No domínio da própria alma

Jorge Luis Borges afirmou que uma das maiores ilusões do homem é achar que a Humanidade nasceu no mesmo dia em que ele; o homem acha que o Tempo da existência humana se confunde com o tempo da sua vida. Salvo melhor juízo, também sou um homem, com suas qualidades e defeitos, e acredito que o Tempo nasceu no mesmo momento em que respirei pela primeira vez esta mistura de oxigênio e nitrogênio que começou a me matar e a envelhecer lentamente assim que entrou nos pulmões.

Há muitos anos atrás, quando a Humanidade recém respirava na sua juventude, eu joguei basquete no colégio Santo Antonio, em Porto Alegre, RS. Por favor, não alimentem ilusões – eu jogava mal. Talvez alguma voz piedosa se levante em minha defesa, mas tenho noção das minhas poucas capacitações para jogar basquete. Algumas das melhores recordações que tenho do colégio estão ligadas ao basquete. O nosso time não era o melhor do mundo, mas éramos honestos e jogávamos com confiança inversamente proporcional à habilidade. Lembro de dezenas de histórias desta época de glórias-sem-glórias (nunca ganhamos nada, mas ganhar algo realmente importa?) e, se não as compartilho com o mundo, é por respeito e homenagem aos meus colegas de time, todos homens sérios e responsáveis. As histórias devem ficar no passado.

Mas recordo de um fato que acabou sendo marcante por vários motivos. Estávamos participando de um campeonato entre colégios e clubes e – não lembro direito o motivo – acabamos tendo que jogar contra a Sogipa. O basquete da Sogipa, um clube de Porto Alegre, participava de campeonatos nacionais e jogava parelho com os grandes times da época. Pegar um modesto time de colégio devia ser algo muito mais fácil do que um treino. O time reserva deles era mais perigoso que o nosso; o time infantil da Sogipa já nos faria suar. E, para culminar com o nosso azar, boa parte do time oficial do colégio estava doente, machucada ou precisando estudar para provas. Por este motivo, acabamos indo jogar altamente desfalcados. Não me recordo nem se tínhamos reservas disponíveis para substituir os titulares daquela partida. Era entrar em quadra, perder com algum mínimo de honra e ir embora.

Estávamos nos preparando para o jogo e, vendo o aquecimento dos adversários, ficamos abismados. No colégio, jamais conseguíamos dar “enterradas”: ainda recordo a primeira e inesquecível vez em que um colega de time conseguiu tamanha proeza, ficamos uma semana comentando o seu feito. O time da Sogipa só sabia dar “enterradas”, e de todos os lugares do garrafão. Eram jogadores enormes, fortes, rápidos, tudo aquilo que não éramos. Prevíamos uma derrota inesquecível e já estávamos resignados.

Antes de entrar na quadra, nosso capitão do dia, o grande Daniel Banias, se aproximou e apontou o jogador que eu ia marcar. Nunca tinha visto um cara tão grande, tanto em matéria de músculos quanto de altura. Eu ri e disse que nunca conseguiria marcá-lo, que ele era impossível de ser derrotado, que nós só estávamos fazendo figuração na quadra para não perdermos de W.O. O Daniel olhou bem sério, segurou meus ombros e falou: “Cara, não me interessa o que tu pensa. Tu vai entrar nesta quadra e vai marcar aquele merda e vai anular ele, sabe por quê? Por que o time precisa. Por que a gente confia em ti. Ele é mais alto e mais forte do que tu, mas, hoje, tu vai ser MAIOR do que ele.”

Não sei o que foi que aconteceu, mas posso garantir que foi a partida da minha vida. Eu realmente anulei o jogador. Lembro de ter dado quatro “tocos” nele; lembro de ter marcado ele com tanta força que, em uma disputa mais ríspida, o arremessei com todos os músculos para fora da quadra; lembro que ele tentou trocar de lado para invadir o garrafão e sempre me encontrou no caminho; lembro de interceptar passes e de deixá-lo nervoso e irritado. Claro que, no resultado final, não adiantou nada, pois perdemos de forma estrondosa. O fato de eu conseguir anular um jogador não impediu os outros quatro de passarem por cima da gente. Acho que fizemos uma cesta de três pontos por acidente e, em compensação, eles empilharam pontos. Mas, como era a tônica naquela época, não ficamos tristes ou arrasados, saímos do mesmo jeito em que entramos na quadra.

Às vezes recordo desta partida, em especial nos momentos tenebrosos ou quando desanimo. De alguma forma, este jogo me define. Tudo está dentro da cabeça: a força do adversário, a sua inexorabilidade, a certeza da minha inferioridade, a derrota. E tudo pode ser vencido se eu ignorar a razão. Como diria Jean Cocteau, “sem saber que era impossível, ele foi lá e fez.” No final das contas, um homem armado somente com a esperança ainda é o mais temível dos adversários.

