A poética e a mariposa

Perguntam de onde sai. Eu não tenho a mínima ideia. Simplesmente surge – assim como do Nada se fez o Verbo e do Verbo apareceu o Tudo.

Depois de tantos anos convivendo comigo mesmo, percebo que é algo no olhar, uma captação diferente, um desconforto na forma com que o mundo gira ao meu redor. O resto, o que eu faço com este olhar, é tudo controle. Disciplinar a cachoeira. Cercear o fluxo. Impedir a enxurrada. Criar dragas e postos de controle repletos de guardas e eclusas e atiradores de elite – para que nenhuma ideia fuja impune da penitenciária que as abriga.

No entanto, também existe um método, uma poética. Eu gosto do termo “poética”, mas não o uso na sua forma tradicional. Na minha concepção, poética é a maneira com que alguém olha o mundo e o transforma na sua própria realidade. Um marceneiro pode ter a sua poética, assim como um marinheiro ou um pintor. Um advogado e um economista também. Qualquer um. Tudo depende de enxergar o universo circundante e trazê-lo para a própria posse.

Gosto de pensar que somos humanos repletos de poéticas. Tudo está ao redor, ao alcance do olho, e ninguém vê. Passam tão rapidamente que esquecem de ver as maravilhas. Montaigne já dizia isto: se você dedicar uma parte do dia a se auto-contemplar, logo verá que toda a Humanidade mora dentro de si próprio. Mas ninguém perde tempo se olhando, preferem encarar os outros, esperando estúpidos espelhos ou o conforto de se sentir melhor. Ninguém treina o olhar para o absurdo que nos cerca. Tudo é absurdo. E patético. Mas ninguém nota. Esqueceram como se faz para abrir os olhos.

Enquanto isto, os poetas são os únicos que tentam mostrar que a poesia não está nas palavras, mas ao redor. Vinícius de Moraes também acha que o centro de tudo está em si, que os pontos cardeais são ditados por onde ele se encontra, que o ser humano é a própria poética que carrega:

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

O mais difícil é reconhecer a própria poética. Assumir que as cordas vibram de uma maneira particular e ressoam com a sua música especial. Depois que se descobre como o mundo reverbera nesta enorme caixa de ressonância que é o espírito, é só deixar ele sair. Ninguém vive na minha realidade. E ninguém nunca viverá.  Ela me pertence; eu sou a distorção do meu mundo.

Mas também existe algo estranho com o Tempo. Ele corre diferente. Acelera em horas inoportunas e, repentinamente, se concentra no detalhe, quando então se arrasta, obsessivo, em torno de um único ponto. Quando consigo me libertar da espiral, percebo que o Tempo do planeta passou muitos minutos – e eu não estava mais ali. Estava em um lugar único, onde nada possui nome e onde nominar é começar a criar, como diz o Manoel de Barros na sua própria poética, menos existencialista e mais sensata:

Prefácio
Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) –
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas –
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas –
Passaram essa tarefa para os poetas.

Centenas de pregos invisíveis que sangram aos poucos. (escultura de Antony Gormely)

Centenas de pregos invisíveis que sangram aos poucos. (escultura de Antony Gormley)

O que pouca gente é capaz de entender é a existência de um grande componente de raiva. Não gosto da minha poética: ela é distrativa e destrutiva, teimosa e ciumenta. Uma péssima companhia. Daria tudo o que tenho para não reconhecer a sombra que caminha comigo, não tentar aprender a conviver com o fosso. É uma batalha que não posso ganhar. É um animal que, quanto mais alimento, mais fome ele tem.

Estou condenado à insatisfação. Não consigo mais dominar os pensamentos. E só isto explica o fato de um texto suceder o outro, em uma torrente ininterrupta, e cobrar um tributo cada vez maior da minha paciência, do meu tempo de vida, da minha saúde. Quanto mais luto, menos sucesso tenho. Meu espírito acumula cicatrizes, textos mal formados e deformados, enquanto a poética ri.  Não posso mais descansar, até nos sonhos eles me perseguem. Sou o guerreiro do Augusto dos Anjos na sua poética bélica e vistosa, ainda lutando enquanto um por um dos adversários entra na arena para derrubá-lo:

Vencedor
Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração – estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

As pessoas perguntam de onde saem as histórias, e eu continuo sem saber a resposta. Mas posso dizer que é insuportável. Toda a minha existência foi destinada a controlar o fluxo. Estudei e pesquisei exaustivamente formas de evitar a enchente, sempre com a ilusão de que, um dia, a pedra chegaria ao fim do poço. Mas são muitos anos de disciplina e estou começando a cansar.

Deve ser por isto que todo mundo evita reconhecer a própria poética – viver dentro dela é enlouquecedor. Não é à toa que tantos artistas buscam o conforto das drogas, do álcool, da luxúria e até do suicídio; conviver com a sua poética é o mais difícil aprendizado que uma pessoa pode realizar.

Deveriam ter me avisado disto antes, pois sinto-me como a mariposa que se arremessa na lâmpada, sabendo que aquilo não vai acabar bem.

A espiral nunca termina. Quando se pensa que chegou ao fim, são novos começos. (escultura de Antony Gormley)

A espiral nunca termina. Quando se pensa que chegou ao fim, são novos começos. (escultura de Antony Gormley)

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3 Comentários

Arquivado em Antony Gormley, Augusto dos Anjos, Manoel de Barros, Montaigne, Poética, Tempo, Vinícius de Moraes

3 Respostas para “A poética e a mariposa

  1. escrever é uma sina, mais que uma benção. Podemos tentar fugir, mas queiramos ou não, voltamos quais filhos pródigos.
    Escrever pode doer, mas também ser o único alívio, o único amigo. Persiste, acha a tua voz novamente.

  2. Pingback: HOMO SAPIENS

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