Sobre perder e não querer encontrar

Sou o feliz proprietário de três exemplares de “Variedades”, do Paul Valéry. Descobri este fato hoje, após parar diante dos meus livros, um copo de água na mão, e deixar os olhos passearem, indolentes, pelas lombadas de múltiplos tamanhos, formatos e cores. De repente, com clareza constrangedora, os três exemplares idênticos se revelaram, zombeteiros.

Em um mundo repleto de livros interessantes para adquirir, e considerando-se o espaço que eles ocupam dentro das dimensões do apartamento, pareceu uma bofetada ter três livros iguais. Pude imaginar eles brincando de esconde-esconde na prateleira, esquivando-se da minha atenção e forçando-me a comprar os seus semelhantes. Ao invés de culpar a minha cegueira seletiva, preferi culpar o Valéry, cujo ensaio “Introdução ao Método de Leonardo da Vinci” é simplesmente um dos textos basilares da minha existência. Tão bom que o comprei em três ocasiões diferentes, talvez na tola esperança de que assim o retivesse com maior efetividade ou aplicasse melhor seus ensinamentos.

Ter três livros iguais é uma maneira que a minha cabeça criou para nunca perdê-los. Se fossem dois livros, eu ainda poderia argumentar um esquecimento fugaz ou um momento de distração, mas três livros é uma mensagem: você, que tantos livros importantes já perdeu, não pode perder este, precisa ter um sempre à disposição para nunca esquecer.

Mas a descoberta de três livros idênticos me fez pensar naquilo que já perdi. Como todo ser humano, perdi várias coisas, desde sentimentos até chaves de casa, passando por oportunidades e por textos inéditos. Sempre encarei a perda no sentido mais puro da palavra: ser privado de algo precioso por esquecimento ou indolência. Nos últimos tempos, contudo, comecei a considerar o ato de perder uma arte: eu perco coisas para reconhecer o seu valor, saber a dor que é não mais possuí-las. Eu perco objetos e sensações para que possa, talvez, um dia, recuperá-los.

Questiono se não existe alguma intencionalidade oculta no ato de perder algo. Os esquecimentos e perdas podem não ser objeto de acidente. Pode ser que eu esqueça coisas que não deseje mais encontrar – ou outras cujo reencontro me trará tanto prazer que perco só para poder ter este momento único que é o encontro. Perder sempre lembra desastre, mas pode ser também um ato de aprendizado, um descarte necessário que o inconsciente viu e a pessoa ainda não. Perder pode ser uma limpeza da alma.

Lembro de uma poesia da Elizabeth Bishop, que recebeu uma tradução esplêndida do Horácio Costa:

Uma arte

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.

– Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda – escreva tudo! – lembre desastre.

Elizabeth Bishop

Elizabeth Bishop

Lendo a calma com que a Elizabeth Bishop fala das coisas que perdeu no decorrer da vida, penso que boa parte das coisas que deixei de encontrar não foi por acaso, e sim por que elas mereciam ser descartadas. Assim como há um tempo de plantar e um tempo de colher, também existe um tempo de ter e um tempo de perder. Hoje, com olhos mais antigos, repudio a raiva que senti quando perdi coisas no passado. Nunca existiu nenhum desastre irreparável. Tudo aquilo que perdi pode ser reposto e, se eu perdi de tal forma que foi impossível achar o seu rastro, foi por que eu não quis encontrar ou o esforço não valia a pena.

No final da nossa história, a única coisa que realmente se perde e é irrecuperável é o Tempo.

Não sou mais tão duro e raivoso com aquilo que perdi, hoje sei que, para avançar, também necessito saber perder pesos, como um barco que se livra da carga excedente para poder flutuar com mais leveza em meio à tempestade. No entanto, descobri que certas coisas eu simplesmente não posso perder de jeito nenhum e, se perder, preciso de reposição imediata. Acabo de descobrir que tenho NOVE – sim, amigos, NOVE – exemplares de “A poética”, do Aristóteles. Sinto que, dentro do meu espírito, existe alguém gritando para que eu nunca abandone a verossimilhança neste mundo eivado de irrealidades, para que eu me mantenha real e palpável, para que não me perca no meio do bosque das histórias não contadas. Aristóteles e Valéry não deixarão que a minha alma se perca. Com guias deste porte e com tal cornucópia de livros semelhantes, posso caminhar tranquilo, sabendo dos meus limites.

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3 Comentários

Arquivado em Aristóteles, Elizabeth Bishop, Paul Valéry, Perder

3 Respostas para “Sobre perder e não querer encontrar

  1. Obrigada. Nem imaginas como me iluminaste o resto do dia e confortaste o prenúncio da minha noite.

  2. Minhas perdas passarão a ser mais valorizadas, doravante. Exceto a das pessoas, pois nenhum valor vale o sofrimento.

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