Esta história me faz lembrar de um poema, um dos maiores libelos a favor da força do espírito, um poema cujas palavras sempre me assombram e em diferentes momentos. O nome dele é “Invictus”, de William Ernest Henley:

Invictus

Out of the night that covers me,

Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William_Ernest_Henley_young

Recentemente, em uma postagem do blog, perguntei-me se era possível que a alma da poesia fosse tocada através de um solitário poema ou se ela era algo que necessitava de um trabalho perene e infatigável (foi neste post aqui: https://homemdespedacado.wordpress.com/2013/02/03/elogio-tardio-a-poeta-desconhecida/ ). William Ernest Henley (1849-1903) é a prova viva do meu desconforto: a sua existência inteira foi um prelúdio doloroso para este poema e poderia ter se encerrado assim que ele colocou o último respingo de tinta no papel. A própria Wikipedia diz que a vida dele se limitou a estes versos, motivo pelo qual é conhecido e ainda citado, mesmo 110 anos depois de sua morte.

A sua história de vida, quando confrontada com o poema, o deixa ainda mais singular. Ele nasceu e viveu em estado de mais absoluta pobreza. Henley tinha 13 anos de idade quando foi diagnosticado com tuberculose. A doença acabou afetando os seus ossos e, para salvar a sua vida, os médicos amputaram a perna na altura do joelho. Há relatos de que foi uma experiência altamente dolorosa. Os médicos pretendiam amputar também a outra, mas o americano recebeu o auxílio de outro médico, que fez um trabalho intensivo com a perna remanescente e a utilização de remédios para erradicar a doença, algo que lhe deixou muitos anos entravado. E foi com estes problemas de saúde que ele escreveu “Invictus”, louvando a força da alma e o império da vontade sobre todos os problemas que lhe afligiam.

Impossível não pensar em Henley deitado na cama, sem uma perna e na iminência de perder a outra, sacudido por dores excruciantes e, neste cenário catastrófico, ao invés de pensar na saída fácil do suicídio ou na longa estrada da auto-comiseração, receber a inusitada visita de Calíope, Musa da Poesia, e escrever uma defesa da imortalidade do seu espírito. Não se escolhe a hora e muito menos se escolhe o momento; tudo é questão de estar atento e esperar o infinito bater na porta.

Naquele dia, naquela quadra, lutando a batalha impossível, eu entendi William Ernest Henley e o fato dele se considerar “Invictus”. Qualquer pessoa pode ser invencível se tiver confiança em si mesmo, se tiver esperança. Não existe nada maior do que a alma humana, e sempre é bom lembrar disto, por mais que tentem nos fazer esquecer todos os dias.

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3 Comentários

Arquivado em Basquete, Generalidades, Invictus, Jorge Luis Borges, Poesia, Sogipa, Uncategorized, William Ernest Henley

3 Respostas para “No domínio da própria alma

  1. Gostei muito, como sempre gosto. Sempre me impressionam as pessoas que tem uma gana de lutar, uma coragem supra humana (escolhi supra ao invés de sobre por achar mais forte). Há exemplos vários de pessoas que foram bravas diante a adversidades terríveis e venceram ou, se não, sucumbiram lutando, a tal morte gloriosa.
    Mas (sempre há um mas) tenho uma divergência: não creio ser o suicídio uma opção fácil. Ao contrário, é muito difícil e julgo até corajosa porque vai de encontro ao impulso natural de manter a vida. Nesse ponto, concordo com Vila-Matas (ou com um personagem deste) que diz ser a vida quase tão absurda como a morte.

  2. Eu luto…sou como Dom Quixote!Mas tudo por amor às causas tão perdidas! 😀

  3. José Francisco Botelho

    Um dos meus poemas favoritos também é um libelo contra a resignação, mesmo na face da morte:

    “Do not go gentle into that good night,
    Old age should burn and rage at close of day;
    Rage, rage against the dying of the light.
    Though wise men at their end know dark is right,
    Because their words had forked no lightning they
    Do not go gentle into that good night.

    Good men, the last wave by, crying how bright
    Their frail deeds might have danced in a green bay,
    Rage, rage against the dying of the light.

    Wild men who caught and sang the sun in flight,
    And learn, too late, they grieved it on its way,
    Do not go gentle into that good night.

    Grave men, near death, who see with blinding sight
    Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
    Rage, rage against the dying of the light.

    And you, my father, there on the sad height,
    Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
    Do not go gentle into that good night.
    Rage, rage against the dying of the light.”

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