Fogo e sombra – um inverno com Anna Akhámatova

Semana passada vi o primeiro casaco a passear na rua e isto me lembrou de que o inverno se aproxima com os movimentos lentos de um felino, ansioso para cravar garras geladas e nos assoprar com a lembrança do túmulo (talvez) distante. O General Inverno, aquele que destruiu os exércitos de Napoleão e Hitler, prepara-se para cobrar a retirada de mantas, luvas, pulôveres e blusões das prateleiras.

O inverno é bom para três prazeres que normalmente deixamos em segundo plano: tomar chocolate quente, enrodilhar-se em outra pessoa para assistir a algum filme e mergulhar no introspectivo. O primeiro item é fácil, o segundo já é um pouco complicado por depender da pessoa e do filme e o terceiro é o mais sombrio de todos. Para abrir a porta dos pensamentos e realizar este diálogo consigo mesmo, geralmente naquele momento em que a coberta ainda não trouxe o conforto do calor e a cama parece um cenário repleto de gelo eterno, nada melhor do que estar bem acompanhado. E Anna Akhámatova é a pessoa ideal.

Nascida em junho de 1889, Akhámatova foi uma mulher excepcional, tanto que foi feito um esforço sobre-humano para apagar os traços da sua obra. Ela não era subversiva, mas os principais homens da sua vida foram mortos ou presos em campos de concentração soviéticos. Apesar de tratar de temas sentimentais, sua poesia pode ser lida como um libelo à liberdade e à beleza humana, capazes de sobreviver ao mais áspero dos climas. Ao invés de mergulhar no desespero, Anna Akhámatova preferiu transferir a dor para as palavras, retratando o inverno da sua alma em poesias repletas de dor e de sensibilidade, de amores perdidos ou afastados, de silêncios e de prelúdios.

Anna Akhamatova.

Anna Akhamatova.

Nos momentos em que o frio tenta se imiscuir pelas frestas da nossa existência, trazendo dúvidas e inquietações, sempre é bom manter a alma aquecida por uma boa poesia. Em especial se o poeta já encarou os olhos da desesperança e voltou do inferno para cantá-la. Ou tomar uma bebida com a lembrança das palavras de Akhámatova:

Último brinde

Bebo ao lar em pedaços,

À minha vida feroz,

À solidão dos abraços

E a ti, num brinde, ergo a voz…

Ao lábio que me traiu,

Aos mortos que nada veem,

Ao mundo, estúpido e vil,

A Deus, por não salvar ninguém.

Viver o inverno não implica em se cobrir de roupas ou apelar para aquecedores e lareiras. Mais do que uma estação, ele pode significar uma ode à individualidade, uma tentativa de reter o calor do lado de dentro do corpo e deixar as fagulhas do vento correrem sobre a pele com crueldade. Também é um estado de espírito ou uma música. Assim como existem músicas solares, repletas de maresia e despojamento, também existem aquelas que são melancólicas, que ressoam angústias e amplificam saudades. Dmitri Shostakovich é o compositor dos estados lúgubres da alma e, para ele, Akhámatova dedicou um poema:

Música

Algo de miraculoso arde nela,

e fronteiras ela molda aos nossos olhos.

É a única que continua a me falar,

depois que todos os outros ficaram com medo de se aproximar.

Depois que o último amigo tiver desviado o olhar,

ela ainda estará comigo no meu túmulo,

como se fosse o canto do primeiro trovão,

ou como se todas as flores tivessem começado a falar.

A ideia de uma música acompanhar a pessoa durante a Eternidade é interessante, ainda mais quando a poetisa afirma que ela sempre tem algo novo a dizer, ressurgindo com o assombro do primeiro trovão e a delicadeza invisível da conversa das flores. As outras estações também moram dentro do inverno, assim como ele pode aparecer no mais abrupto dia de sol ou na mais radiante primavera. Muitas pessoas gostam da indefinição do outono, mas existe algo hipnótico na dureza do inverno e nos tributos que ele cobra dos seres humanos. Esquentar-se não é somente algo que se faz para não deixar o frio entrar, também é um ato que nos lembra de que, por trás da pele, somos todas criaturas feitas de fogo e sombra.

