Restos de um pesadelo, ou o coelho como representação imagética

Hoje é Páscoa e, enquanto todo mundo se concentra em ovos de chocolate e reuniões familiares, eu estou aqui pensando na representação imagética do coelho.

(Talvez seja reflexo direto de um pesadelo que interrompeu minha madrugada; não lembro direito o que sonhei, mas sei que tinha coelhos, as onipresentes galinhas rosnadoras – figura constante nos meus pesadelos -, a perseguição em um labirinto e dezenas de círios pascais.  A ideia de uma vela que arde por 40 dias ininterruptos sempre me fascinou).

O coelho é um animal que geralmente passa a impressão de ser inofensivo. Assustadiço. Frágil. Quando pequeno, me avisaram que eu não devia assustar coelhos, pois o seu coração era capaz de parar no meio da descarga violenta de emoção que representa um susto. Esta informação me deixava confuso: qual era o limite entre uma brincadeira e um susto para um coelho? Um grito podia ser considerado um susto? Uma corrida? Uma batida de mãos? O derrubar de um objeto pesado? Eu nunca soube direito como tratar coelhos e, por viver com medo de ser responsável por uma morte acidental, quando estava na presença de um, cuidava de ficar circunspecto e restringir meus movimentos ao máximo.

Em um curioso movimento de oposição, esta fragilidade do coelho não é refletida na literatura e no cinema. Para mim, as melhores representações de coelhos o situam como uma criatura misteriosa e maléfica. Lembro de que, em uma aula da Oficina Literária do escritor Assis Brasil, ele nos comentou o fato de que, na literatura, os autores gostam de se guiar pelo contraste de elementos opostos. Isto explicaria duplas como o gordo e o magro, o alto e o baixo, a loura e a morena, o burro e o inteligente. Ampliando esta ideia, não supreende que o coelho seja despido de toda a delicadeza e se torne um monstro insensível. Nada surpreende mais do que retirar a sensibilidade do coelho e o transformar em uma criatura malvada ou mais insidiosa do que imaginamos. Não se pode esquecer que o coelho não profere sons (pelo menos eu nunca ouvi): o que uma criatura silenciosa e discreta pode esconder no interior da sua carapaça inofensiva?

Eu gosto muito de três representações do coelho, duas na literatura e uma no cinema. A primeira delas é o Coelho de “Alice no País das Maravilhas”, do Lewis Carroll, este ser sempre atormentado, sempre atrasado, sempre em trânsito. É ele quem leva Alice para o País das Maravilhas e as suas aparições sempre me soaram um pouco frenéticas. No entanto, pelo fato de ter a sua rotina controlada por um impiedoso relógio, talvez o Coelho Branco seja a personagem mais coerente do livro de Lewis Carroll.

Poucas obras da literatura são mais angustiantes do que a jornada de Alice no País das Maravilhas. Nem tanto pelos elementos estranhos que ela acaba encontrando, mas por causa da sua viagem interior.  Os constantes questionamentos sobre quem Alice é, qual é o seu verdadeiro nome e por qual motivo ela é ela e não é uma outra pessoa são a moldura ideal para as perplexidades do leitor, que, além de não saber as respostas, sente a sua própria individualidade desvanecer-se dentro da obra. Borges diz que só existimos quando estamos diante de um espelho, e a experiência de uma leitura capaz de dissolver leitor, autor e personagem é perturbadora demais. Talvez estejamos todos no País das Maravilhas, tentando encontrar o retorno para casa, a saída do buraco. Muitas e muitas leituras já fizeram sobre “Alice no País das Maravilhas”, mas a mais inquietante ainda é aquela que diz que Alice morreu ao cair no poço e está indo para o Inferno. Nesta possibilidade, o fato do Coelho ter o controle do Tempo e do ritmo da narrativa não passa despercebido.

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Outra das minhas representações favoritas do coelho encontra-se no conto “Traz outro amigo também”, de Yves Robert, constante no livro “Ficção de Polpa – Vol. 2”. Neste conto, um homem contrata um detetive para encontrar o amigo imaginário que perdeu durante a sua infância, um palhaço de nome Cornelius. A perda é tão dolorosa – em última análise, perder alguém imaginário, além  de representar uma perda da inocência infantil, pode ser tão cruel quanto perder um amigo real – que o homem sente que a felicidade só poderá ser encontrada se ele voltar a estabelecer contato com este amigo imaginário. Apesar do objeto impossível da busca, o detetive acaba investigando e, no percurso, descobrirá outras infâncias perdidas.

