Um estudo do detalhe

Não é somente o diabo quem mora no detalhe. O todo também pode se esconder na curva da insignificância. O mínimo, aquilo que o olho vê e não capta, revela o máximo de significado. É necessário prestar atenção no detalhe, na palavra não dita, no gesto desnecessário, no sorriso que escapa, na lágrima que se oculta. É exatamente neste local que a verdade se esconde: tão perto dos olhos, tão longe da compreensão.

Após 36 anos de convivência forçada com este corpo, percebo que o meu olhar se prende ao detalhe. Não é alguma característica obsessiva, algo que me impeça de viver, mas a busca pela fratura na verossimilhança do outro. Eu não acredito que as pessoas sejam reais; tenho certeza de que todos são fictícios, o que me leva a procurar provas de inverossimilhança nas demais pessoas com que convivo. Todos possuem desníveis em alguma parte da sua vida, detalhes que rastreio com paciência, procurando a fratura por onde revelarei o segredo alheio. Gostaria de dizer que é difícil de encontrar, mas, infelizmente, é até fácil demais.

Tudo é uma questão de treinar a apreensão, procurar o singular, o mistério que escapa do olhar apressado. Tomemos um exemplo: a escultura “O rapto de Perséfone” (1621), de Bernini.

rapto_de_proserpina_-_bernini

Todos sabem a história do rapto de Perséfone por Hades. Encantado pela filha de Deméter, o Deus do Inferno decidiu levá-la consigo para o seu reino sombrio, desafiando o panteão divino por causa deste amor tresloucado.

Um olhar distraído para a escultura revela a desproporção das forças envolvidas no rapto: Perséfone é muito menor e mais fraca do que o seu raptor. A mão no rosto de Hades escancara repugnância, assim como o rosto voltado para o céu, imerso em súplica e desespero. É uma escultura repleta de agonia. Qualquer pessoa que a olhe sabe que, se não existir algum tipo de ajuda exterior, a mulher não tem chance alguma de resistir à cobiça do Deus dos Infernos, retratado quase como um sátiro, um devasso.

Impossível não reparar na extraordinária perfeição do corpo feminino. A curva dos braços, o ângulo do pescoço, as pernas fortes, todos os detalhes revelam a respiração da pedra. Assim como uma boa foto, a escultura mais marcante é aquela que eterniza um suspiro no ato exato de abandono. A boa experiência estética precisa ser auto-referencial, e sempre pensei  em”O rapto de Perséfone” como o trabalho do artista de resgatar, do mundo das pedras, a imagem que mora nos seus sonhos. Neste contexto, aquilo que Bernini realmente revela é o artista sequestrando a beleza e trazendo-a à força para a realidade.

Mas é prudente aproximar o olhar, mudar o ângulo de visão. Nada fica igual quando mudamos o enfoque.

Proserpina

Não existe ato de violência que seja justificável. Prova disto é que Deméter, a Deusa da Agricultura, puniu os humanos pelo rapto da sua filha, impondo-lhes sucessivas secas e fazendo a fome grassar na Grécia. Zeus, agindo como árbitro entre Hades e Deméter, estipulou que Perséfone ficasse seis meses no Inferno e seis meses na Terra. Dessa forma, ambos os lados sairiam, ao mesmo tempo, agradados e descontentes.

Por este ponto de vista, Hades parece ainda mais ameaçador. Todos os detalhes dos seus músculos estão obcecados pela luxúria de ter a mulher desejada. Os dois corpos da escultura inclinam-se para sentidos diametralmente opostos, representando as vontades divergentes. No entanto, percebe-se que o Deus do Inferno possui a certeza inabalável da imposição da sua força. Ele permite que a mulher se debata, mas sabe que ela está fadada a perder. E não seria esta também uma boa definição para o amor, jogo em que duas vontades diferentes digladiam até chegar a um acordo?

O fato do amor nascer de um local tão improvável quanto um rapto não afasta a ideia de que todo sentimento é, por natureza, um ato de violência contra a própria pessoa. A pedra revela mais segredos do que gostaríamos: não existe sentido algum em resistir ao sentimento, pois, quando ele chega, nos arrasta para as profundezas do inferno particular de cada um e só nos deixará sair de lá uma vez a cada seis meses, para curtir um pouco de sol.

