Sobre a arte (perdida) da insinuação

É uma pena que as pessoas tenham perdido a arte de realizar insinuações, e uma lástima ainda maior que a literatura dita contemporânea – talvez influenciada pelo cinema ou pelas artes plásticas – baseie todo o caráter ficcional em uma enxurrada descritiva que deixa pouco espaço para a imaginação participar. Não são poucos os livros que afasto, cansado desta hemorragia de imagens (e do uso extremo de lirismo desastrado, mas isto é assunto para um outro momento). Para ler, precisamos de descrições, mas, quando elas estão em excesso, toda a diversão  de imaginar acaba se perdendo. O livro deixa de ser um diálogo com o leitor e vira um enfastiante monólogo.

Insinuar algo é uma arte na vida real: não basta plantar a semente na cabeça alheia. Também é necessário regá-la, cultivá-la, sonhá-la, tudo para que floresça e acabe se formando como uma certeza, mesmo sem jamais ter sido pronunciada. O que eu mais vejo são pessoas fazendo insinuações despropositadas, quase machadaços, sem nenhuma sutileza e, não raro, gerando o efeito diverso. A boa insinuação é aquela que diz tudo com o mínimo de elementos, interagindo mais dentro da mente do outro do que através de algo que tenha sido dito. As pessoas hábeis em insinuar são jogadores de xadrez capazes de prever jogadas de cinco, seis lances.

Na literatura, insinuar é uma capacidade em desuso. Neste caso, não é uma pessoa com quem se joga, mas com todos os leitores. E, para ser eficaz, a insinuação precisa ser entendida por todos e fazer um jogo mental com a imaginação desta figura, o leitor desconhecido. É pior do que o contrato de verossimilhança. Uma insinuação bem feita vale mais do que o livro inteiro.

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Recordo de dois casos em específico. É engraçado dizer isto, mas as maiores lutas que presenciei na literatura não existem como descrições literais. Elas aconteceram mais na minha imaginação do que dentro dos limites de um livro. São mais pedaços e estilhaços do que uma descrição inteira.

A primeira delas está em “Teresa Batista Cansada de Guerra”, do Jorge Amado. De um lado, Januário Gereba, um felino lutador de capoeira; do outro, uma quantidade indefinida de bandidos e de soldados. Toda vez que Januário se envolve em uma briga contra frequentadores de bar ou com a força policial, passes de mágica acontecem, forçando o leitor a fazer a ponte entre a narrativa e a imaginação. Na primeira luta em que ele aparece, dentro de um bar, a descrição é sucinta e suficientemente misteriosa para a interação do leitor:

“Sozinho tinha posto fim ao bafafá, rindo e falando alto, dirigindo-se a presentes e ausentes, pessoas e encantados; emérito no jogo da capoeira. Quando o tipo da polícia sacou do revólver, ameaçando atirar, nessa hora Flori desligou a luz e a responsabilidade fez-se coletiva e assim inexistente; quem pode dar testemunho do sucedido no escuro? O caboclo então lhe tomou a arma num passe de mágica e, se o secreta não houvesse espatifado a focinheira no chão, até se poderia dizer, não passando por mentiroso, tê-lo feito sem uso de pernas e mãos, na pura delicadeza.”

A luta continua, enquanto fregueses se misturam na confusão e Januário faz um estrago, até a chegada repentina de reforços policiais dispersar os brigões.

Em outro trecho, Januário volta a aparecer envolvido em uma briga contra vários policiais, novamente ganhando.

“Uns rapazes lhe contaram que a polícia prendera um arruaceiro (perigosíssimo, segundo revelou um dos tiras), aliás tinha sido necessário juntar para mais de dez agentes e guardas para conseguir sujeitá-lo, o fulano era mesmo perigoso, jogador de capoeira, quebrara uns três ou quatro policiais. Um cara enorme, com jeito de marinheiro. Não podia haver dúvidas sobre a identidade do preso. Os secretas estavam com raiva, desde a noite da briga.

— Já andei de um lado para outro, fui parar na central de polícia, estive em duas delegacias, ninguém dá conta dele.”

Em nenhum momento as lutas aparecem nas páginas do livro, elas só surgem em caráter entrecortado, na forma de conversas de outros personagens. Desta maneira, o leitor acaba sendo informado de que, toda vez em que entrava em uma briga, Januário era uma pessoa letal, um animal quase invencível.

As descrições luxuriosas de Jorge Amado deixam implícito que Januário Gereba era um mestre supremo da capoeira, tanto que a usava como dança e como uma mortífera arte marcial.  O fato de não existir descrições das lutas e a circunstância do marinheiro ter vencido uma série de batalhas impossíveis sempre fizeram a minha imaginação escrever um roteiro muito mais empolgante do que Jorge Amado conseguiria.

Outro exemplo de insinuação vem dos quadrinhos. Permitam-me ser um pouco contemporâneo: sim, eu considero os quadrinhos como uma forma artística na qual os desenhos podem se equiparar às melhores pinturas já feitas e os roteiros podem rivalizar com os de grandes romances. Não vou entrar na discussão epistemológica se quadrinhos são ou não literatura. Na minha concepção, eles são, pois preenchem os requisitos de uma boa história a ser passada no decorrer dos anos, e isto basta.

Na graphic novel “Os Livros da Magia”, escrita pelo Neil Gaiman (meu autor fetiche, mas não espalhem), é realizada uma grande homenagem aos personagens mágicos da DC Comics. A história gira em torno de um menino, Timothy Hunter, que tem o potencial de ser o maior  mago de todos os tempos, só não se sabe se para o bem ou para o mal. Um agrupamento díspare de magos resolve lhe mostrar os dois caminhos que podem ser seguidos. A assim intitulada “Brigada dos Encapotados” é constituída por John Constantine (o maior personagem que já foi criado, outra hora eu defendo a minha teoria), Doutor Oculto, Mister Io e o Vingador Fantasma.

