A efemeridade do beijo

É claro que há sofreguidão. E urgência. O beijo vai acabar assim que o sol voltar. Ele é rápido e voraz. As figuras mal tiveram tempo de se formar – ainda estão incompletas – e já trocam hálitos gelados, tentando se esquentar, sabendo que o suor irá extingui-los e, mesmo assim, mesmo sabendo que a morte lhes aguarda, não param o beijo.

Fascina-me que, entre tantas imagens que as pessoas poderiam fazer com a fugaz neve que assolou a Região Sul do Brasil nos últimos dias, alguém se esforce em retratar um beijo. E não é um castiço encontro de lábios; é um beijo absoluto, de corpos e de almas.

Encostado na árvore, o homem é atacado por um beijo apaixonado. Tão quente que é capaz de fazer a neve derreter, mas não importa. Nada mais importa, só o momento.

Só o beijo.

Eles nascem para serem efêmeros. Nenhum beijo é igual ao anterior, nenhum será igual ao posterior. Assim como o rio do Heródoto, ninguém tem o mesmo beijo duas vezes. Ele existe e morre enquanto acontece – esta é a sua dor e a sua glória.

Só existe uma maneira de prender o segundo e transformá-lo no eterno, e é através da arte. Existem muitos beijos famosos na escultura, na pintura, na fotografia, na música, na poesia. Quase todos eles dialogam com a ideia de permanência, de manter aprisionado o momento em que a respiração vira uma e o tempo pára.

No entanto, mesmo em algo tão efêmero como um beijo, existem centenas de pequenos infinitos. O artista que percebe este detalhe é aquele capaz de transmutá-lo em obra: não existe nada definitivo. Em cada gesto, estamos sempre vivendo em um sem-fim de momentos que surgem e desaparecem. Vagalumes na nossa escuridão. Até mesmo na entrega do beijo, somos várias pessoas diferentes, envolvidas em um número inimaginável de possibilidades.

É assim que Rodin imagina o beijo perfeito:

"O beijo", Auguste Rodin

“O beijo”, Auguste Rodin

É um ato de conhecimento. De mútua busca. Os lábios se tocaram há poucos segundos. Os corpos ainda não sabem como reagir. As figuras estão completamente absorvidas; o mundo apagou ao seu redor. A languidez que se adivinham nos gestos (o braço da moça enlaçando o pescoço, a mão do homem pousada na coxa desnuda como se ela queimasse) antecipa a rendição ao sentimento.

O fato desta escultura prender a nossa atenção não é o beijo em si, mas sim o que ele representa: a ideia de que todo sentimento é eterno, imutável, esculpido em rocha. A ilusão de que o beijo pode durar para sempre. Não vai. Nem pedras duram para sempre.

Verlaine prefere deixar o beijo líquido, inebriante:

Il Bacio

O Beijo! malva-rosa em jardim de carícias!

Vivo acompanhamento no piano dos dentes

Dos refrãos que Amor canta nas almas ardentes

Com a sua voz de arcanjo em lânguidas delícias!

Divino e gracioso Beijo, tão sonoro!

Volúpia singular, álcool inenarrável!

O homem, debruçado na taça adorável,

Deleita-se em venturas que nunca se esgotam.

Como o vinho do Reno e a música, embalas

E consolas a mágoa, que expira em conjunto

Com os lábios amuados na prega purpúrea…

Que um maior, Goethe ou Will, te erga um verso clássico.

Quanto a mim, trovador franzino de Paris,

Só te ofereço um bouquet de estrofes infantis:

Sê benévolo e desce aos lábios insubmissos

De Uma que eu bem conheço, Beijo, e neles ri.

Paul Verlaine, “Caprichos” [conforme tradução de Fernando Pinto do Amaral].

A comparação com o vinho deixa o beijo sensual. Ao mesmo tempo em que paralisa o corpo, o beijo se renova no fundo da boca da outra pessoa, fazendo com que o sorriso lhe suceda. Verlaine próprio se recusa a tecer versos ao beijo, pede para que outros poetas tratem do assunto. Ele prefere tratar do mergulho no sentimento, da embriaguez que é beijar o ser amado. O poeta não subestima o beijo; sabe que é único, pois cada um tem o seu próprio sabor. E ele é intoxicante. Sempre.

