretexto para as pessoas se esfaquearem. Impossível não imaginar um mundo em que a disponibilidade de um objeto bastaria para utilizá-lo ao máximo. Se colocassem livros à disposição, isto nos forçaria a lê-los?

Os hotéis não acreditam que as pessoas usam a faca para cortar objetos inanimados, eles partem do princípio de que o ser humano é ruim, e colocar uma faca à disposição é autorizar, de forma tácita, que uma pessoa mate outra.

Não sei se os culpo por pensar de forma tão preventiva. Não podemos ser inocentes: existe uma maldade potencial em cada pessoa. Colocar um objeto cortante ao alcance de uma vontade humana é arriscado, ainda que eu ache que, pelo fato do restaurante do hotel estar no nono andar, a possibilidade de jogar alguém pela janela seria muito mais coerente (em tempo: as janelas possuem discretas grades pelo lado de fora).

Sem saber, os hotéis seguem a frase de Anton Tchekhov: “Se, no primeiro ato, você colocar uma pistola pendurada na parede, no último ato ela deve disparar”. Existe uma impressão instintiva de que, se derem às facas o seu poder ancestral de cortar pessoas, elas serão inevitavelmente utilizadas com este propósito. No entanto, existem vários lugares que disponibilizam ou mesmo vendem facas cortantes sem que tal fato represente um banho de sangue.

Tirar a função de um objeto é matar o seu significado, exterminar a razão da sua existência. Seria como tirar o nome de uma pessoa, algo que se liga de forma indissolúvel à sua própria personalidade. Lembro de Goethe, que escreveu:  “O nome de um homem não é como uma capa que lhe está sobre os ombros, pendente, e que pode ser tirada ou arrancada a bel prazer, mas uma peça de vestuário perfeitamente adaptada ou, como a pele, que cresceu junto com ele; ela não pode ser arrancada sem causar dor também ao homem”. Tirar das facas a sua função cortante é uma forma de enfraquecê-las.

Existe uma parte minha que sente algo primitivo circular pelo cabo de uma faca. Depois da clava e da pedra, objetos que poderiam ser conseguidos livremente na Natureza, a faca foi o primeiro objeto que o homem criou especificamente para cravar na carne alheia, seja de um animal, seja de um semelhante. Talvez ela ainda exista com este propósito oculto. Neste caso, os hotéis são mais sábios do que imaginamos. Manter-nos afastados das facas seria uma garantia de sobrevivência da espécie; enfraquecer o seu significado pode ser domesticar o animal que mora no cabo de tal objeto, a linha direta que temos com o antepassado que ainda respira no final do nosso DNA.

Um dos temas de Jorge Luis Borges era o punhal, ao lado do labirinto, do livro, do espelho, do zahir e do tigre. Recentemente coloquei um punhal na curva de um conto, para formar o cenário, e fui acusado de ser “borgeano”. Eu também convivo com a “pistola de Tchekhov”. Basta colocar um labirinto, ou um espelho, ou um punhal em qualquer conto para que vozes se ergam me chamando de “borgeano”. Mas um punhal pode ser só um punhal, não uma declaração de princípios literários. As palavras e os temas literários também se desgastam quando rotuladas: ninguém mais usa “madeleines” por causa de Proust, ninguém escreve “mulher de 40” sem prestar tributo a Flaubert.

Rotular é o primeiro passo para diminuir alguém. Assim como as facas não cortam, eu me desvio de assuntos para escapar do comodismo das classificações.

Quando Borges fala de punhal no conto que abaixo transcrevo, eu entendo as palavras que se desgastaram por perderem o seu significado original, que continua residindo nelas, teimoso. Um punhal existe para matar; uma faca para cortar.

O Punhal

A Margarita Bunge

Numa gaveta há um punhal.

Foi forjado em Toledo, em fins do século passado; Luis Melián Lafinur deu-o a meu pai, que o trouxe do Uruguai; Evaristo Carriego teve-o uma vez na mão.

Os que o vêem têm de brincar um pouco com ele; percebe-se que a muito o buscavam; a mão se apressa em apertar o punho que a espera; a lâmina obediente e poderosa folga com precisão na bainha.

O punhal outra coisa quer.

É mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram e o formaram para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterno, o punhal que na noite passada matou um homem em Tacuarembó, e os punhais que mataram César. Quer matar, quer derramar brusco sangue.

Numa gaveta da secretária, entre borradores e cartas, interminavelmente sonha o punhal seu singelo sonho de tigre, e a mão se anima quando o dirige porque o metal se anima, o metal que em cada contato pressente o homicida para quem os homens o criaram.

Às vezes, dá-me pena. Tanta dureza, tanta fé, tanta impassível ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis.

(Borges, Jorge Luís, Nova antologia pessoal, São Paulo: Difel. 1986)

Jorge Luis Borges e um punhal.

Jorge Luis Borges e um punhal.

O punhal sonha com o dia em que experimentará sangue. A faca é mais modesta: ambiciona o dia em que não será considerada punhal, em que recuperará o seu significado original, o de cortar.

Da mesma forma que todo ser humano, tenho um medo ainda mais primário: o de perder o significado e ser esvaziado, ser uma casca à solta pelo mundo. Uma faca sem nada mais que a lembre daquilo que o seu passado representou, um objeto sem utilidade. Algo que pode ficar preso dentro desses pequenos caixões que se convencionou chamar de gavetas, sonhando que alguém olhe além do inox e recupere o seu passado glorioso.

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3 Comentários

Arquivado em Facas, Jorge Luis Borges, Literatura, Punhal

3 Respostas para “Facas que não cortam

  1. Eu nunca gostei de facas. Mas gostei do texto, tira essa faca da mão.

  2. Hola, para mi, en el relato de Borges acerca del puñal falta y a la vez está presente la cuestión sobre la finalidad de un arma, falta aquello que los belicistas de la guerra fria, como Curtis Lemay, afirmaban: el propósito de una arma es el de ser usada.
    Para estos tipos, tener miles de misiles nucleares encerrados en silos de lanzamiento no tenía sentido, los misiles fueron creados con un fin y tarde o temprano ese fin tendría que realizarse. En sus letargos de silos los misiles esperan con ansia el día de su gran actuación, el día del apocalipsis.
    El puñal de Borges sueña en un cajón el dia en que su destino se lleve a acabo: estar involucrado en un acto de sangre.
    En realidad ni el misil ni el puñal sueñan, son los hombres en su locura los que sueñan con armas llevando adelante su destino. Borges tiene claro que esto es así, pero en el relato le adjudica vida propia al puñal, revierte aquello con que sueñan los hombres, empuñar el arma cumpla su destino. En su lugar es el arma la que sueña con el puño que le haga cumplir su destino. De una u otra manera la culpa parece ser siempre del arma.
    Pero todos sabemos que no es así.

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