A mudança do olhar já alterou a substância do objeto. Agora é o momento de chegarmos ao detalhe:

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O olhar de Perséfone aterroriza. Ao contrário do que a imagem do todo deixava entrever, a mulher não está olhando para cima, à procura da ajuda divina. Olha para baixo, para onde está arrastada. Ela sabe que foi subjugada. E o medo no seu olhar permite-nos imaginar que já consegue divisar os portões próximos do Inferno, da sua prisão. A resistência é mais tentada do que efetiva.

O pavor do olhar feminino contrasta com a espantosa ternura dos dedos do raptor. Observem o detalhe da mão: ela não aparenta fazer força, e sim acariciar o dorso da mulher, quase como se a carne queimasse. O segurar confunde-se com o abraço; o polegar de Hades já se insinua na omoplata, enquanto os demais dedos enlaçam Perséfone, quase como se estivessem tentando se unir a ela. Considerando-se que, no início, tudo era pedra, esta tentativa do material da escultura de reencontrar a união de que foi privada é uma nova possibilidade de interpretação da obra. E igualmente bela.

Mas sejamos mais observadores ainda:

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É no toque masculino que a pedra ganha a sabedoria da carne. Todo o frêmito do corpo está nos dedos de Hades, na languidez com que ele apara a mulher amada. A violência inicial de “O rapto de Perséfone” se desfaz, e aquilo que era um ato contra a vontade da mulher vira um abraço amoroso, uma resistência injustificada, o receio do desconhecido que nos acomete no início do sentimento. De acordo com a mitologia, Perséfone realmente se apaixonou por Hades. Mesmo tendo Perséfone submetida a estes interlúdios de seis meses de sombra a cada seis meses de luz, Hades conseguiu cativar o coração feminino e, se o amor começou de forma enviesada, acabou se resolvendo com a sedução posterior, com a reconquista da mulher.

A obra flagra o detalhe do inesperado carinho com que os dedos de Hades enlaçam o outro corpo, assim como antevê, na forma quente com que a pele de Perséfone se adapta ao carinho, uma série de arrepios que prenunciaria o amor vindouro. Bernini fez várias obras dentro de uma escultura só, e tudo está nos detalhes que ele não mostrou, somente deixou insinuado.

Agora, se o leitor ficou curioso sobre os múltiplos significados de “O rapto de Perséfone”, mais intrigado ainda ficará em saber que não viu o detalhe mais importante. Sim, guiado pelo meu olhar e pelo enfoque que dou à escultura, o leitor deve estar pensando em Bernini, em mitologia grega, na forma com que os sentimentos surgem, no abraço que se confunde com a contenção, no carinho que mora dentro da violência. É improvável que o leitor tenha se perguntado o que aquele pano esconde, e mais espantado ainda ficará em saber que ali está um cachorro, que assiste a toda cena de forma impassível, que não defende Perséfone, que não apoia Hades.

Este cachorro, sim, é o mistério que nunca será revelado. E é neste detalhe que deve morar a eternidade de toda a obra de arte: no imponderável. No elemento estranho. No desconforto da pergunta.

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5 Comentários

Arquivado em Arte, Bernini, Detalhe

5 Respostas para “Um estudo do detalhe

  1. “O pavor do olhar feminino contrasta com a espantosa ternura dos dedos do raptor” Verdade, ao olhar primeiro as imagens e depois ler o texto também notei isso, o pavor dela com a certa ternura do raptor. O texto também nos ajuda a olhar coisas que passariam desapercebidas.

    • Olá, Ediney, este contraste das vontades faz toda a diferença. O predador e a presa, o desejo e o receio, a carne e a pedra. É uma estátua muito simbólica da natureza dualista do amor. Obrigado pela leitura, um abraço. 🙂

  2. Helena Terra

    “todo sentimento é, por natureza, um ato de violência contra a própria pessoa”! Gustavo, esse texto está primoroso. A experiência de lê-lo é única. Nas suas palavras, conjugam-se a pedra, a carne e a beleza. Parabéns. Eu sou muito sua fã! beijoss

    • Uau. Toda vez que leio um elogio vindo da grande Helena Terra, sinto um misto de euforia e desespero: euforia por saber que atingi a excelência, desespero por não saber se serei capaz de replicar este momento de ápice. Mas vou continuar insistindo. Obrigado pela leitura e pelas palavras de estímulo, sou teu fã número, hum, acho que dois (o Hique vem na frente, hehehehhe). Beijo. 🙂

  3. Cristina Saraiva

    Foi por puro acaso que aqui cheguei, procurava uma imagem, uma escultura em pedra que ao olhar saberia que era o que procurava, deparei-me com este texto, lindo, que me fez abrir os olhos e ver verdadeiramente.

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