Nesta história, o coelho aparece como a personificação do amigo que nunca deixou de confiar no outro. Ao contrário do homem obcecado por se reencontrar na infância, o coelho representa a infância tentando restabelecer contato com o adulto, o amigo interno que nunca nos abandona e está sempre à distância de um assobio. Aquele amigo capaz de retroceder para as sombras no momento em que não é necessário e reaparecer quando chamado, não interessando quanto tempo de afastamento se passe. Saber se afastar é tão importante quanto estar presente. Uma pena que as pessoas tenham desaprendido esta lição – ou acham que amizade verdadeira é algo histriônico, que demanda contato frequente e exaustivo. A verdadeira amizade é um estado de espírito, não uma presença.

Por fim, a minha terceira representação do coelho está no filme “Donnie Darko”. Um rapaz com traços de esquizofrenia começa a receber visitas de um coelho gigante e de aparência ameaçadora. As cenas do coelho espiando o sono do rapaz são especialmente marcantes. O coelho acaba salvando a vida do outro e ganha salvo conduto para explorar as discrepâncias entre ficção e realidade, enquanto questiona o sentido da vida e a finalidade da morte.

O grande mérito do filme é fazer o espectador aceitar um coelho gigante como algo natural. A voz estranhamente pacífica do coelho, ao mesmo tempo em que não interrompe a suspensão da descrença, ilude e tranquiliza quem se vê submetido a ela. É a imagem quem assusta, assim como a sensação de que cada pessoa pode ter dentro de si um coelho gigante imaginário com quem conversa em silêncio – podemos chamá-lo de consciência. A frase mais emblemática do filme, “why are you wearing that stupid man suit?“, mostra algo que a Clarice Lispector escreveu muitos anos antes: somos todos infinitos, é somente a nossa pele que delimita. E a consciência e o delírio andam em caminhos tão semelhantes que não surpreende o fato deles se confundirem.

Nas minhas três representações imagéticas do coelho, percebo que ele deixa de ser um animal inofensivo e se transforma na configuração de algo maior, seja a infância, a consciência ou a própria noção de Tempo. Chama atenção que tais variáveis escolham, como meio de expressão, uma criatura que lhes é tão oposta. Ou o meu olhar é que está equivocado, e os grandes assuntos podem estar concentrados nos menores e mais insignificantes recipientes.

Algo me diz que aqueles olhos vermelhos não podem ser tão inocentes quanto aparentam. Talvez meu inoportuno pesadelo tenha me forçado a lembrar de algo que gostaria de ter esquecido. Talvez os frágeis sejam os mais perigosos de todos.

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4 Comentários

Arquivado em Alice no País das Maravilhas, Amizade, Coelho, Donnie Darko, Infância, Lewis Carroll, Literatura, Yves Robert

4 Respostas para “Restos de um pesadelo, ou o coelho como representação imagética

  1. Eu acabei de pensar em uma teoria a respeito dos coelhinhos fofinhos e de outras representações arquetípicas de bondade e fragilidade. São perigosos porque nos cativam, nos escravizam. Ficamos irremediavelmente comprometidos a lhes proteger. Exercem a tirania da pena. Não podemos abandoná-los. Seria monstruoso deixá-los desamparados.
    Um abraço,

    • Alexandra, já dizia Baudelaire que o maior engodo do diabo é provar que ele não existe. Por exercerem ao máximo o seu aspecto inofensivo, imaginamos que animais delicados como coelhos são incapazes de realizarem maldades, mas quem sabe o que se esconde por trás de aparência tão plácida? Talvez os livros e o filme que eu citei nesta postagem tenham conseguido ver além da fragilidade. Creio que o Darwin também afirma, na sua Teoria da Evolução, que é uma estratégia evolucionária fazer com que os filhotes em geral tenham uma aparência mimosa para despertar a compaixão das espécies que podem destruí-los. Às vezes, ter piedade e compaixão pode ser algo extremamente perigoso, em especial quando não sabemos o que se esconde por trás da enganadora aparência, hehehehhe. Um abraço, e obrigado pela leitura

  2. Tem também “Carta a uma senhorita em Paris”, do Cortázar. Os coelhinhos são uma puta duma metáfora!

    • Sim, eu nem lembrava mais deste conto do Cortázar! Outro dos meus “coelhos literários” inesquecíveis. Uma excelente metáfora mesmo, Marcella. Obrigado pela leitura.

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