Quando a maldade não tem motivo

Estou lendo Boécio, “A Consolação da Filosofia”. Gosto imensamente da ideia original: Boécio está na prisão e marcam a sua morte para o dia seguinte. Durante a noite, a Filosofia resolve visitá-lo e os dois passam um educativo tempo juntos, conversando sobre Deus e sobre as grandes variáveis que rondam o conceito de divindade.

É um diálogo intenso e cheio de nuances deliciosas; às vezes a Filosofia questiona Deus enquanto Boécio O defende com paixão e, em outras, a fé do filósofo parece esmorecer, momento em que a Filosofia passa para a oposição. Como construção retórica, este movimento de gangorra nos argumentos é incrivelmente bem feito. Muitos detalhes podem ser ditos sobre o livro, mas uma coisa é certa: a última noite de Boécio foi bem agitada. A Filosofia não o deixou em paz.

Boécio

Boécio

A questão central do livro é: se Deus criou o mundo, como pode existir mal nele? Era de se esperar que, acaso Deus tenha sido o artífice da Criação, não teria criado o próprio inimigo. Boécio não atravessa a inevitável ponte: se Deus criou o mundo e colocou o mal nele, seria Deus uma expressão do Mal? Ou, pior ainda, se existe o Mal no nosso mundo, ele realmente teria sido criado por Deus, que combate o mal em todas as suas formas?

Assuntos bem espinhosos para abordar, em especial nos anos 500 depois de Cristo. Por este motivo, o filósofo pretende dar motivos para a decisão divina um tanto esquizofrênica (criar um mundo em que ninguém pode ser malvado e, ao mesmo tempo, criar o Mal que deve ser combatido). A Filosofia não parece muito convencida dos motivos de Deus, mas, ora bolas, no outro dia Boécio vai morrer, não custa nada agradá-lo um pouco.

Esta leitura me fez refletir sobre outra questão adjacente ao texto, que seria a maldade imanente ao ser humano.

Tenho pensado muito sobre isto, em especial nos últimos dias, quando atos de maldade gratuita subitamente afloraram, sem explicação alguma. No início, foram pequenas crueldades, mas elas foram se avolumando e, logo, tornaram proporções dantescas. Tão grande foi o volume que imaginei que acabaria afogado diante de tamanha virulência. Foi necessário um grande esforço para manter a integridade no meio desta maré de maledicências, de supostos equívocos, de amizades se desfazendo, de surpresas surgindo.

Todos gostam de imaginar que, se estão sofrendo uma maldade, algum motivo deve existir. Faz parte da moral judaica-cristã que ainda sobrevive no nosso imaginário: se estamos sendo punidos, é por algum motivo justo. Assim as pessoas justificam mortes, demissões do emprego, doenças inesperadas, amores perdidos. Se algo ruim aconteceu, eu fiz por merecer tal castigo. E se dedicam a esquadrinhar a própria vida, procurando um motivo, alguma lógica, alguma situação quid pro quo que justifique o mal, e só ficam felizes quando a encontram. Mais ou menos como se a vida andasse com uma tabuleta anotando vícios e virtudes para, em seguida, aplicar a Lei de Talião.

Mas o mal existe por si só, não precisa de justificativa. As pessoas são naturalmente maléficas. Não existe nada que dê mais prazer para o outro do que fazer alguma maldade, e temos que viver com esta falha de caráter. Ainda recorrendo à moral cristã que, apesar dos pesares, se imiscui em toda a nossa existência, até Jesus Cristo considera a batalha perdida. No momento em que afirma que devemos dar a outra face quando recebemos um tapa, ele praticamente admite que vamos receber, sim, um tapa repleto de maldade, tal ato é inevitável. O que faremos com a maldade é a verdadeira questão que cada um sabe como vai responder.

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É espantoso quando a maldade surge sem nenhum motivo de causa e efeito, quando aparece pela simples vontade de machucar o outro. É a mais pura das expressões do espírito humano: somos maus por que assim desejamos. Vejo pessoas que não ganham nada praticando maldades e, ainda assim, se entregam a elas com volúpia. Vejo uma crueldade mínima ir se aprofundando como o fio de água que abre o caminho para um rio, transformando-se em uma enxurrada. Todos os caminhos da maldade confluem contra o meu rochedo; vejo as ondas crescendo no horizonte, uma atrás da outra, e sei que elas quebrarão no meu espírito.

Estou vendo o mal no seu estágio mais selvagem e ele não me impressiona, pois vai passar, tudo passa; impressiona-me ver é o quanto as pessoas se fascinam pelo lado escuro, o quão profundo mergulham nas suas profundezas. Um dia elas acordarão do sono, como os habitantes de Hamerlin, e pensarão: “fui eu mesmo quem fiz isto?”. No entanto, não se arrependerão. Irão procurar um motivo que justifique a atitude, para conseguirem colocar a cabeça de novo no travesseiro.

Contudo, eu não vou esquecer. As cicatrizes se avolumam e são feridas abertas, sanguinolentas, que me impedem de ter paz enquanto queimarem. Aguardo a hora em que me tornarei o Mal alheio. Não tenho a grandeza do perdão. Não tenho também esta sombra que chamam de misericórdia. Homens que leem não conseguem ter tais vícios.

E agora respondo a Boécio: Deus não criou o mal, ninguém seria tão estúpido a ponto de brincar com a própria antítese. Ele surgiu do atrito da sociedade, das aparas e escarpas das nossas almas que deslizam umas contra as outras, gerando faíscas, terremotos, catástrofes. Nós somos os responsáveis pela nossa desgraça. Nós somos o Mal, e adoramos cada segundo disto.

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3 Comentários

Arquivado em As consolações da filosofia, Boécio, Maldade

3 Respostas para “Quando a maldade não tem motivo

  1. camila

    precisava ler isso, especialmente hoje. obrigada pelo ótimo texto!

  2. olá,sou dona de um blog de literatura, e gostaria de saber se estás disponivel para parcerias.
    grata

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