Desde o início, eles mencionam, de forma indiferente, uma organização inimiga que teria se formado para matar o garoto, intitulada Chama Fria. Através de rápidas pinceladas, sabe-se que esta organização evolui a passos vistos e adquire poder crescente, tanto que realiza um atentado contra a vida de Timothy Hunter. Por meio de informações periféricas ditas por outros personagens, o leitor acaba descobrindo que os membros da Brigada dos Encapotados estão fazendo uma investigação e, logo, sitiam o local onde se reúne esta organização.

Impossível o leitor não se sentir angustiado ao imaginar como três seres pretendem atacar uma quantidade indefinida de inimigos poderosos (novamente a indefinição sendo plantada no espírito alheio). Não se pode esquecer que, enquanto a ação ocorre em um extremo desconhecido da narrativa, o foco do autor se mantém contando a história nada interessante de Timothy Hunter, deixando o leitor com a sensação de que está perdendo a melhor parte da trama.

E, enfim, a ruptura. Um bilhete inesperado convoca John Constantine a se juntar aos seus outros amigos para invadirem o esconderijo da Chama Fria. Enfurecido com a confusão em que foi envolvido, Constantine se afasta de Timothy Hunter e desaparece na sombra criada pelo autor e na qual se desenvolve a luta. A partir deste momento, só se ouvirão relatos da batalha invisível, e os relatos parciais são repletos de lacunas. Um personagem menciona que a batalha envolve “feitiços. Sacrifícios. Gente morta por toda parte (embora isso não seja novidade)”. O silêncio seguinte é desesperador.

Em outro momento, em uma conversa de salão, o leitor é informado de que a batalha que ocorre em outro lugar está cada vez mais intensa: “As coisas que eu estava contando… você não acreditaria. O culto de Kali, três esquadrões da morte ninjas, a Confraria da Chama Fria, mil elefantes…O Vingador Fantasma, o Dr. Oculto, Constantine, o outro pirado… TODOS eles. A maior batalha do oculto. Sangue. Devastação. Coisas estranhas.”

Para deixar a situação ainda mais instigante, só se sabe o resultado da batalha quando John Constantine retorna, e ele está com o rosto repleto de machucados e visivelmente ferido. A batalha foi vencida, mas só podemos imaginar as condições em que esta batalha contra um inimigo invisível e muito poderoso acabou acontecendo, pois a descrição nos foi habilmente escondida. Toda a luta acabou sendo insinuada, mas a insinuação foi tão bem feita que o leitor não percebe que a sua imaginação acabou sendo estimulada ao máximo. Na cabeça do leitor, novamente a luta foi bem melhor do que as palavras do escritor conseguiriam relatar.

Nos casos destas duas fenomenais batalhas que jamais aconteceram, acabamos com  a sensação de que lemos a sua descrição. No entanto, por um jogo narrativo que acabou contando com a cooperação involuntária do destinatário da obra, o autor conseguiu criar a aparência de verdade dentro da verossimilhança de uma obra. Uma verossimilhança dupla que dependeu do esforço lúdico do leitor e do sucesso da insinuação literária.

Acredito que esta seja uma das características mais interessantes da literatura: a capacidade de, em um jogo de espelhos, deixar a imagem refletida mais real do que as próprias palavras que a constituem. E exemplos são abundantes neste assunto. Quem esquecerá Luca Brasi, o assassino de confiança de Don Corleone em “O Poderoso Chefão”, de Mario Puzo, uma personagem tão assustadora que os mais empedernidos mafiosos a temiam, “um homem que intimidaria o próprio diabo no inferno”? As suas histórias eram sussurradas com respeito e medo nos meandros da narrativa. Imaginava-se que, quando ele aparecesse de forma efetiva na trama, seria decisivo. No entanto, a sua participação acabou sendo extremamente rápida e decepcionante. O autor brincou com a expectativa dos leitores, mas de forma adversa, construindo um mito e, em seguida, fazendo-o desmoronar em curtas frases.

É uma pena que as pessoas tenham perdido a capacidade de insinuar com classe. Há um grande embrutecimento das relações quando se desconsidera o valor de uma boa insinuação. E a literatura, com a sua atual incapacidade de ser sutil e deixar o leitor interagir com a história por meio da ausência, sai mais empobrecida. Nem sempre o excesso de descrições é uma boa estratégia; às vezes, a verborragia nada mais faz do que esconder a arrogância do autor e o seu desejo subreptício de mostrar ao leitor que, se não for a sua luz criativa a lhe guiar, ele é incapaz de imaginar sozinho. E ter este pensamento é um erro: uma das grandes vantagens da literatura é  jogar com os sentidos do leitor. As maiores histórias não precisam estar escritas. Ao contrário: escrevê-las também pode estragá-las.

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5 Comentários

Arquivado em Capoeira, Insinuação, John Constantine, Jorge Amado, Neil Gaiman, Quadrinhos, Tereza Batista Cansada de Guerra

5 Respostas para “Sobre a arte (perdida) da insinuação

  1. Kelli Pedroso

    Vou citar um clichê…rs. O menos é mais. Sempre. Baita texto!

    • Hahahahahaha, um clichê também é sempre bem vindo, Kelli. E, sim, menos é mais. Em um mundo onde as pessoas escancaram aquilo que pensam, a insinuação é uma arte em extinção, mas que ainda tem muitos encantos. Um beijo, e obrigado pela leitura. 🙂

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