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Tudo se resume a saber viver consigo mesmo, e o inverno, com o egoísmo dos seus casacos, echarpes e luvas, nos faz lembrar disto a cada momento. É enganoso imaginar que precisamos de muitas coisas para viver. A simplicidade é conquistar o gosto pela própria companhia, sabendo que outra pessoa só é bem vinda se souber respeitar a nossa individualidade. No castelo do eu, não bastante bater na porta; é preciso merecer entrar.

 

Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,

a olhar o céu, a fazer minhas orações,

a passear sozinha até a noite,

até ter esgotado esta angústia inútil.

Enquanto no penhasco murmuram as bardanas

e declina o alaranjado cacho da sorveira,

componho versos bem alegres

sobre a vida caduca, caduca e belíssima.

Volto para casa. Vem lamber a minha mão

o gato peludo, que ronrona docemente,

e um fogo resplandecente brilha

no topo da serraria, à beira do lago.

Só de vez em quando o silêncio é interrompido

pelo grito da cegonha pousando no telhado.

Se vieres bater à minha porta,

é bem possível que eu sequer te ouça.

Anna Akhámatova viveu em dois invernos: um, o da sua Rússia natal, o outro, o dos próprios sentimentos. O único consolo que lhe restou, a labareda em torno do qual conseguiu suportar a existência, foram as suas poesias. As palavras possuem o invulgar poder de desvanecer o universo e ressemantizar o mundo. Qualquer frio se torna suportável para um poeta capaz de se manter acobertado pela própria sensibilidade. Às vezes, basta uma palavra – a correta ou a inesperada – para que tudo faça sentido, para que a dor seja aplacada, para que surja a luz, para que do Verbo se faça a Carne. A palavra é uma forma de escapar da prisão do inverno e do abismo da melancolia. O problema pode ser achar a palavra ideal, mas, quem a encontra, no momento exato em que ela se faz necessária, sente a primeira brisa da primavera brotar do peito, afastando os tons sombrios do inverno.

Treze versos

E finalmente pronunciaste a palavra

não como quem se ajoelha,

mas como quem escapa da prisão

e vê o sagrado dossel das bétulas

através do arco íris do pranto involuntário.

E à tua volta cantou o silêncio

e um sol muito puro clareou a escuridão

e o mundo por um instante transformou-se

e estranhamente mudou o sabor do vinho.

E até eu, que fora destinada

da palavra divina a ser a assassina,

calei-me, quase com devoção,

para poder prolongar este instante abençoado.

No instante em que a nova estação começa, com seu presságio de ventos frios a sacudirem os nossos subterrâneos, refugio-me na lembrança das paragens geladas que dominaram o espírito de Anna Akhámatova. Com a companhia das suas palavras acalentando o meu espírito, sento-me no sofá e espero o General Inverno entrar pelas frestas da casa para contar as suas histórias ríspidas, sabendo que logo os dedos graciosos da primavera interromperão o monólogo do frio.

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1 comentário

Arquivado em Anna Akhámatova, Crônicas, Generalidades, Impressões, Inverno, Produção Literária

Uma resposta para “Fogo e sombra – um inverno com Anna Akhámatova

  1. Engraçado ler sobre o inverno e suas sensações quando se está num lugar em que é sempre calor (Aracaju), faz parecer um assunto tão distaaaaante, e me faz pensar que existem dois tipos de pessoas, as que sofrem as influências do inverno e as que não. Pensarão as mesmas coisas, todavia?E compreendi que, no Brasil, é muito difícil escrever um texto comum a todos, nesse mundão sem fim. Por isso, de agora em diante, vou escrever sem pensar no leitor.
    Belo texto. Obrigada por mais esta reflexão. Bj

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