Mas existem beijos possessivos, aqueles em que os apaixonados se recusam a se afastar. Um beijo de olhos e de algo mais. Brancusi foi quem o esculpiu:

"Beijo", Constantin Brancusi

“Beijo”, Constantin Brancusi

O escultor captou outro segundo da efemeridade do beijo, aquele momento em que os apaixonados acreditam que nada pode se imiscuir no caminho deles. Eles acreditam serem invencíveis e formarem uma unidade indissolúvel. Logo o instante passará (todos passam), mas, no tempo da sua duração, houve um delirante espaço em que dois acreditaram ser um, contra todas as leis da Física. Acreditaram que nada seria capaz de separá-los. Estão errados, mas a ilusão sempre é o melhor ópio.

Na minha concepção, o beijo mais realista foi mostrado por Magritte. É um quadro que perturba a visão, mas fascina.  Por mais que tentemos disfarçar, nunca saberemos que está realmente do outro lado do beijo. Cada pessoa é dotada da sua própria experiência, da sua carga de emoções em relação ao que está envolvido. Não beijamos outra pessoa, beijamos a idealização que construímos.

"Os amantes", Magritte.

“Os amantes”, Magritte.

Da mesma forma que Magritte, acredito que somos sempre duas máscaras a nos beijar. Mais pressupomos o outro do que o enxergamos. Um beijo também é um mistério e, neste momento, o pintor captou a efemeridade mais amarga que existe em um gesto de carinho: nunca saberemos se atingimos o objetivo. Nunca saberemos se realmente beijamos o outro ou se estamos apreciando a sua imagem, e isto explica por que tantos beijos acabam em frustrações. Nunca o primeiro. Este sim é o verdadeiro, o singular. Aquele em que as máscaras primeiro se conhecem.

No entanto, também podemos ser otimistas. O beijo também é um enorme clichê, e existe algo extremamente pícaro em uma obra de arte ganhar vida para roubar um beijo do seu senhor, como Jean-Léon Gêrome retratou:

"O beijo de Pigmalião e galatéia", de Jean-Léon Gêrome

“O beijo de Pigmalião e Galatéia”, de Jean-Léon Gêrome

Gosto muito neste quadro que Galatéia mal terminou de virar humana e já busca o beijo do seu criador, como se não pudesse esperar, ansiosa pelo toque quente do outro. Pode ser um capricho do Cupido, que dá risadas no canto da tela. A história de Pigmalião e Galatéia sempre se relacionou com a vontade do artista de criar vida na obra, a sua capacidade de se apaixonar pelo próprio trabalho. Efemeridade e permanência dialogam neste quadro através de um beijo maroto, roubado no ateliê do artista. Vale a pena ser eterna sem amar? É melhor ser de carne e frustrações do que uma idealização impossível, só presente em um quadro? É preferível abandonar aquilo que se é para entrar no mundo do outro ou viver na segurança das coisas eternas? Todas estas dúvidas existem no espaço de um beijo.

E, assim, retorno para a foto inicial. Um beijo de gelo quente. Quando surgiu, a neve não imaginava que este seria o seu destino: representar algo efêmero, algo humano. Mas, justamente por aceitar este destino, a estátua de neve se rende com mais facilidade à ideia de que é somente passagem, não conclusão. Ponte, não porto seguro. Aproveitará o beijo ao máximo, sabendo que logo não mais existirá, mas que valeu a pena cada segundo do que sentiu.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Auguste Rodin, Beijo, Constantin Brancusi, Jean-Léon Gêrome, Magritte, Paul Verlaine, Pintura

2 Respostas para “A efemeridade do beijo

  1. “mesmo em algo tão efêmero como um beijo, existem centenas de pequenos infinitos. O artista que percebe este detalhe é aquele capaz de transmutá-lo em obra”… tu transformaste nestas palavras. fui beijada!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s